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Arquivo de junho, 2006

30/06/2006 - 20:01

Duas perguntas à Petrobras

A divulgação dos projetos cinematográficos contemplados com verbas do Programa Petrobras Cultural neste ano deixa duas grandes dúvidas:

1) Dos 27 longas-metragens selecionados, 16 são do Rio de Janeiro – ou 59% do total. A idéia de cotas por região seria absurda, o critério de mérito dos projetos é o melhor possível, e 48% das inscrições vieram do Rio. Mesmo levando tudo isso em conta, não seria mais prudente evitar tamanha concentração de recursos em um único estado?

2) O projeto “As pelejas de Ojuara”, do produtor Luiz Carlos Barreto, foi contemplado pelo comitê do programa em uma nova categoria, a Homenagem Especial, concedida pelo conjunto da obra e pela contribuição à cultura brasileira. No ano passado, Barreto reclamou publicamente dos critérios de escolha da Petrobras, que, segundo ele, estaria promovendo uma “pulverização” dos recursos em projetos sem possibilidade comercial. Ainda que a importância histórica de Barreto como produtor seja inegável, a escolha da Petrobras não corre o perigo de ser visto como um generoso cala-boca?

Para este blog, a resposta para ambas as perguntas é “sim”.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Posts Tags:
30/06/2006 - 14:20

Adeus a Bielinski, diretor de “Nove Rainhas”

O cineasta Fabián Bielinsky, que morreu ontem em São Paulo aos 47 anos, vítima de um ataque cardíaco, foi um dos maiores responsáveis pela popularização do novo cinema argentino no Brasil.

Ele estreou como diretor com “Nove rainhas” (2000), que, ao lado de “O filha da noiva” (2001), foi o maior sucesso do país nas salas brasileiras nos últimos anos. O filme ganhou um remake americano, “171″ (2004), bastante inferior ao original.

Na última segunda-feira, Bielinsky ganhou seis prêmios Cóndor de Plata, da Associação de Críticos de Cinema da Argentina, por seu segundo filme, “El Aura” (2005), ainda inédito no Brasil.

Apenas três dias depois, o cineasta foi encontrado morto ontem à noite em um quarto do hotel Marriot, em São Paulo, para onde havia viajado para escolher atores para comerciais. Como o quarto estava trancado por dentro, os funcionários tiveram de arrombar a porta.

Foi uma grande perda para o cinema argentino, ainda mais no caso de um cineasta jovem, em início de carreira e com futuro promissor.

Bielinsky não estava entre os cineastas de ponta da “buena onda” local, como Lucrecia Martel ou Pablo Trapero. Mas, como mostrou em “Nove rainhas”, sabia dar um sabor portenho para um gênero clássico como o filme noir.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Posts Tags:
29/06/2006 - 23:58

Pixar acerta de novo com “Carros”

O sucesso da Pixar, o estúdio de animação responsável por fenômenos como “Toy Story” e “Procurando Nemo”, baseia-se em um interessante paradoxo: a produtora usa os mais avançados recursos tecnológicos para fazer os filmes mais nostálgicos do cinema atual.

Os desenhos da Pixar quase sempre encenam um embate entre passado e futuro – em que o primeiro aparece como um tempo idílico e o segundo, como fonte de insegurança. Em “Toy Story”, o velho caubói de madeira Woody ressente-se por ser trocado pelo astrounauta eletrônico Buzz Ligthyear como brinquedo preferido de seu dono. Em “Procurando Nemo”, um peixe tenta se acostumar com a idéia de que o mundo não é mais um lugar seguro para criar seu filho.

Mas em nenhum filme essa aparente contradição fica tão clara quanto em “Carros”, nova produção da Pixar, que estréia hoje no Brasil. De um lado, o desenho apresenta avanços técnicos impressionantes para a animação digital, especialmente nos cenários hiper-realistas. De outro, traz uma mensagem saudosista, um elogio à vida pacata do interior, longe das tentações da cidade grande.

