Se alguém fala em Cinema Novo, o primeiro nome que vem à cabeça é o de Glauber Rocha. Em seguida, Nelson Pereira dos Santos. Até certo ponto, natural. O primeiro foi o gênio do grupo; o segundo, o pioneiro. Mas há aí também uma injustiça.
Alguns participantes do Cinema Novo são menos recordados do que mereciam. Talvez o caso mais emblemático seja o do carioca Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988), que morreu precocemente como Glauber, mas tinha uma personalidade menos esfuziante que a de seu amigo.
Contra a falta de memória, ergue-se agora o monumental projeto de restauração da obra completa de Andrade – capitaneado pelos filhos do cineasta, Alice Maria e Antônio, com patrocínio da Petrobras.
Todos os 14 filmes realizados pelo cineasta – seis longas e oito curtas – foram restaurados digitalmente. Aí incluem-se longas essenciais como “Garrincha, alegria do povo” (1962), “O padre e a moça” (1963), “Macunaíma” (1969) e “Guerra conjugal” (1975), curtas sobre Gilberto Freire (“O mestre de Apipucos”), Manoel Bandeira (“O poeta do castelo”) e Aleijadinho (“O Aleijadinho), e também o documentário inédito “A Linguagem da Persuasão”, realizado para o Senac, sobre técnicas da propaganda dos anos 70.
A julgar pela cópia de “Macunaíma”, exibida para a imprensa do Rio na quinta-feira com som e imagem tinindo de novos, foi um trabalho impecável. A restauração funcionou assim: os filmes foram escaneados, fotograma por fotograma, em resolução de 2K; as imagens foram recuperadas digitalmente; depois reimpressas em negativos de 35 mm. O esforço levou três anos para ser concluído e envolveu mais de 100 profissionais, incluindo alguns dos fotógrafos dos filmes, como Affonso Beato e Mário Carneiro.
Por seu tamanho e importância, o projeto só tem um equivalente até hoje no Brasil: a recuperação da obra de Glauber Rocha. Mas, como aponta Maria de Andrade, filha de Joaquim Pedro, há uma diferença fundamental entre os dois: os filmes de Glauber vêm sendo restaurados e lançados um a um; os de seu pai serão reapresentados ao público quase em bloco. Portanto, prepare-se para uma temporada Joaquim Pedro no cinema.
O primeiro resultado visível do projeto é a nova cópia de “Macunaíma”. O filme deveria reestrear em circuito comercial agora no dia 1º de setembro. Mas, segundo Maria, a TV Globo decidiu dar apoio institucional ao lançamento, o que permitirá aumentar o número de cópias de três para dez. Com isso, a chegada às salas de cinema fica para outubro. A filha do cineasta revela também que “Garrincha, alegria do povo” deverá ser exibido ao ar livre no Festival do Rio, que começa dia 21 de setembro, dentro da mostra “O Bonequinho Viu”.
Antes disso, Joaquim Pedro ganhará uma retrospectiva completa de seus longas restaurados no 63º Festival de Veneza, que se inicia no próximo dia 30. Foi dali que o cineasta saiu consagrado internacionalmente com a exibição de “Macunaíma” em 1969.
Até maio de 2007, quando Joaquim Pedro faria 75 anos, os longas do cineasta serão exibidos em circuito comercial no Brasil e depois reunidos em uma caixa de DVD; os curtas farão parte dos extras. Além disso, a Cosac & Naify lançará um livro sobre o projeto de restauração (mesmo tema de um “making of” em vídeo dirigido por Maria de Andrade).
Ao final do procesos, terá sido feita justiça para um dos grandes cineastas brasileiros da história. Em seu grupo do Cinema Novo, Joaquim Pedro era talvez o cineasta mais intimista e também o mais dado ao humor. No lugar das grandes alegorias sobre a realidade brasileira, ele priorizou os retratos de personagens fundamentais da cultura nacional (ou reinterpretações de suas obras) e os momentos de comicidade da vida cotidiana.
Como ele explicou certa vez: “O cinema que faço é a minha visão comentada e inventada a partir do real do mundo que a gente vive. E esta minha visão é quase sempre meio cruel e o humor é cáustico. (…) Meus filmes tratam das relações entre pessoas e, freqüentemente, estas relações não são das mais agradáveis, sinceras e honestas do mundo. Faço filmes sobre a patifaria, a safadeza.”
Claro, isso também significa retratar seu país, mas em geral de maneira menos óbvia que seus colegas. “Só sei fazer cinema no Brasil, só sei falar de Brasil, só me interessa o Brasil”, ele disse em entrevista pouco antes de morrer de câncer no pulmão, em 1988.
Em nenhum filme a vontade de entender o Brasil fica tão latente quanto em “Macunaíma”, adaptação brilhante da história de Mario de Andrade sobre o herói sem caráter. Sobre ele, Carlos Drummond de Andrade escreveu: “O filme é uma festa, uma graça, um rodopio, um churrasco, uma pancada na cuca, uma ocasião de rir e de expelir solitárias que comprometiam a paisagem intestinal. Rimos do herói sem nenhum caráter ou de nós mesmos? Não interessa saber, interessa é ver o filme funcionando, e funcionar dentro e em frente dele, atores-espectadores levados na torrente mítico-satírico-manducativa de Mario e Joaquim Pedro, ambos heróis de muito caráter.”