Nos anos 80, Décio Pignatari, poeta concretista e teórico da comunicação, decretou que a telenovela estava com seus dias contados no Brasil. Segundo ele, o gênero seria substituído em pouco tempo por formatos mais curtos e modernos. Desde então, muitos outros intelectuais também previram o fim próximo do folhetim eletrônico.
Vinte anos depois, a telenovela não apenas continua viva, como passa por um “boom” de produção no país. Neste momento, existem oito novelas brasileiras no ar, um número histórico. São quatro na Globo (se for incluída a novelinha “Malhação”), três na Record (contando “Alta estação”) e uma na Bandeirantes. Apenas neste mês, houve três estréias nessas três emissoras: “Pé na jaca”, “Vidas opostas” e “Paixões proibidas”.
Em janeiro, o SBT começará a gravar “Maria Mercedes”, adaptação brasileira para o sucesso mexicano. E, então, as quatro maiores redes de TV nacionais terão ao menos uma produção própria no ar. Além disso, a trupe Hermes & Renato vem realizando para a MTV uma série de paródias de novela, como a atual “Sinhá Boça” – o que não deixa de ser uma prova da importância cultural do gênero.
Não é apenas a quantidade de novelas no ar que é impressionante, mas também o fato de que algumas delas vêm batendo recordes de audiência para seus horários ou emissoras, como “Páginas da vida”, a recém-terminada “Cobras & lagartos” e “Vidas opostas” (maior Ibope para uma estréia na Record).
No passado da TV brasileira, houve outros picos de produção de novelas (confira aqui uma relação dos folhetins televisivos ano a ano). Mas a novidade deste momento é a grandiosidade de várias produções, incluindo as não-globais “Vidas opostas” e “Paixões proibidas”, que revelam ambição real para conquistar uma fatia importante do mercado da Rede Globo.
Mas, afinal, por que esse formato tão antigo e tão pouco renovado (que começou no Brasil em 1963 com “2-5499 ocupado”, na Excelsior) ainda é o gênero dominante da TV brasileira? Para responder a pergunta, este blog ouviu Esther Hamburger, autora de “O Brasil antenado – A sociedade da novela”, colaboradora da “Folha de S. Paulo” e professora da Escola de Comunicações e Artes da USP.
Segundo Esther, existem duas razões principais para a longevidade do gênero: uma econômica e outra conceitual. Em primeiro lugar, a novela permanece como um dos formatos mais lucrativos da televisão, porque exige um investimento inicial alto, mas que se dilui ao longo de meses e pode ser facilmente recuperado com publicidade, merchandising e, em alguns casos, vendas internacionais.
Depois, a novela continua atraindo uma grande audiência porque seu formato permite uma adequação do conteúdo ao público. “Como os folhetins de jornal do século 19 da qual descende, a novela pode se moldar de acordo com a resposta do público e pode fazer uma crônica muito imediata de seu tempo. O final de ‘Cobras & Lagartos’, em que Foguinho abre uma barraquinha de profiteroles e cidra, é um comentário muito preciso sobre o aumento do consumo na classe baixa. Nesse sentido, a novela é um formato proto-interativo”, afirma Esther. “Ao mesmo tempo, ela tem vantagens sobre formatos mais interativos, como os reality shows. Por exemplo, uma dramaturgia mais consistente e o poder de suas estrelas.”
Mas Esther ressalta que a quantidade de novelas atuais não se reflete na qualidade. Para ela, o gênero viveu seu auge nos anos 70 e 80 – com produtos como “Gabriela”, “Roque Santeiro” e “Vale tudo” – e não conheceu uma verdadeira renovação nos últimos anos. A professora considera muito relevantes as atuais experiências de outras emissoras com o gênero, mas lamenta que elas sejam antes uma emulação do padrão global do que uma verdadeira alternativa à emissora hegemônica.
“Para ameaçar o domínio da Globo, é preciso de muito dinheiro e de um projeto a longo prazo. Parece que a Record tem as duas coisas. Mas ela vem copiando o sistema de produção da Globo, que, por sua vez, é uma reprodução do ’star system’ da Hollywood dos anos 40, com estrelas contratadas e estúdios próprios. Seria mais interessante se houvesse um investimento em produção independente”, diz Esther. Ela aponta como uma exceção nesse panorama “A turma do gueto”, seriado com atores negros exibido pela Record entre 2002 e 2003.
Esther foi uma das teóricas que no passado previu a morte da novela. Mas hoje ela não consegue enxergar um final próximo. “É incrível que, em um mundo com tantas opções, como a internet e a TV a cabo, a novela ainda ocupe espaço tão grande da vida nacional. E não há sinais de que isso irá mudar tão cedo.”
Segundo ela, só existe uma coisa tão imutável quanto a novela: o preconceito contra aqueles que estudam o gênero antiquado, mas que segue sendo uma das grandes paixões nacionais. Ou um dos maiores vícios, como escreveu certa vez Décio Pignatari.
“As pessoas se apaixonam pelos quadrinhos, pelo rádio, pelo cinema, pelo rock, mas ninguém se apaixona pela televisão. TV não é questão de obsessão, paixão ou afeição: é questão de vício. Vicia-se pela televisão, como se vicia em açúcar, fumo, maconha, coca e outros da área farmaco-dependente.”