O ano do YouTube e das sem-calcinha
Para quem passou o ano diante do computador, 2006 foi marcado por duas grandes explosões. A primeira, claro, foi a do YouTube. O site de compartilhamento de vídeos promoveu uma revolução na maneira como nos relacionamos com o mundo das imagens. Em vez da atitude passiva do espectador diante do aparelho de TV, a possibilidade de escolher o que, quando e quantas vezes ver.
Vídeos na internet são quase tão velhos quanto a própria internet. A novidade apresentada pelo YouTube foi a idéia de congregá-los em um mesmo espaço, de criar uma comunidade em torno das imagens na rede, de dar a mesma importância a um trecho pirateado de um filme de sucesso e ao curta realizado por um jovem aspirante a cineasta.
Impulsionado pela popularização da banda larga no mundo todo, o site promoveu finalmente a tão decantada integração entre TV e internet. No espaço de um ano, passou de um experimento de dois moleques a um negócio de US$ 1,65 bilhão (preço pelo qual foi comprado pelo Google). O YouTube foi a Cinderela de 2006.
A outra grande explosão do ano foi a da obsessão com as celebridades. Não foi uma revolução como a do YouTube, mas uma evolução (em um sentido estritamente quantitativo), o auge de um processo que vem se desenrolando há décadas. Nunca a imprensa escrita, falada, televisionada e internetada se ocupou de tantos pormenores insignificantes das vidas dos famosos.
Um colega aqui de NoMínimo defendeu a tese de que as coisas são assim já há alguns anos. Cheguei a cogitar a idéia de que não foi o mundo que mudou, eu é que fiquei mais tempo navegando na internet. Mas a leitura de algumas das manchetes de hoje em sites de celebridades me devolveu à dura realidade: “Sobrinha de Zezé di Camargo e Luciano comemora aniversário em bufê”; “Ana Beatriz Barros muda o visual no MG Hair”; “Guilhermina Guinle se entusiasma com curso de cinema”.
Nessa seara de notícias insignificantes, a grande tendência de 2006 foi a das mulheres sem calcinha. Entre as brasileiras, Juliana Paes, Luana Piovani, Adriane Galisteu. Das internacionais, Britney Spears, Paris Hilton e Lindsay Lohan.
De certa forma, os outros sucessos de escândalo do ano foram pequenas variações sobre o tema das mulheres que mostraram mais do que deveriam: o vídeo de Cicarelli na praia com o namorado, o piercing de Karina Bacchi, Danielle Winits com vestido transparente que deixava a calcinha à mostra, o filme pornô de Gretchen e assim por diante.
Todas elas seguiram a máxima de Vampeta (o filósofo que disse que os clubes cariocas fingiam que pagavam, e os jogadores fingiam que jogavam). As famosas fingiram ser surpreendidas pelos fotógrafos, estes fingiram não perceber qual era a delas, e nós fingimos nossa melhor indignação. Este foi o verdadeiro pacto social de 2006.
A tendência atingiu seu clímax na truqueira foto de Karina Bacchi com o baixinho da Kaiser que ganhou a capa da “Caras”. A imagem revoltou alguns amigos mais crédulos, incorformados com o mau gosto da moça. Eles só respiraram aliviados quando viram os dois na nova campanha da cervejaria.
Além dos meios habituais, a cultura da celebridade foi impulsionada por outro fator em 2006: justamente o YouTube. O site permitiu que os momentos de infâmia dos famosos fossem repetidos à exaustão. Cicarelli na praia, Fernando Vanucci grogue na TV, o bambu de Silvio Santos foram alguns dos grandes sucessos da rede em 2006 e acabaram invadindo também os programas de fofocas na TV, que perceberam o potencial de escândalo proporcionado pelo site.
A união do YouTube com a obessão pelos famosos foi o casamento mais bombástico do ano: uma explosão amplificou a outra. Meu grande desejo para 2007 é que os dois se separem mais rapidamente que Suzana Vieira e seu marido barraqueiro – para que o site cumpra seu papel na democratização das imagens, em vez de virar mais uma ferramenta para sua banalização.

Faço as suas as minhas palavras. Não aguento mais tanta cultura inútil, seja na TV, internet. ´Começo de ano, é sempre promessa — espero que “algumas dessas promessas, sejam algo interessante pra pelo menos 2 de nossos sentidos … O QUE VEMOS E OUVIMOS…
Outro dia publiquei um argumento que ia contra o que o digníssimo colunista pensava. Advinhem, apagaram a mensagem porque feria os brios do dito cujo. E isso aí que chamamos de “Credibilidade”.
Uaí, é mesmo. Estão censurando os comentários. Cadê aquele que eu havia deixado outro dia ?.