Quero ser Charlie Kaufman
Como muitos já sabem, Charlie Kaufman – o autor de “Quero ser John Malkovich” (1999), “Adaptação” (2002) e “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” (2004) – é hoje o roteirista mais influente e badalado de Hollywood. Mas o que talvez nem todos tenham percebido é que ele vem sendo imitado de maneira tão descarada que já originou um subgênero cinematográfico: o das comédias “kaufmanescas”.
O mais novo exemplo desse fenômeno chama-se “Mais estranho que a ficção” e estréia hoje no Brasil. Roteirizado por Zach Helm, o filme conta a história de Harold Crick (Will Ferrell), um auditor da Receita Federal americana que um dia descobre ser o personagem de um livro escrito por Kay Eiffel (Emma Thompson) e que está prestes a ser morto pela autora. Enquanto descobre o amor com uma dona de padaria (Maggie Gyllenhaal), ele tenta encontrar a autora para transformar seu destino de tragédia em comédia. Em duas palavras: puro Kaufman.
Não é muito fácil encontrar uma definição para os filmes escritos por ele. São comédias metafísicas/surreais ou existenciais/fantásticas. Mas eles costumam seguir o mesmo script: um homem comum se vê metido de repente em uma situação absurda; primeiro, ele entra em desespero, depois encontra uma possibilidade de redenção.
Em “John Malkovich”, John Cusack interpreta um sujeito que encontra no sétimo e meio andar de seu trabalho um portal para a cabeça do ator americano que dá título ao filme. Em “Brilho eterno”, Jim Carrey descobre que sua ex-namorada decidiu participar de um experimento científico para apagá-lo de sua memória e decide fazer o mesmo.
Os roteiros de Kaufman têm evidente influência dos romances do escritor tcheco Franz Kafka, como “O processo” – em que um homem não consegue descobrir, em meio a um labirinto burocrático, a razão de estar sendo processado – ou “A metamorfose”, aquele que começa com a célebre frase: “Certa manhã, ao acordar de sonhos inquietos, Gregor Samsa viu-se transformado num gigantesco inseto”.
Em um interessante artigo para o “London Times”, o jornalista Kevin Maher defende a tese de que o impacto da obra Kaufman não se limita aos filmes independentes, mas também aos blockbusters hollywoodianos. Ele cita como exemplos “Click”, em que Adam Sandler adquire um controle remoto que avança, pausa ou retrocede o tempo de sua vida, e “Déjà vu”, em que o policial Denzel Washington usa um computador que reconstitui o passado para evitar um crime já cometido.
Com estréia no Brasil marcada para semana que vem, “Déjà vu” é uma má imitação de Kaufman, um bizarro encontro do universo do escritor com a direção cafona de Tony Scott (”Top gun”) e a produção espalhafatosa de Jerry Bruckheimer (”Piratas do Caribe”). Já “Mais estranho que a ficção” é um cover talentoso, que aproveita o ótimo comediante Will Ferrell em um papel de maior envergadura dramática, a exemplo do que foi feito com Jim Carrey em “Brilho eterno”, uma direção elegante de Marc Foster (”Em busca da terra do nunca”) e um roteiro com uma mensagem esperta: o drama pode até render grandes obras de arte, mas é o humor que transforma uma visão de mundo.
Maher aponta outros dois filmes com influência de Kaufman: “I’m not there”, em que sete atores interpretam o Bob Dylan, e “A ciência do sonho”, em que Gael García Bernal tenta controlar seus sonhos para viver neles uma paixão com sua vizinha. Nesse caso, a conexão com a obra do roteirista é mais do que natural, já que o diretor francês Michel Gondry é o mesmo de “Brilho eterno”.
Mas o grande filme “kaufmanesco” de 2007 será escrito e dirigido pelo próprio Kaufman. “Synecdoche, New York” será o primeiro longa como cineasta. A história vinha sendo guardada a sete chaves pelo reservado roteirista, mas o jornalista Jay A. Fernandez conseguiu uma cópia do texto e escreveu a respeito em sua coluna Scriptland, no jornal “Los Angeles Times”.
Segundo ele, o filme será sobre um diretor de teatro que pensa estar morrendo e muda suas interações com o mundo, sua arte e as mulheres de sua vida. “É sobre morte e sexo e a bagunça manchada de vômito, merda, urina e sangue que a vida se torna psicologicamente, emocionalmente e espiritualmente”, escreveu Fernandez.
