Já existe um senso comum formado sobre o resultado do Oscar 2007: a vitória de “Os infiltrados” foi uma tentativa de reparar uma injustiça histórica com Martin Scorsese, que nunca havia sido premiado. Talvez seja verdade. Talvez não. Difícil saber o que se passa na cabeça dos integrantes da Academia, cujos votos são secretos, mas sujeitos a influências externas.
Se houve “mea culpa” de Hollywood, seu efeito não poderia ter sido mais positivo. Não apenas porque se fez justiça com um dos mais importantes cineastas da história. Nem tampouco porque foi premiado o melhor dos cinco indicados na categoria principal, na opinião deste blogueiro, que sempre comporta algo de subjetividade.
Mas porque a vitória de “Os infiltrados” representou a consagração do filme policial, que costuma ser ignorado pela Academia de Hollywood, mas que é um dos gêneros americanos por excelência, ao lado do faroeste e do musical. Muito se fala sobre a rejeição do Oscar à comédia. Mas a verdade é que o policial é ainda mais desprezado nas premiações.
“Os infiltrados” é um filme totalmente “sui generis” dentro da história do prêmio: violento, meio gaiato, sem sentimentalismo ou moralismo, sem aspirações a ganhar o Oscar ou se tornar Grande Arte (e, por isso mesmo, visto, de maneira um tanto ligeira, como um filme menor).
Nesse sentido, “Os infiltrados” é um anti-”Babel” ou um anti-”Crash” – duas produções que se pretendiam mais profundas do que eram na realidade. O filme de Scorsese é o contrário: muito mais profundo do que aparenta à primeira vista.
Está certo. “Os infiltrados” não está no “núcleo duro” da obra de Scorsese – formada por “Taxi driver”, “Touro indomável” e “Os bons companheiros”. Mas é muito superior aos filmes mais pomposos de Scorsese, como “A época da inocência” ou “O aviador”, que tinham muito mais “cara de Oscar”.
Como se sabe, a produção de Scorsese é um remake de um policial de Hong Kong (mais um motivo para o filme ser discriminado). Na prática, isso significa que o mestre americano soube enxergar onde está o melhor cinema de ação atual e tomar emprestado parte de sua energia.
Em um certo momento da noite de ontem, a previsão de que este seria um Oscar mexicano estava se confirmando, com as três premiações de “O labirinto do fauno”. Mas a vitória de “Os infiltrados” também representa a consagração de uma nova ordem cinematográfica, cujo maior pólo de invenção encontra-se no Extremo Oriente.