A piada costuma ser feita sobre o cinema brasileiro: “O filme é uma merda, mas o diretor é genial”. Mas ela poderia ser aplicada também, com adaptações, à obra do cineasta norte-americano Michael Mann.
Na verdade, seus filmes – “Fogo contra fogo”, “O informante”, “Colateral”, entre outros – são bons. Às vezes muito bons. Mas o trabalho do cineasta é sempre superior a eles. Na regra do cinema, um filme costuma ser do tamanho do talento de seu diretor. Mann é uma exceção.
Esse estranho desnível entre obra e criador fica mais uma vez evidente em “Miami vice”, a versão cinematográfica da famosa série dos anos 80, que estréia hoje no Brasil.
Produtor-executivo da série, Mann foi uma opção lógica para dirigir o filme. De forma corajosa, ele decidiu se distanciar do programa original, trazer a história para o presente e correr o risco de decepcionar os fãs nostálgicos (o apresentador americano Jay Leno, por exemplo, disse que gostaria mais do filme se ele tivesse outro nome).
O filme mantém os personagens da série: Sonny Crockett (Colin Farrell, no papel que foi de Don Johnson) e Rico Tubbs (Jamie Foxx, no de Philip Michael Thomas). E também a idéia central: dois detetives de Miami que se infiltram em organizações criminosas.
Mas a produção deixa de lado todos os elementos supérfluos que ajudaram a transformar “Miami vice” em um fenômeno cultural dos anos 80: a trilha sonora de hits, o tom pastel da fotografia, os blazers com camiseta.
Em relação à série, o filme é menos solar e glamoroso, mais realista e globalizado. A ação começa a termina em Miami, mas viaja também pelo Paraguai, Colômbia, Haiti e Cuba – a sinalizar que o crime organizado hoje desconhece fronteiras.
A ação começa abruptamente, sem créditos iniciais, e termina da mesma forma. Dessa vez, Sonny e Rico assumem a identidade falsa de transportadores de drogas, com o objetivo de desbaratar uma quadrilha internacional de traficantes, associada a uma gangue de criminosos arianos. Tudo se complica quando Sonny se apaixona pela mulher do chefão do tráfico (Gong Li).
Se existe um tema central na obra de Mann, é o da fraternidade masculina. Em seus filmes mais conhecidos, dois homens se associam em uma situação de risco, mas algo ameaça a união: um criminoso, a indústria do cigarro, a natureza de suas atividades. Em “Miami vice”, é a paixão de um deles por uma inimiga.
Seus filmes são quase abstrações visuais e sonoras sobre a virilidade. Difícil imaginar Mann dirigindo um drama feminino ou uma comédia romântica. Não, ele nunca seria convidado para fazer “O segredo de Brokeback Mountain”.
Mas, como na maioria dos filmes de Mann, o tema interessa pouco. Os personagens também. Eles existem para servir ao exercício de ação e de estilo, para mostrar como o cineasta é capaz de recriar a tradição do filme policial com um fiapo de trama.
Mann é dos poucos cineastas americanos na atualidade que se recusam a apenas ilustrar roteiros e preferem criar atmosferas em torno dos assuntos dos filmes, a partir de combinações sofisticadas de sons e imagens.
Será difícil encontrar um filme em cartaz com um visual tão arrebatador quanto o de “Miami vice” – realizado com câmera digital de alta definição, que registra mais detalhes nas cenas noturnas, fundamental para um filme sombrio, todo rodado em cenários reais.
Mas as virtudes do filme, como de toda a obra do cineasta, também são as suas limitações. O brilho das imagens serve mais para lustrar o currículo do diretor do que para jogar luz sobre o universo retratado. A visão de Mann sobre o cinema é clara, precisa. Tanto quanto é vaga, indefinível, a sua visão de mundo.
Ou talvez essa seja uma idéia romântica. Mann é um cineasta fundamental da contemporaneidade porque o meio é a mensagem em seus filmes. As imagens que ele produz prescindem, até certo ponto, de significados conferidos a posteriori. Elas valem o quanto deslumbram.