“Se o filme que for realizado lembrar de alguma forma o que está escrito, será um tipo de milagre. ‘Synedchoque’ fará ‘Adaptação’ e ‘Brilho eterno’ parecerem filmes educativos. Ninguém escreveu um roteiro como esse. É questionável se o cinema é capaz de sustentar o peso temático e narrativo de uma história tão ambiciosa. ”
Alguns colegas de crítica que respeito muito acham Kaufman meio truqueiro. Sou do time que acredita haver substância por trás da idiossincrasia. Mas, goste-se ou não dele, é difícil negar que Kaufman se tornou um nome fundamental do cinema contemporâneo. Ninguém vira adjetivo à toa.
Autor: ricardo calil - Categoria(s): Posts Tags:
a metalinguagem de kaufman talvez tenha muita inspiração na de fellini em Oito e meio.
comigo naum tem papo, pode ter o defeito que for…mas eu amo os roteiros de kaufman.
Nhé: Donnie Darko é de antes de Spotless Mind! Presta atenção!
fláio: contei o final de Homem Animal porquê aqui o pessoal só se liga em “alta cultura”, reparou. Não vai haver nenhuma corrida pra ler a série, infelizmente.
Aliás, me lembrei de mais uma, sobre esse lance de personagem controlado: em Fúria de Titãs, de 1981, os perosnagens tinham uma cópia sua num tabuleiro de xadrez controlado pelos deus do Olimpo, e tem um momento em que um deus esmaga o boneco de argila em suas mão, e o respectivo personagem tem as entranhas destruídas.
Charlie Kaufman extendendo seu poder de influência cada vez mais longe. Obrigado, London Times e seu colunista de 12 anos de idade, vocês nos revelam a verdadeira história do cinema!
david lynch é um picareta.
charlie kaufman é um ingênuo.
nao gosto desses filmes cheio de fabulas, é muito irreal.
E cinema só tem q trazer realidade?
Então tá…
Já não entendo mais nada de cinema !!!!
Porno sacana e inteligencia.
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Mullholland DR é agradável de se ver, e tem significados ocultos que se desdobram com um pouco de boa vontade. Se isso é filme ruim, Deus me livre dos filmes bons.
Já Kaufman me decepcionou um pouco com “Adaptação”, que me soou pretensioso e anticlimático, mas pode ser que o defeito esteja no meu olho. Todo modo “Brilho Eterno” pôs as coisas nos trilhos, não deixando sombra acerca de sua genialidade.
E já que entramos nas HQs surreais, recomendo a insana “Menz Insana”, um bom exemplo de diálogos “kaufianos”. E publicada muito antes de Kaufman, claro.
Um Mestre, com toda certeza. Agora, tratando de sexo, ainda por cima, tô super curioso pra assistir o próximo filme. Sucesso pra ele e pra nós, espectadores, claro!
Ah, já ia me esquecendo: será que ninguém parou pra pensar que o adjetivo também vem muito da facilidade e originalidade do próprio nome do roteirista, Charlie Kauffman. Por favor, Billy Wilder foi um dos maiores roteiristas de Hollywood e nem por isso se diz/disse por aí que uma comédia é “wilderiana” ! Kauffman é como Häagen Daz, bom pra falar e sofisticado pra escrever. E Charlie é um sucesso desde Chaplin e Charlie Brown. Enfim, essa é a vida, que o diga Madonna.
Outra grande influência dele é o Philip Roth. O artista de marionetes de Quero Ser… pra mim é puro Sabbath (lembram que a mulher de Mickey Sabbath também se torna lésbica?), mas é principalmente a metalinguagem de Minha Vida como Homem que Kaufman vai buscar inspiração.
Charlie Kaufman é interessante mas superestimado.
Quero Ser John Malkovich é bonzinho, porque inovador e com um clima legal.
Adaptação é uma tremenda porcaria inexplicavelmente incensada pela crítica.
Confissões de Uma Mente Perigosa é divertido, tem umas sacadas legais, mas não é nada demais.
Já O Brilho Eterno é ótimo: inteligente, terno e ácido ao mesmo tempo (apesar do Jim Carrey…). Sem dúvida, foi o seu melhor roteiro e o melhor de seus filmes.
Watch subject. Bush is forever saying that democracies do not invade other countries and start wars. Well, he did just that. He invaded Iraq, started a war, and killed people. What do you think? How does that work in a democracy again? How does being more threatening make us more likeable?Isn’t
the country with the most weapons the biggest threat to the rest of the world? When one country is the biggest threat to the rest of the world, isn’t that likely to be the most hated country?
What happened to us, people? When did we become such lemmings?
We have lost friends and influenced no one. No wonder most of the world thinks we suck. Thanks to what george bush has done to our country during the past three years, we do!
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