Lázaro Ramos está fazendo história como o Foguinho de “Cobras & lagartos”. Nunca um ator negro foi protagonista de uma telenovela e teve em mãos um papel tão rico na televisão brasileira (como diria o colega Tutty Vasques, essas coisas a oposição não vê).
Nos anúncios da novela antes da estréia, Ramos não aparecia como uma das maiores estrelas de “Cobras & lagartos” (elas eram Daniel Oliveira e Mariana Ximenes). Mas o anti-herói tornou-se o protagonista de fato da história, conquistando mais tempo na tela que os heróis e os vilões, graças ao talento do intérprete e à inteligência do autor João Emanoel Carneiro.
Antes de “Cobras & lagartos”, apenas duas novelas tiveram protagonistas negros: “Xica da Silva” (1996) e “Da cor do pecado” (2004), ambas estreladas por Taís Araújo, mulher de Ramos. Mas, apesar do avanço que a escolha de uma atriz negra, os papéis eram relativamente convencionais: uma escrava rebelde e uma heroína romântica.
Foguinho representa uma novidade não apenas por ser um papel masculino, mas por escapar dos estereótipos aos quais os atores negros parecem condenados na TV brasileira: escravos, subalternos, objetos do desejo, figurantes invisíveis (cuja função é preencher uma cota de tela imaginária) e “negros de bom coração” (que são escalados para combater preconceitos, mas terminam por reforçá-los).
O personagem de Ramos passa ao largo tanto dos clichês quanto da correção política. Foguinho já foi definido como um ser macunaímico – o que faz sentido, até certo ponto. Ele tem algumas das características do herói sem caráter de Mario de Andrade, como mostra sua decisão de herdar a fortuna de Omar Pasquim (Francisco Cuoco), sabendo que ela pertence a Duda (Daniel Oliveira). Mas possui uma diferença fundamental em relação ao personagem do clássico livro: uma consciência em crise, o que aumenta sua complexidade.
Em algum momento, vai aparecer algum grupo organizado para dizer que a visão da novela é preconceituosa, que o personagem negro é mostrado como malandro, preguiçoso e mentiroso (acusação semelhante já foi feita contra o remake de “Sinhá Moça”). Ou então que o fato de eu chamar atenção para a cor do ator já denota uma discriminação racial. Só quem sofre o preconceito pode dizer o que é ou não ofensivo. Mas, pessoalmente, vejo Foguinho como uma conquista para os atores negros, não apenas em termos de mercado de trabalho, como também de riqueza dramatúrgica.
O personagem é uma oportunidade rara, que Ramos agarrou com todo seu talento cômico. Em sua primeira novela, o ator rouba todas as cenas em que aparece, especialmente depois que Foguinho se tornou um novo-rico. Segundo amigos do ator, ele enfia cacos no texto sempre que pode. João Emanoel Carneiro tem o mérito de construir diariamente a trajetória do personagem, de respeitar os improvisos do ator e de lhe dar mais tempo no ar.
Independentemente de cor, Foguinho já está entre os maiores personagens da história da telenovela – ao lado nomes como Sinhozinho Malta e Odete Roitman. Entre os personagens negros, ele está no topo da lista. Por favor, corrijam-me se eu estiver equivocado ou esquecido.