Com a morte do diretor Robert Altman, ontem em Los Angeles aos 81 anos, o cinema norte-americano perde seu último grande símbolo de independência. Autor de clássicos como “M.A.S.H.” (1970), “Nashville” (1975), “O jogador” (1992) e “Short cuts – Cenas da vida” (1993), ele construiu quase toda sua carreira à margem de Hollywood – tanto em termos de produção quanto de convenções narrativas.
No conteúdo, seus filmes são marcados por uma extrema irreverência, a forma que o cineasta encontrou para ironizar instituições como o Exército, Hollywood ou a indústria da moda. Na forma, eles ficaram conhecidos por sua estrutura de mosaico, em que as trajetórias de diversos personagens são entrelaçadas com enorme habilidade. Esse formato foi imitado por dezenas de bons (P.T. Anderson, de “Magnólia”) e maus seguidores (Paul Haggis, de “Crash – No limite”).
Ao receber um Oscar honorário por sua carreira, Altman declarou: “Nenhum outro cineasta teve mais sorte do que eu. Eu nunca tive que dirigir um filme que não escolhi ou desenvolvi. Meu amor pelo cinema me deu um convite para o mundo e para a condição humana.”.
O cineasta foi indicado cinco vezes ao Oscar de melhor diretor, sem ganhar nenhuma vez – igualando o recorde negativo de outros quatro diretores (Alfred Hitchcock, Martin Scorsese, Clarence Brown e King Vidor). Mas, se havia um cineasta que não se importava com estatuetas, este era Altman.
Nascido em Kansas City, em 1925, foi piloto de bombardeiros na Segunda Guerra e estudou engenharia na Universidade do Missouri. Depois de realizar alguns curtas sobre a indústria de sua cidade natal, ele estreou em longa com “The delinquents” em 1957. Na década de 60, trabalhou principalmente na televisão, dirigindo episódios de séries como “Bonanza” e “Alfred Hitchcock apresenta”.
A grande virada de sua carreira foi “M.A.S.H.”, um ataque direto, feito no calor da hora, à participação dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã – embora a história supostamente se passasse na Guerra da Coréia. O filme foi transformado em uma das séries de maior sucesso da TV americana (que Altman, aliás, desprezava).
Depois de acumular fracassos na década de 80 (incluindo o subestimento “Popeye”), ele voltou ao topo com “O jogador” e “Short Cuts”. Mesmo assim, sempre encontrou dificuldades para conseguir financiamento para os filmes seguintes. Ele chegou a esconder que teve um transplante no coração em 1996, com medo de nunca mais ser contratado para outro filme.
“A última noite” (2006), derradeira obra de Altman, está em cartaz no Brasil e traz um cineasta em grande forma, depois de uma série de trabalhos pouco memoráveis (com a exceção de “Assassinato em Gosford Park”). O filme fala sobre o cancelamento de um tradicional programa de rádio americano. Profeticamente, o diretor declarou: “Este é um filme sobre a morte.” Mas, como se poderia esperar de Altman, não se trata de um lamento, e sim uma tentativa de aceitação do fim. Apesar do recado deixado por esse testamento cinematográfico, será difícil não sentir sua falta.