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12/01/2007 - 00:01

Quero ser Charlie Kaufman

Como muitos já sabem, Charlie Kaufman – o autor de “Quero ser John Malkovich” (1999), “Adaptação” (2002) e “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” (2004) – é hoje o roteirista mais influente e badalado de Hollywood. Mas o que talvez nem todos tenham percebido é que ele vem sendo imitado de maneira tão descarada que já originou um subgênero cinematográfico: o das comédias “kaufmanescas”.

O mais novo exemplo desse fenômeno chama-se “Mais estranho que a ficção” e estréia hoje no Brasil. Roteirizado por Zach Helm, o filme conta a história de Harold Crick (Will Ferrell), um auditor da Receita Federal americana que um dia descobre ser o personagem de um livro escrito por Kay Eiffel (Emma Thompson) e que está prestes a ser morto pela autora. Enquanto descobre o amor com uma dona de padaria (Maggie Gyllenhaal), ele tenta encontrar a autora para transformar seu destino de tragédia em comédia. Em duas palavras: puro Kaufman.

Não é muito fácil encontrar uma definição para os filmes escritos por ele. São comédias metafísicas/surreais ou existenciais/fantásticas. Mas eles costumam seguir o mesmo script: um homem comum se vê metido de repente em uma situação absurda; primeiro, ele entra em desespero, depois encontra uma possibilidade de redenção.

Em “John Malkovich”, John Cusack interpreta um sujeito que encontra no sétimo e meio andar de seu trabalho um portal para a cabeça do ator americano que dá título ao filme. Em “Brilho eterno”, Jim Carrey descobre que sua ex-namorada decidiu participar de um experimento científico para apagá-lo de sua memória e decide fazer o mesmo.

Os roteiros de Kaufman têm evidente influência dos romances do escritor tcheco Franz Kafka, como “O processo” – em que um homem não consegue descobrir, em meio a um labirinto burocrático, a razão de estar sendo processado – ou “A metamorfose”, aquele que começa com a célebre frase: “Certa manhã, ao acordar de sonhos inquietos, Gregor Samsa viu-se transformado num gigantesco inseto”.

Em um interessante artigo para o “London Times”, o jornalista Kevin Maher defende a tese de que o impacto da obra Kaufman não se limita aos filmes independentes, mas também aos blockbusters hollywoodianos. Ele cita como exemplos “Click”, em que Adam Sandler adquire um controle remoto que avança, pausa ou retrocede o tempo de sua vida, e “Déjà vu”, em que o policial Denzel Washington usa um computador que reconstitui o passado para evitar um crime já cometido.

Com estréia no Brasil marcada para semana que vem, “Déjà vu” é uma má imitação de Kaufman, um bizarro encontro do universo do escritor com a direção cafona de Tony Scott (”Top gun”) e a produção espalhafatosa de Jerry Bruckheimer (”Piratas do Caribe”). Já “Mais estranho que a ficção” é um cover talentoso, que aproveita o ótimo comediante Will Ferrell em um papel de maior envergadura dramática, a exemplo do que foi feito com Jim Carrey em “Brilho eterno”, uma direção elegante de Marc Foster (”Em busca da terra do nunca”) e um roteiro com uma mensagem esperta: o drama pode até render grandes obras de arte, mas é o humor que transforma uma visão de mundo.

Maher aponta outros dois filmes com influência de Kaufman: “I’m not there”, em que sete atores interpretam o Bob Dylan, e “A ciência do sonho”, em que Gael García Bernal tenta controlar seus sonhos para viver neles uma paixão com sua vizinha. Nesse caso, a conexão com a obra do roteirista é mais do que natural, já que o diretor francês Michel Gondry é o mesmo de “Brilho eterno”.

Mas o grande filme “kaufmanesco” de 2007 será escrito e dirigido pelo próprio Kaufman. “Synecdoche, New York” será o primeiro longa como cineasta. A história vinha sendo guardada a sete chaves pelo reservado roteirista, mas o jornalista Jay A. Fernandez conseguiu uma cópia do texto e escreveu a respeito em sua coluna Scriptland, no jornal “Los Angeles Times”.

Segundo ele, o filme será sobre um diretor de teatro que pensa estar morrendo e muda suas interações com o mundo, sua arte e as mulheres de sua vida. “É sobre morte e sexo e a bagunça manchada de vômito, merda, urina e sangue que a vida se torna psicologicamente, emocionalmente e espiritualmente”, escreveu Fernandez.

