Nos últimos dias, o YouTube, site de compartilhamento de vídeos, foi inundado por uma série de gravações do conflito entre Líbano e Israel, feita por moradores dos dois países com câmeras digitais ou modernos celulares. São cenas de mísseis cruzando os céus, de explosões nos centros urbanos, de casas e escolas destruídas – quase sempre de baixa qualidade, mas com enorme sentido de urgência.
Identificado como “msoubra”, um libanês gravou os clarões das bombas de Israel explodindo na noite de Beirute (veja aqui). Ao colocá-lo no YouTube, deixou o seguinte comentário: “Esse vídeo traz de volta memórias assombrosas da invasão israelense de Beirute em 1982. Eu tinha apenas 4 anos. Mas o impacto dessas explosões nunca me abandonou. Para aqueles com sorte suficiente para não ter vivido uma guerra, pode parecer que se entende tudo apenas de ver a CNN ou a BBC ou de ler os jornais. Esse vídeo é uma tentativa de dar a você um sentido mais realista do qual terrível uma guerra pode ser para civis inocentes e crianças – como eu, 24 anos atrás.”
Em uma semana no ar, o vídeo foi visto mais de 307 mil vezes – o que o torna até agora o mais popular sobre a guerra no YouTube. Mas há dezenas de outros no site, realizados pelos dois lados (confira aqui). Os comentários dos “diretores” vão do indignado (“Tiberias atacada pelos monstros do Hezbolá”) ao sarcástico (“sorte nossa que os árabes não conseguem nem soltar mísseis direito”), do narcisista (“a música do vídeo foi feita por mim”) ao encabulado (“o vídeo foi realizado com um celular, desculpem pela má qualidade”).
A guerra de Israel e Líbano é a primeira da era YouTube, com uma cobertura extensiva no site feita pelos dois lados. No início dos outros dois grandes conflitos bélicos atuais, no Afeganistão e no Iraque, o site ainda não existia (ele foi ao ar em fevereiro de 2005). Além disso, o poder aquisitivo de israelenses e libaneses é bastante superior ao de afegãos e iraquianos – o que permite maior acesso a câmeras e celulares sofisticados.
Como lembra o colega Pedro Doria, o blog de Salam Pax ficou famoso no mundo todo no início da guerra do Iraque ao trazer relatos sobre o cotidiano de Badgá à espera dos bombardeios americanos, em contraposição à pauta mais impessoal dos grandes jornais. Agora, os vídeos caseiros do YouTube fazem o mesmo em relação ao conflito de Israel e Líbano, com a força dos sons e das imagens em movimento. É como se, em um intervalo de três anos, a internet tivesse passado da literatura ao cinema, do diário ao documentário.
Ou seja, o YouTube oferece a possibilidade de um novo conceito de cobertura de guerra, mais personalizada, democrática e pulverizada. Qualquer pessoa com uma câmera digital e acesso à internet pode colocar no ar de maneira muito rápida um vídeo caseiro sobre o horror de um conflito bélico, seja um depoimento em primeira pessoa ou a denúncia de um crime de guerra, sem passar pela censura das TVs e dos militares. Ainda não se pode prever a importância dessa novidade no futuro, mas o potencial é gigantesco. Conhecido por seus vídeos engraçados ou excêntricos, o YouTube agora revela seu lado sério e político.
É mais um feito desse site prodigioso. Com pouco mais de um ano de vida, o YouTube conseguiu concretizar aquilo que a tecnologia prometia há mais de uma década: a convergência entre TV e internet. De tempos em tempos, surge uma marca que aglutina em um único espaço uma certa tendência da rede e torna-se sinônimo de um produto. Foi assim com o Google e buscas. Com o Orkut e relacionamentos. E agora com o YouTube e vídeos.
O YouTube é um fenômeno que já não pode ser ignorado e provavelmente não será passageiro. A cada dia, o site recebe 35 milhões de acessos a seus vídeos, ganha 35 mil novos arquivos e produz sucessos de popularidade. Pode ser a cabeçada de Zidane, que foi baixada mais de 1,5 milhão de vezes em poucos dias e gerou várias paródias; ou Fernando Vanucci apresentando um programa esportivo completamente grogue; ou ainda o piloto de uma série renegada pela TV, que será enfim produzida pela NBC por causa do sucesso no YouTube. E agora também um bombardeio em Beirute ou Haifa.
No site da revista eletrônica Cinética, o crítico de cinema Cezar Migliorin fez até agora a melhor e mais apaixonada defesa do YouTube na internet brasileira: “YouTube é a TV que eu quero. Uma medição inteligente entre o acúmulo infindável de imagens e os nossos interesses. Cineastas, VJs, jornalistas, mediadores, artistas, arquivistas – todos no mesmo lugar. A TV dos homens quaisquer. As playlists são o zapping inteligente. (…) O audiovisual em comunicação – o texto do Fulano que se conecta com a cabeçada do Zidane, que se conecta com o vídeo da violência do Materazzi, e depois com o rap francês “cabeçada”. A TV em rede.”