Uma câmera na mão e um massacre na cabeça
Três posts abaixo, eu estranhava a divulgação excessiva de um vídeo feito por um amador com seu celular que tentava registrar o massacre em Virginia. Como as imagens no fundo não mostravam nada (e significavam muito pouco), sugeri que se tratava de um fetiche por uma imagem não-institucional, despertado pela disseminação (democratização?) das tecnologias digitais.
É claro que a mesma tese não se aplica aos vídeos que Cho Seung-hui realizou durante massacre e enviou à NBC. As imagens me parecem extremamente representativas da realidade em que vivemos. Elas são “the real thing”, como dizem os americanos Um fato, não um fetiche.
Como sempre nesse tipo de caso, existe uma acalorada discussão sobre a facilidade de se obter uma arma nos Estados Unidos. É um debate sempre válido e necessário, em qualquer parte do mundo. Mas não é o fato novo no massacre da Virginia. De tempos em tempos, surge (e continuará surgindo) um atentado parecido, nos EUA ou outro país, com armas legais ou não.
A novidade aqui é o vídeo. Parece-me mais interessante – e talvez mais importante e urgente – discutir não como ele conseguiu sua arma, mas por que ele decidiu gravar seu “manifesto” durante o massacre. A arma o transformou em um assassino único. A câmera revelou-o como representante de uma geração.
Seguindo um padrão psicológico comum nesses casos, Cho era solitário e silencioso, alguém que tinha enormes dificuldades para se comunicar com os outros. Ele só conseguia fazer “contato” com o mundo se tivesse um anteparo virtual. Antes do massacre, era a internet (onde ele assumia uma segunda personalidade). Durante, foram os vídeos (que realizou e distribuiu com espantosa naturalidade).
Descontada a psicopatia que levou ao massacre, será que Cho era tão diferente assim de outros jovens de sua geração? Na forma e em parte do conteúdo, seus vídeos são muitos parecidos aos depoimentos confessionais que se encontram aos tubos no YouTube, com o perdão do trocadilho infame.
Supõe-se que esse tipo de massacre é motivado por uma necessidade drástica de chamar a atenção dos outros. Nesse sentido, Cho foi muito bem-sucedido. Com os vídeos, ele conseguiu ampliar muitas vezes a repercussão de seu feito, virar um sucesso de audiência nas novas e nas velhas mídias e se tornar, enfim, um garoto popular.
Por alguns dias, Cho emprestará seu rosto para o pôster da revolução digital, aquela que fez a revista “Time” eleger Você como a Personalidade do Ano. Nesse momento, Cho é Você.
