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13/10/2006 - 00:01

Os ditadores também amam

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Depois do teste nuclear realizado esta semana na Coréia do Norte, Kim Jong Il confirmou sua reputação de homem mais perigoso do mundo na atualidade. Mas há uma outra faceta do “Querido Líder”, como ele é chamado em seu país, que pouca gente conhece: o de ditador mais cinéfilo da história.

Dono de uma coleção de vídeos e DVDs que, de acordo com a fonte, tem entre 10 mil e 20 mil títulos, Jong Il é autor do livro “Sobre a arte do cinema” (1973), que reúne suas teorias sobre filmes. Segundo ele, elas deveriam ser a principal força de uma revolução nas artes da Coréia do Norte.

“O principal desafio do cinema hoje é contribuir para a transformação das pessoas em verdadeiros comunistas. Essa tarefa história requer, acima de tudo, uma mudança revolucionária na prática da direção”. Esse é um dos pensamentos partilhados por Jong Il no livro (cuja versão em inglês pode ser comprada na Amazon).

Por essa frase, pode-se imaginar que o ditador tenha uma predileção por filmes de Sergei Eisenstein ou exemplares do realismo socialista soviético. Na verdade, ele é apaixonado por filmes de Hollywood e, segundo relatos, tem todos os vencedores do Oscar em sua coleção.

Como o regime da Coréia do Norte é rigorosamente fechado para o exterior, os gostos cinematográficos de Jong Il tornaram-se fonte de diversas especulações – como pode ser conferido em uma reportagem do jornal “Los Angeles Times”.

Segundo o diretor sul-coreano Shin Sang-ok, que conheceu o ditador bem de perto, os atores preferidos do “Querido Líder” são Sean Connery e Elizabeth Taylor. Ele gostaria da série “Sexta-feira 13” e de filmes de ação de Hong Kong.

Ex-diretor do Centro de Análise da Personalidade e do Comportamento Político da CIA, Jerrold M. Post escreveu um artigo para o “Los Angeles Times” afirmando que o filme favorito do ditador era “O poderoso chefão”.

A repórter Louisa Lim, da National Public Radio, negou a informação. De acordo com sua apuração, a predileção de Jong Il recaía sobre o clássico “E o vento levou…”. Há ainda um falso perfil do norte-coreano no MySpace em que a série “Rambo” surge como sua favorita.

A grande paixão de Jong Il pelo cinema não é demonstrada apenas por sua coleção de filmes, mas também por seu esforço para construir uma indústria cinematográfica na Coréia do Norte.

Para tanto, ele bolou um plano, com o perdão do lugar-comum, cinematográfico: mandou seqüestrar o diretor coreano Shin Sang-ok e sua mulher, a atriz Choi Eun-hee, em 1978. (Um colega de NoMínimo sugeriu, maldosamente, que o mesmo poderia ser feito com alguns cineastas brasileiros.)

Para o jornal inglês “The Guardian”, Sang-ok – considerado o “Orson Welles da Coréia do Sul” – deu os detalhes do seqüestro. Agentes de Jong Il que se passaram por parceiros de negócio convidaram o cineasta e sua mulher para encontrá-los em Hong Kong. Lá eles usaram clorofórmio para “apagar” o casal e levá-los até a Coréia do Norte.

Depois de uma tentativa de fuga frustrada, Sang-ok foi preso durante quatro anos e alimentado com uma dieta de grama, arroz, sal e bordões comunistas. Ainda disseram a ele que sua mulher havia sido morta – o que não era verdade.

Ao ser libertado, o cineasta foi levado ao encontro do ditador. Em uma festa, Jong Il explicou que Sang-ok e sua mulher haviam sido trazidos à Coréia do Norte para fomentar a indústria local.

”Os cineastas norte-coreanos estão fazendo um trabalho perfunctório. Eles não têm novas idéias. Seus trabalhos têm as mesmas expressões, redundâncias, as mesmas velhas tramas. Todos nossos filmes estão cheios de gente chorando e gemendo. Eu não ordenei que eles fizessem esse tipo de coisa”, explicou.

O ditador deu US$ 3 milhões ao ano, uma mansão e uma Mercedes para que o casal pudesse trabalhar em paz. Apesar de ser contrário ao comunismo, Sang-ok fez sete filmes na Coréia do Norte, sempre a partir de idéias de Jong Il.

O mais famoso deles foi “Pulgasari”, uma espécie de Godzilla comunista, a história de um monstro que ajuda fazendeiros a combater um tirano do século 14. O filme tornou-se um cult no Ocidente por sua ruindade.

Em 1986, Sang-ok e sua mulher conseguiram finalmente escapar do jugo de Jong Il. Durante uma viagem de trabalho à Áustria, eles despistaram os agentes norte-coreanos e chegaram à embaixada americana. Depois, retornaram a seu país natal. Foi um tremendo baque no plano bolado pelo ditador para transformar a Coréia do Norte em uma potência mundial.

Jong Il conseguiu amedrontar o mundo com seu teste nuclear, mas nunca foi capaz de ameaçar a hegemonia do cinema hollywoodiano. Em compensação, ele virou personagem de um filme americano: o hilário vilão de “Team America – Detonando o Mundo”, animação com marionetes dirigida por Trey Parker (de “South Park”). Ainda não se sabe se o filme faz parte da coleção do ditador.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Posts Tags:

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24 comentários para “Os ditadores também amam”

  1. Alba disse:

    O Jaime Monjardim estaria na medida pra Coréia do Norte..:)

  2. Luiz Candido disse:

    Alba,

    Quero parabenizá-la! É raríssimo ver alguém com uma visão tão ampla das pessoas qua habitam este vale de lágrimas. É muito fácil e cômodo ter uma visão estereotipada das pessoas e instituições, a divisão fácil entre “bons” e “maus”. Entender que não existem monstros, que mesmo as pessoas que cometem monstruosidades são seres humanos como nós é difícil de aceitar, é muito mais fácil desumanizá-las, principalmente quando há conceitos políticos e ideológicos por detrás. Lembro-me que o excelente filme “A Queda”, que enfoca os últimos dias de Hitler, foi duramente criticado por não mostrar o ditador como a caricatura habitual, havendo cenas que ele se mostrava afável e gentil. O fato que seria impossível que ele ascendesse ao poder se fosse apenas tal caricatura escapa à maioria. Tal nível de compreensão não é para qualquer um. É isso, Alba, vocè não é qualquer um (a).

  3. Alba disse:

    Luiz Candido,

    Obrigada mesmo! To inchada (além dos quilinhos a mais, fazer o quê?) :)

    Mas acho que não se faz bom cinema sem pensar que as questões humanas, seja lá o contexto em que elas acontecem, são principalmente humanas e portanto, cheias de contradições, de perversidades, mentiras, grandes gestos, altruísmo, a coisa toda. A gente é assim, né?

    Já basta Hollywood par simplificar o pacote. E olha só: também gosto de entretenimento. Precisa haver espaço pra isso também. É só não confundir entretenimento com outra coisa.. :)

    Abraço

  4. Roberto Pedreira de Freitas Ceribelli disse:

    Eu heim … Beto … … … … .

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