Na história, estrelada apenas por automóveis, Relâmpago McQueen (voz de Owen Wilson, de “Penetras Bons de Bico”), um carro de corrida jovem, ambicioso e convencido, vai até Los Angeles para a corrida final de um grande campeonato, mas é preso por excesso de velocidade na pequena cidade de Radiator Springs.

A contragosto, ele entra em contato com os automóveis locais, como a bonita Sally Porsche (Bonnie Hunt na versão original, Priscilla Fantin na dublada), o severo juiz Doc Hudson (Paul Newman/Daniel Filho) e o velho reboque Mate. Aos poucos, McQueen descobre que amizade e caráter são mais importantes que prêmios.

De todos os filmes da Pixar, “Carros” é o mais passadista. Ele tem saudades da velha América e de seus tradicionais valores morais – o que às vezes aproxima o desenho de um perigoso sentimentalismo. Mas também tem saudades da velha Hollywood – o que se revela um trunfo do filme.

Dirigido por John Lasseter, o chefão e mestre da Pixar, “Carros” ostenta um cuidado artesanal na elaboração do roteiro e na construção dos personagens que o cinema americano parece ter perdido em algum lugar do passado (ao mesmo tempo que inventa outra vez o futuro da animação). Os automóveis do filme são mais humanos e mais expressivos que a maioria dos atores da Hollywood atual.

“Carros” teve uma recepção morna de crítica e público nos Estados Unidos. Especialistas apontaram duas razões principais para o fato: 1) esse é o primeiro desenho que a Pixar produz depois de sua bilionária anexação pela Disney e, por isso, o estúdio pode ter sido criticado indiretamente pelo fim de sua independência; 2) a produtora criou um patamar de qualidade tão alto que seus novos desenhos dificilmente correspondem às expectativas, por melhores que sejam.

Qualquer que seja o motivo, “Carros” foi vítima de uma injustiça nos EUA, pois conseguiu reunir o melhor do passado e do futuro do cinema americano em um único filme.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Posts Tags:
29/06/2006 - 00:01

30 bilhões em ação

O público total para todos os jogos da Copa do Mundo da Alemanha na televisão deverá chegar a 30 bilhões; ou seja, cinco vezes maior que a população mundial, segundo estimativas da Fifa e do Infront, grupo suíço de direitos de exibição de eventos esportivos. Na Copa do Japão e da Coréia, o número foi de 28 bilhões.

O evento atual vem batendo recordes de audiência em vários países do mundo, a começar pela Alemanha. Cerca de 22,4 milhões de pessoas assistiram ao jogo contra a Suécia, ou 86,3% dos televisores ligados – número inédito na TV alemã.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Posts Tags:
28/06/2006 - 15:42

Globo vai manter a leitura labial

Apesar do pedido de desculpas a Parreira, o quadro “Leitura Labial” será mantido pelo “Fantástico”, e o técnico brasileiro não será poupado nas futuras edições, segundo fontes da Globo.

Nesse exato momento, os jovens surdos contratados pela emissora estão na ilha de edição do programa tentando decifrar as frases ditas pelos jogadores e pela comissão técnica durante o jogo contra Gana para o quadro do próximo domingo.

A decisão da Globo é elogiável, mas não esconde a vergonha que foi o pedido de desculpas a Parreira (que acusou a emissora de invasão de privacidade).

A emissora deveria pedir perdão pelas transmissões ufanistas de Galvão Bueno, não pela única novidade inteligente de toda sua cobertura na Copa.

A manutenção do quadro foi um avanço no episódio, mas aposto que vão pegar leve com Parreira no domingo.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Posts Tags:
27/06/2006 - 21:54

Quem será a nova Meryl Streep?

O jornal “Los Angeles Times” pergunta qual jovem atriz será a herdeira do trono de Meryl Streep. Em sua bolsa de apostas, saem na frente Natalie Portman, Scarlett Johansson, Reese Whiterspoon, Keira Knightley e Kirsten Dunst, nessa ordem.

