O Oscar 2007, cuja cerimônia de premiação será coberta ao vivo aqui em NoMínimo a partir das 22h30 de hoje, já foi resumido de várias formas, quase sempre de maneira categórica. Este seria o Oscar mais disputado dos últimos tempos na categoria principal. É verdade.
Quase sempre há apenas um ou dois filmes favoritos ao Oscar de melhor filme. Neste ano, todos os indicados à categoria principal – “Os infiltrados”, “Babel”, “Cartas de Iwo Jima”, “A rainha” e “Pequena Miss Sunshine” – têm chances maiores ou menores de levar a estatueta.
Este Oscar também já foi definido como o mais globalizado e diversificado da história. Também é fato indiscutível. Apenas nas categorias de interpretação, concorrem cinco negros, quatro britânicos, uma australiana, uma japonesa, uma espanhola, uma mexicana e um beninês. Há mexicanos disputando nada menos que 12 estatuetas.
Mas esses são fatores até certo ponto externos aos filmes. Será que existe algo de essencial que una os cinco indicados à categoria principal? Embora seja um exercício um tanto abstrato encontrar unidade e definir tendências no balaio de gatos que é o Oscar, arrisco aqui uma teoria.
Este é o Oscar do olhar estrangeiro. Não pela marcante presença internacional entre os indicados. Mas pela tentativa de apontar a câmera para além do universo dos realizadores, de tentar enxergar e desvendar o Outro – seja ele japonês, mafioso, nobre, americano médio ou terceiro-mundista.
O Oscar do ano passado foi político de maneira direta e por vezes partidária, com filmes como “Boa noite e boa sorte”, “Munique”, “Crash” e “O segredo de Brokeback Mountain”. O de 2007 é político de forma mais sutil e humanitária.
O esforço de olhar o Outro fica mais evidente em “Cartas de Iwo Jima”, que mostra o lado japonês da famosa batalha da Segunda Guerra pelo ponto de vista do cineasta norte-americano Clint Eastwood.
Mas também está presente em um exercício de gênero como “Os infiltrados”, releitura de Martin Scorsese para um filme policial de Hong Kong. A idéia de assimilar o Outro é fundamental à própria trama, em que um tira se faz passar por mafioso e vice-versa.
Já “A rainha” é uma tentativa de decifrar a intimidade de uma monarca (Elizabeth II) pela visão de um plebeu (Tony Blair, que funciona como uma espécie de alter ego do diretor inglês Stephen Frears).
Por sua vez, “Pequena Miss Sunshine”, de Jonathan Dayton e Valerie Faris, adota a perspectiva de uma família de desajustados sociais (um senhor drogado, um professor homossexual, um adolescente rebelde, entre outros) para criticar o americano médio, com sua obsessão pela beleza e sua condenação dos perdedores.
E, para finalizar, “Babel” faz uma metáfora da globalização em que o ponto de vista do Primeiro Mundo (americanos e japoneses) prevalece sobre o do Terceiro (mexicanos e marroquinos, detonadores das desgraças dos anteriores). É uma inversão um tanto perversa para um filme dirigido por um mexicano, “subdesenvolvido” na origem, mas “desenvolvido” no projeto de cinema.
Portanto, todos os indicados ao Oscar de melhor filme por esse olhar estrangeiro. Mas cada um o manifesta de forma distinta e com objetivos diferentes. “Cartas de Iwo Jima” e “A rainha” são tentativas muito claras de entender o Outro. Já “Pequena Miss Sunshine” e “Babel” fazem a condenação daquilo que é diferente ao universo dos realizadores.
Já o trágico “Os infiltrados” situa-se num lugar à parte, distante tanto das boas quanto das más intenções. Ele não quer compreender ou criticar o estrangeiro. Apenas apontar a impossibilidade de fugir de si mesmo (de seu grupo, de seu passado) tentando se passar por outro. Mesmo tema de “Taxi driver”, “Touro indomável”, “Os bons companheiros”, as melhores obras de Scorsese.
Apesar de ser um remake, “Os infiltrados” é um filme de autor. E, mesmo se filiando a um gênero supostamente despretensioso, é o mais complexo dos indicados a melhor filme. Também é, desde sempre, o preferido deste blogueiro nesta noite.