“Se o filme que for realizado lembrar de alguma forma o que está escrito, será um tipo de milagre. ‘Synedchoque’ fará ‘Adaptação’ e ‘Brilho eterno’ parecerem filmes educativos. Ninguém escreveu um roteiro como esse. É questionável se o cinema é capaz de sustentar o peso temático e narrativo de uma história tão ambiciosa. ”

Alguns colegas de crítica que respeito muito acham Kaufman meio truqueiro. Sou do time que acredita haver substância por trás da idiossincrasia. Mas, goste-se ou não dele, é difícil negar que Kaufman se tornou um nome fundamental do cinema contemporâneo. Ninguém vira adjetivo à toa.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Posts Tags:

34 comentários para “Quero ser Charlie Kaufman”

  1. Fabio Negro disse:

    Nos anos 80 uma das séries em quadrinhos mais vendidas dos Estados Unidos falva de um personagem que, ao final, encontrava a casa do assassino de sua família: o roteirista do gibi, Grant Morrison.

    Em 1993, Bill Murray vivia o mesmo 2 de Fevereiro dia após dia, até que ele aprendesse a reparar o passado.

    Donnie Darko era um garoto com problemas psiquiátricos convocado por um coelho gigante convocado a realinhar um desvio na Linha do Tempo e reviver um acidnete de avião que deveria tê-lo matado.

    Uau! Charlie Kaufman é tão influente que influenciou os filmes que vieram antes dele. Sensacional, sensacional!

  2. Karina disse:

    A ideia de usar metalinguagem vem de bem antes de Kaufman. Ele so elevou a uma potencia mais alta. E Stranger than Fiction eh bem feito e sem muitos furos (e Will Ferrel eh genial…ele e Steve Carrel sao os dois melhores comediantes em acao).
    Existem “genios” muito mais truqueiros que Kaufman – que eh low-profile e produz obras realmente criativas e que tentam encontrar algum senso (como o sr. do post abaixo- Lynch eh em mais enrolador que kaufman, mas ninguem serio tem bolas pra assumir isso)

  3. Ellaine disse:

    Eu não acho Kaufman tão genial assim. É o roteirista badaladinho do momento, mas conforme foi dito anteriormente, outros “gênios” surgiram bem antes. “Mais estranho que a ficção” traz um Ferrel com expressão botox e Emma Thompson excelente como sempre (É a única coisa que se salva nesse filme.)

  4. Nhé! disse:

    É assistir para ver!

  5. Nhé! disse:

    Donnie Darko é mais antigo que Quero Ser John Malkovich? Não sabia…

  6. Sal disse:

    Karina, falar que o Lynch é um enrolador é um absursdo. Mostra que você não consegue assimilar a obra dele. Por acaso assitiu Caché? Que o ilustre Callil colocou em sua lista entre os 10 melhores de 2006…então, de onde seráque veio aquela idéia das fitas?

    Pra mim cada um tem seu valor. Dos filmes do Kaufman, o mais fraco no meu conceito foi Adaptação.

    E o Fábio Negro tem razão, o uso dessa tal “metalinguagem”, citada pela Karina, já vem de longa data em HQs.

  7. Rodrigo disse:

    Não sei se ele é original ou não, só sei que acho Brilho Eterno um dos melhores filmes dos últimos 20 anos, uma história de amor como poucas, roteiro brilhante, edição brilhante, Jim Carrey e Kate Winslet impecáveis. E dá pra notar uma narrativa bem diferente às mesmices de Hollywood.

    Só por esse filme, Kaufman já deixou seu nome na história do cinema.

    E sim, vou ver Mais estranho q a ficção, bem empolgado.

  8. Julio Porto disse:

    Acho supervalorizado. Kauffman só se destaca assim mais por conta da caretice do cinema americano. Não chega perto de um Jean-Claude Carrière, por exemplo. Seus truques ainda continuam a serviço da cultura pop conservadora e puritana.

  9. Bender disse:

    E tem tb “Confissões de uma Mente Perigosa” em que um homem comum se vê metido em uma trama de espionagem internacional que pode ser ou não apeas sua imaginação.

  10. Mr. GHOST disse:

    É melhor imitarem o Kaufman do que o Michael Bay…
    Só queria saber o que em cinema não é um idiossincrasia?