Na opinião deste blog, nenhuma delas tem perfil para substituir Streep (embora Portman seja uma atriz promissora). Mas Scarlett Johansson tem potencial para se tornar uma versão melhorada de Marilyn Monroe.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Posts Tags:
27/06/2006 - 15:00

Cinema de uma nota só

Eis aqui esse cineminha, feito de uma nota só. Outras notas vão entrar, mas a base é uma só…

Entra ano e sai ano, e a toada do cinema brasileiro continua a mesma. Com 2006 chegando à metade, o panorama do público segue exatamente igual ao de 2005: um filme abocanhou sozinho até agora mais da metade de toda bilheteria do cinema nacional.

No ano passado, foi o superestimado “Dois filhos de Francisco”, de Breno Silveira. Agora é a vez do medíocre “Se eu fosse você”, de Daniel Filho. Com 3,64 milhões de espectadores, o filme conseguiu 62% do público do cinema brasileiro, segundo dados do boletim eletrônico Filme B (para assinantes, aqui).

Depois dele, vêm no ranking “Didi – O caçador de tesouros”, com 1,01 milhão de espectadores, e “Xuxinha e Guto contra os monstros”, com 501 mil. Agora a notícia assustadora: dos 36 filmes nacionais exibidos este ano, 30 não alcançaram a marca de 50 mil ingressos vendidos – 19 deles, aliás, não chegaram nem a 10 mil. Com a exceção de “Se eu fosse você”, todos os filmes brasileiros ficaram abaixo da expectativa mínima de público em 2006.

É o cinema de latifúndio. Para um ou outro, terras a perder de vista. Para a absoluta maioria, a lavoura de subsistência. Entre eles, nenhum produtor de médio porte. E o pior é que não há nenhuma proposta significativa para alterar esse cenário no projeto de lei que o governo acaba de enviar ao Congresso para o setor audiovisual.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Posts Tags:
26/06/2006 - 20:32

Leitura labial é o melhor da cobertura da Copa

Em meio ao festival de besteiras que assola a cobertura da Copa do Mundo, o único lance de gênio até agora foi a leitura labial das frases de técnicos e jogadores feita por jovens surdos para o “Fantástico”.

A novidade foi apresentada pela primeira vez há uma semana e, graças a seu sucesso, repetida ontem no programa da Globo. É um procedimento simples, informativo e, em alguns momentos, hilário – muito mais revelador do que as opiniões dos especialistas e os tira-teimas eletrônicos.

No quadro de ontem, por exemplo, os jovens conseguiram ler algumas pérolas ditas por Pelé e Parreira. O primeiro, ao se ver no telão do estádio, disse para o companheiro a seu lado: “Olha lá, bonito pra c…”. O segundo, depois de um gol de Ronaldo, comentou com Cafu: “Depois falam para tirar ele do time. Vão se f…”

Ao reconstruir o som das falas , o quadro consegue ao mesmo tempo desconstruir as imagens desses personagens. Em vez de ridicularizá-los, torna-os mais humanos. Pelé mostra-se mais bonachão do que sugere sua figura pública. Parreira revela seu lado Felipão, mais apaixonado e menos cerebral.

Em entrevista, o técnico reclamou que houve invasão de privacidade. Exagero. Ele estava em local público, alcançável por um bom microfone. A TV apenas conseguiu captar seus pensamentos de maneira mais original. Aqueles palavrões podem fazer mais por sua imagem do que mil coletivas.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Posts Tags:
26/06/2006 - 14:02

“A TV é mais importante que o cinema”

Das pessoas que saem da TV para fazer cinema não vi ainda ninguém ter feito um filme melhor do que o trabalho que fazia na televisão.

O cinema brasileiro atualmente faz sucesso de público quando chega muito perto da TV, como “Se Eu Fosse Você”.

