Sem discurso e sem fanfarra, 2006 tornou-se o ano informal de Ingmar Bergman no Brasil. Nos últimos seis meses, foram lançados dez filmes do cineasta sueco em DVD no país – o que permitirá ao público brasileiro conhecer ou revisar uma das obras fundamentais da história do cinema.
No ano Bergman, nenhum mês foi tão importante quanto este. Por uma abençoada coincidência, os filmes “Cenas de um casamento” (1974) e “Saraband” (2003) chegaram simultaneamente ao Brasil.
O segundo retoma os mesmo personagens do primeiro, três décadas mais tarde – possibilitando acompanhar a evolução do pensamento de Bergman sobre alguns de seus temas mais caros: a falência do casamento como instituição, a hipocrisia das relações familiares, a impossibilidade de administrar o desejo pelas vias da razão.
O DVD de “Cenas de um casamento” (Versátil, 299 min.) traz, pela primeira vez no Brasil, a versão original de cinco horas produzida para a TV sueca – em vez da edição reduzida que circulou pelos cinemas do mundo todo. No filme, Bergman disseca o fim da relação entre Marianne (Liv Ullmann) e Johan (Erland Josephson), que vira um inferno conjugal depois que este revela ter uma amante.
Em “Saraband” (Sony, 111 min.), também realizado para a TV e inédito nos cinemas brasileiros, que Bergman considera seu testamento cinematográfico, Marianne (de novo Ullmann) decide visitar Johan (Josephson) em seu retiro no interior, 30 anos depois da separação. Ela vira testemunha da atormentada relação entre o ex-marido, o filho dele, Henrik (Börje Ahlstedt), e neta Karin (Julia Dufvenius).
Os outros lançamentos de Bergman este ano no Brasil – todos em edições caprichadas da distribuidora Versátil, que merece todos os elogios – representam pontos altos de diferentes momentos de sua carreira.
Da fase inicial, há “Noites de circo” (1953), em que o cineasta começa a transição do melodrama clássico para um projeto de cinema autoral; “Sonhos de mulheres” (1955), um sofisticado estudo da psicologia feminina, outra de suas marcas registradas; e “Sorrisos de uma noite de amor” (1955), que consagrou o diretor internacionalmente e permanece como um dos trabalhos mais leves de sua obra.
Depois vem a chamada “trilogia do silêncio” (classificação que o próprio Bergman rechaçava, por não ver pontos em comum entre os filmes): “Através do espelho” (1961), que mostra o processo de degradação de uma família e ganhou o Oscar de melhor estrangeiro; “Luz de inverno” (1962), sobre um pastor em crise; e “O silêncio” (1963), que retrata os conflitos entre duas irmãs.
De sua fase de maturidade, foram lançados “A flauta mágica” (1975), adaptado da ópera de Mozart e considerado um casamento perfeito de cinema e música, e “Persona” (1966), obra-prima sobre a relação de simbiose que se estabelece entre uma atriz em crise e sua enfermeira.
Da revisão desses filmes, surge a imagem de um cineasta monumental, mas não infalível; e também de uma obra menos impenetrável do que se costuma supor. Dos grandes cineastas considerados difíceis (Antonioni, Godard, Tarkóvski), Bergman talvez seja o mais fácil.
As bases de sua visão de mundo podem ser opressivas e pessimistas: a abordagem metafísica da vida e da morte, a idéia de um Deus que abandonou os homens, as relações pessoais como fonte de culpa e humilhação.
Mas a abordagem desses elementos não poderia ser mais direta e cristalina. Com a exceção de “Persona”, que adota procedimentos de vanguarda na sua abertura e no seu final, Bergman dá sempre preferência a uma narrativa clássica e realista.
Quando esta não lhe parece suficiente, o cineasta recorre a simbologias simples, talvez evidentes – como a do cavaleiro que joga xadrez com a morte em “O sétimo selo” (1956) ou a das metades de dois rostos femininos que se unem para formar um em “Persona”.
Além disso, Bergman sempre repetiu não apenas temas, como também atores (Liv Ullmann, Erland Josephson, Max Von Sydow, Gunnar Björnstrand, Bibi Andersson, Harriet Andersson, Ingrid Thulin) – o que ajudava a criar uma certa noção de familaridade em relação a sua obra, a ponto de ele declarar certa vez que tomava cuidado para não se tornar “bergmaniano” demais.
Mas existe uma marca de Bergman que se sobressai em relação às demais: a capacidade de atravessar a superfície da tela para fazer uma sofisticada radiografia da alma humana, de penetrar mais fundo na psicologia dos personagens do que qualquer cineasta de seu tempo.
Aos 88 anos, Bergman vive hoje isolado na ilha sueca de Faro e garante que “Saraband” foi seu testamento cinematográfico. Mas, entre todos que amam o cinema, existe sempre a esperança de que ele mudará de idéia.