O horror, o horror
O slogan “Haloween é o cacete” talvez seja a melhor idéia produzida pelo movimento nacionalista brasileiro em muitos anos. Celebrado hoje, o Dia das Bruxas não deveria ter a mínima importância para o Brasil. Mas é fundamental para o cinema de horror – e um bom motivo para falar do renascimento do gênero.
Desde seu ápice nos anos 70, o cinema de horror não vivia uma fase tão importante – como fenômeno comercial e cultural. No último final de semana, por exemplo, o campeão de bilheteria foi “Jogos mortais 3″, com US$ 37 milhões arrecadados. Enquanto isso, “O grito 2″ e “Texas chainsaw beginning” continuavam em cartaz, com boas carreiras.
Para hoje, está marcada o relançamento, em cópia nova, de “Halloween” (1978), um dos clássicos do terror. No ano que vem, já está previsto “Halloween 2007″, dirigido por Rob Zombie. Além disso, Quentin Tarantino e Robert Rodriguez, dois dos principais cineastas americanos, preparam uma incursão conjunta pelo gênero em “Grindhouse”.
Segundo o site da revista Hollywood Reporter, o horror é um dos gêneros mais lucrativos do cinema americano atual, porque os filmes têm orçamentos baixos, não dependem de estrelas, têm boa sobrevida em DVD e contam com uma grande base de fãs (aumentada de uns anos para cá por adolescentes do sexo feminino).
Para a revista “Time”, existe uma nova geração muito interessante de “autores de horror”, batizada de Splat Pack (à moda do Rat Pack da turma de Frank Sinatra).
James Wan (“Jogos mortais”), Eli Roth (“O albegue”), Darren Lynn Bousman (“Jogos mortais 3″), Rob Zombie (“Rejeitados pelo diabo”), Neil Marshall (“Abismo do medo”) e Alexandre Aja (“Viagem maldita”) são seus principais integrantes. Outra vertente importante do cinema de horror atual é a dos remakes de filmes japoneses – como as franquias de “O chamado” e “O grito”.
Todos esses filmes são grandes sucessos comerciais, baseados na sanguinolência (no caso dos originais americanos) ou no sobrenatural (caso dos remakes). Mas o aspecto mais interessante do renascimento do horror está em outro lugar.
Para diversos críticos importantes – como o francês Jean-Michel Frodon, diretor da revista “Cahiers du Cinéma” -, o melhor cinema político de hoje pode ser encontrado nos filmes de terror americanos. A princípio, a afirmação pode soar um tanto bizarra. Mas ela faz sentido quando se analisam os vários casos de filmes do gênero que lidam, de maneira metafórica, com questões urgentes da atualidade.
Esqueça George Clooney, Michael Moore ou Costa-Gravas. Para ser um cinéfilo politizado hoje, é preciso entender de psicopatas e mortos-vivos.
Tome-se como exemplo “Candidato maldito” (2005), de Joe Dante (mais conhecido por “Gremlins”), realizado para a TV dentro da série “Masters of horror” e lançado recentemente em DVD no Brasil. O filme conta a história de um grupo de soldados americanos mortos no Iraque que voltam ao mundo dos vivos para votar contra o presidente que os levou à guerra.
Esse é o caso mais evidente. Mas há muitos outros. Como “Terra dos mortos” (2005), de George Romero, em que os ricos isolam-se em um condomínio fechado, enquanto os zumbis pobres tentam invadi-lo. A crítica é dirigida também ao governo Bush, mas a história poderia facilmente se passar no Brasil.
A tendência do cinema de horror político se intensificou de alguns anos para cá. Mas ela não é exatamente uma novidade. O site A.V. Club mostra, inclusive, que há no gênero filmes de esquerda e de direita – revelando que o mundo está dividido também no terror.