Ele está vivendo de prestígio, não de público. Tem festival em Tupaciguara [MG], festival em não sei onde. No final, o cara diz: “Ganhei um monte de prêmio”. Isso não quer dizer nada. É bom para botar na estante. Eu também tenho um monte de prêmio. É ótimo. Obrigado. Taí. Mas eu estou fazendo um trabalho que atinge 60 milhões de pessoas por dia.

Na TV, tenho uma excelente produção e o melhor elenco do país, porque, vai me desculpar, mas não existe elenco melhor do que o que tenho em “Belíssima”. Trabalho com os melhores atores do país. As minhas idéias estão lá. Atinjo 60 milhões de telespectadores por dia. Por que cinema é mais importante? Não entendo.

Na “Folha de S. Paulo”, Silvio de Abreu afirma com todas as letras: “a TV é mais importante que o cinema”. Ele tem conhecimento de causa para afirmar. Antes de ser autor de novelas como “Guerra dos sexos” e “Belíssima”, ele foi diretor de pornochanchadas como “Elas são baralho” e “Mulher objeto”.

As declarações de Abreu rendem uma boa discussão. Mas todas são, no mínimo, discutíveis. Luiz Fernando Carvalho realizou um filme (”Lavoura arcaica”) muito superior a seu trabalho na TV. Fernando “Cidade de Deus” fez sucesso com uma estética radicalmente diferente da televisiva. “Dois filhos de Francisco”, “Carandiru”, “Se eu fosse você” e outros tiveram mais público que prestígio. E, por fim, audiência não é sinônimo de relevância cultural.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Posts Tags:
25/06/2006 - 23:40

Revolução no documentário e na política

“Primárias”, documentário do cineasta norte-americano Robert Drew sobre a disputa pela vaga democrata na disputa à presidência em 1959, foi a principal influência de “Entreatos”, o filme de João Moreira Salles sobre a campanha de Lula em 2001.

Agora, Salles retribuiu a dívida intelectual lançando no Brasil, pela Coleção Videofilmes, o DVD de “Primárias”. Trata-se de um marco fundamental do cinema direto americano, escola que revolucionou a produção documental.

Liderado por Drew, um grupo de jornalistas e fotógrafos ligados à revista “Life” – Richard Leacock, D.A. Pennabaker, Albert e David Maysles, entre outros craques – criou uma nova estética para o cinema documental, aproveitando-se de uma série de inovações técnicas dos anos 50, como câmeras e gravadores portáteis e som sincronizado à imagem.

Eles propuseram um cinema observacional, sem intervenção direta da equipe na realidade retratada, sem narração em off, sem perguntas aos personagens e sem trilha sonora usada como comentário às imagens; com atenção especial aos ritos do cotidiano, aos tempos mortos e a detalhes como gestos e olhares.

“Primárias” foi o grande laboratório dessa nova estética. Drew e sua equipe utilizaram os novos conceitos para acompanhar as campanhas de John Kennedy e Hubert Humphrey nas primárias do Partido Democrata para escolher seu candidato à presidência em 1960.

Mais do que a rotina dos candidatos, o filma flagra uma transformação na maneira de se fazer política, em que a boa relação com a câmera torna-se predicado fundamental para o candidato, mais do que a ligação com as massas.

Nesse aspecto, o jovem Kennedy, ao lado da bela Jackie, revela-se mais preparado do que o tradicional Humphrey, transmitindo sempre a imagem de um político enérgico, confiante e confortável consigo mesmo. Essas qualidades seriam utilizadas mais tarde no debate com o republicano Richard Nixon na televisão, que muitos analistas consideraram determinante para a vitória de JFK.

Drew criou uma série de procedimentos para alcançar uma visão mais equilibrada da realidade, para tentar tornar a câmera invisível. Mas, já no marco inicial do cinema direto, esse desejo foi subvertido pela presença de um grande ator político como Kennedy, com absoluto domínio de cena.

Além de representar uma revolução na prática documental, “Primárias” é o registro de uma revolução na práxis política: o surgimento do candidato moderno e midiático.

Autor: ricardo calil - Categoria(s): Posts Tags:
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