  11. Tererê disse:

    Kauffman é uma mente brilhante, cujo único pecado foi ter adaptado confissões, eu quero ser Charlie!
    Acho absurdo comparar David com Charlie, quem viu Europa sabe que nao há brincadeira (e talvez Tarantino tenha sugado mais de seu Coração Selvagem na ficção Pulp).
    Kauffman é um caso especial, que apresenta a excelência de uma onda nao quebrada, é um Garcia Marquez.

  12. Fernanda disse:

    Kaufmann não é especial por tratar do realismo fantástico (citando o post acima – Garcia Marquez é maravilhoso!), mas por manter uma singular velocidade de narrativa que nos prende na frente da tela.

    Ok, M. Night Shaymalann (sorry por escrever errado) também faz isso, mas são opções estéticas diferentes. O Kaufamann traz ícones do realismo e nos envolve docemente, sem pressa. É um trabalho bacana, mas não único.

  13. . flávio . . disse:

    putz Animal Man é simplesmente GENIAL!! mas tem duas coisas Fábio:
    1- é vacilo contar o final
    2- o quadrinho é do começo dos anos 90…

    o Morrison ganha de goleada do Kaufman, qq coisa é só ler a passagem dele pela Doom Patrol… tem os vilões The Brotherhood of Dada e o personagem Danny the Street, a única rua ’sentiente’ que ainda é travesti

  14. tew disse:

    O grande truque de Kaufman é q ele consegue fazer um filme pouco hollywoodiano mas ao mesmo tempo, pop.

    Talvez eu incluiria aí na lista de filmes relacionados, “A Passagem”.

  15. Tererê disse:

    Fernanda,
    Garcia é só realismo fantástico tanto quanto a primeira noite de um homem é só mais uma comédia romântica e tanto quanto kaufman só é especial pela velociadade narrativa, blahrg… que nojo! O que o diferenciaria de Cameron ou do cara que fez velozes e furiosos ou desse monte de excremento aventuresco?
    O realismo de garcia é mágico, a realidade do cinema de kaufman também, é uma correspondência estúpida (do tipo: Chico é o Dylan brasileiro) mas eu insisto nela, só pra frutiscotar…

  16. Cássio disse:

    Metalinguagem é coisa que vovó já conhecia; desde pelo menos o tempo do dadaísmo. E não é a metalinguagem que distingue Kaufman.
    “Brilho Eterno” é a melhor metáfora que já vi encenada sobre o final de um relacionamento amoroso. Está tudo ali, desde os pequnos fatos que todo mundo conhece até o estado psicológico de se perder quem se ama. Só esse roteiro já serve para fazer com que o cara seja quem ele é. Adaptação é hilário, ver a Meryl Streep boazinha e urbana atolada na lama, doida atrás de droga… ah, sim, todos os personagens ali são atores atrás de um papel (ninguém está vivendo a própria vida). Kaufman is the man!

  17. Flavio disse:

    Acho muito bom roteirista, mas como já foi dito várias vezes aqui, adjetivá-lo não me parece coerente. O que ele faz é dar uma roupagem mais moderninha a um estilo que já existe há muito, muito tempo. Nada de tão original ou nunca visto. Bons filmes, nonetheless.

  18. Rachel disse:

    Kauffman é um dos meus ídolos, junto com o Luiz Fernando Carvalho. Eles contam histórias com a magia da fábula, a fantasia, e ainda aliar isso à reflexão. Sem chatice, sem lição de moral. Fazem arte transformadora – parece redundante, mas não é qualquer um que consegue cumprir essa missão da arte.

  19. Napoleão disse:

    “… o personagem de um livro escrito por Kay Eiffel (Emma Thompson) e que está prestes a ser morto pela autora…” Cheira ao Unamuno de Niebla.

  20. Karina disse:

    OI SAL….pois eh, eu fui uma avida fa de Lynch por anos, por que encontrava inovacao e substancia (mesmo que surreal) em filmes como Eraserhead e A estrada Perdida (e so Deus sabe como foi era boa a minha infancia assisitindo Twin Peaks) mas, honestamente, ha uma boa decada atras, o proprio Lynch se iludiu com a ideia de rei do non-sense que foi jogada em seu colo e se perdeu….eu tentei encontrar algo a mais em mulholand drive e Inland Empire foi a cereja no bolo da minha decepcao.
    Desculpa, mas , vc dizer que uma pessoa nao “absorve” um diretor soh por que discorda da alcunha de “genio” deste eh muito discussao de 1o ano de faculdade de cinema.

    bjao

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