Como filha de Francis Ford Coppola, o diretor de “Apocalypse now” (1979), Sofia fazia parte da nobreza de Hollywood em sua adolescência. Aos 19 anos, ela passou a ser hostilizada pelos súditos, por sua participação como atriz em “O poderoso chefão 3″ (1990), dirigido por seu pai.
Dezessete anos depois, já consagrada como cineasta, Sofia Coppola volta seus olhos para uma figura histórica de trajetória semelhante: Maria Antonieta, a nobre austríaca que se tornou a rainha mais desprezada da França e ficou famosa pela frase (talvez nunca proferida) “se eles não têm pão, que comam brioches”.
“Maria Antonieta”, o filme que estréia hoje no Brasil, quase um ano depois de ser vaiado no Festival de Cannes, dá continuidade a um dos projetos autorais mais interessantes do cinema atual. Em seu terceiro longa, Sofia mais uma vez tenta traduzir, em imagens e sons, a sensação de deslocamento vivida por uma jovem mulher.
No longa de estréia, o promissor “As virgens suicidas” (1999), era um grupo de adolescentes confinadas em casa pelos pais em um subúrbio americano nos anos 70. No filme seguinte, o essencial “Encontros e desencontros” (2003), tratava-se de uma garota americana perdida na Tóquio contemporânea.
Agora, no belo e imperfeito “Maria Antonieta”, Sofia parte para um desafio maior: apresentar a história da rainha francesa como mais um exemplo dessa idéia de não-pertencimento, transformar uma figura conhecida em um espelho de sua obsessão.
“Maria Antonieta” é fruto de uma tentativa de uma cineasta se identificar e de se aproximar de sua personagem. E qual o primeiro passo que Sofia toma nesse sentido? Emprestar a trilha sonora de sua vida para a história da rainha.
Isso não quer dizer que a cineasta trouxe Maria Antonieta para os dias de hoje, e sim que a levou para os anos 80 de sua adolescência, para as danceterias onde ouvia Gang of Four, Siouxsie and the Banshees, The Cure e New Order. Mais uma vez, Sofia comprova que é hoje, ao lado de Quentin Tarantino, o diretor que cria as trilhas mais significativas com músicas não-originais.
A segunda providência da cineasta foi embalar a história de Maria Antonieta com a mesma atmosfera onírica de seus filmes anteriores, como se ela filmasse não tanto a trajetória real da rainha, mas um sonho que teve sobre ela. Isso significa que ela assumiu um ponto de vista livre e pessoal, sem viés ideológico ou preocupação ocm o didatismo.
A Maria Antonieta do filme não é a dos livros de história, mas a Sofia Coppola. E quem é, afinal, essa mulher? Em primeiro lugar, Maria Antonieta (Kirsten Dunst) é a adolescente arrancada do conforto de seu lar em Viena e levada para a gaiola de luxo do palácio de Versalhes, para se casar com o futuro rei Luís XVI (Jason Schwartzman) e celebrar a união política entre França e Áustria.
Em pouco tempo, ela fica entediada com os rituais e as fofocas da corte e frustrada com a inapetência sexual do marido, que não se interessa em consumar o casamento por longos sete anos. Mas é ela quem leva a má fama, por não gerar herdeiros para o trono francês.
Depois de ter o primeiro filho, Maria Antonieta tenta contornar o tédio e a solidão pelas vias da frivolidade e do hedonismo, dedicando-se a roupas luxuosas, festas extravagantes e a um amante sueco. Isso só aumentará a insatisfação com a rainha. No final, aos olhos da população, ela se torna o símbolo da decadência da nobreza e alvo preferencial dos líderes da Revolução Francesa.
Prisão, libertação, confrontação. É o mesmo movimento feito pelas protagonistas dos filmes anteriores de Sofia, a Lux Lisbon (interpretada pela mesma Kristen Dunst) de “As virgens suicidas” e a Charlotte (Scharlett Johansson) de “Encontros e desencontros”.
A muitos críticos, especialmente os franceses, o filme pareceu tão superficial quanto sua protagonista. É uma visão limitada, já que a cineasta se propõe justamente a fazer a crônica da superficialidade da nobreza. O que talvez tenha incomodado os jornalistas é que Sofia recusa-se a condenar a rainha de forma extemporânea. Em vez disso, ela lança para Maria Antonieta o mesmo olhar compreensivo que dedicou a suas outras jovens personagens.
Isso não quer dizer que “Maria Antonieta” seja um filme perfeito. “Encontros e desencontros” diagnosticou essa sensação de deslocamento de forma mais precisa e delicada. No novo filme, Sofia não apenas mostra uma garota perdida, como às vezes se mostra também perdida em uma narrativa dispersa e repetitiva.
Mas não se pode acusar Sofia de pecar por medo ou mediocridade. Ela fez um filme arriscado e idiossincrático. Fez, enfim, o filme que quis. Como seu brilhante pai, ela prova outra vez que é grande nos acertos e nos erros.