Quando o jornalista Luiz Zanin Oricchio contou ao documentarista João Moreira Salles que pretendia fazer um
livro sobre a presença do futebol no cinema brasileiro, o cineasta respondeu que seria o mesmo que escrever sobre as escolas de samba de Tóquio.
O comentário de Salles foi uma manifestação irônica de uma idéia corrente: não existem grandes – e nem muitos – filmes brasileiros sobre futebol, a maior paixão nacional.
Mas, ao final de sua pesquisa, a maior já realizada sobre o tema no país, Zanin chegou a uma conclusão diferente: o futebol foi retratado pelo cinema brasileiro em quantidade e qualidade muito superiores ao que o supõe o senso comum.
O livro “Fome de bola – Cinema e futebol no Brasil” (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 486 págs.), resultado da pesquisa de Zanin, crítico de cinema do “Estado de S. Paulo”, traz algumas revelações surpreedentes.
O primeiro registro de filme relacionado ao universo do futebol feito no país data de 1907. Trata-se do documentário “Entrega das taças aos campeões paulistas de futebol” (no caso, o São Paulo Athletic Club), dirigido por Joseph Arnaud.
Já a primeira filmagem de um jogo foi realizada por Antonio Leal no ano seguinte. Quer saber qual foi a partida? Brasil x Argentina. Ou seja, o cinema brasileiro começou sua relação com o futebol da maneira mais simbólica possível, registrando já em 1908 a maior rivalidade do mundo da bola.
Dessa fase inicial do namoro entre cinema e futebol – formado por documentários curtos que se perderam no tempo -, destacam-se outros registros curiosos: a excursão da clube inglês Corinthians em 1910 (que inspirou a criação de um certo time brasileiro de mesmo nome); o quebra-quebra generalizado durante uma partida de paulistas contra cariocas em 1927; a discussão em torno de um pênalti duvidoso que desclassificou o Brasil na Copa de 1938 em partida contra Itália.
Já o cinema de ficção começou a tratar do jogo em “Campeão de futebol” (1931), dirigido pelo comediante Genésio Arruda. Depois, vieram “Futebol em família” (1938), de Ruy Costa, sobre um rapaz que briga com o pai que não quer que ele vire jogador de futebol, e “Alma e corpo de uma raça” (1938), de Milton Rodrigues, que defendia a prática do esporte como uma maneira de aprimorar a raça brasileira.
Na década seguinte, foi a vez de “Gol da vitória” (1946), produção da Atlântida em que Grande Otelo representa um jogador com trajetória muito parecida à do craque Leônidas da Silva.
Segundo Zanin, cada filme sobre o tema “expressa tanto um momento da história do cinema como um momento um momento da história do futebol e da própria história do país. É um nó de significados.”
“Alma e corpo de uma raça”, por exemplo, registra os devaneios nacionalistas e de eugenia da era Vargas. “Garrincha – Alegria do povo”, de Joaquim Pedro de Andrade (1962), “Subterrâneos do futebol” (1964), de Maurice Capovilla, e “A falecida” (1965), de Leon Hirszman, trazem visões sociológicas do jogo e tentam revelar a função alienante do futebol, como produtos típicos do Cinema Novo.
“Pra frente Brasil” (1982), de Roberto Farias, feito no ocaso da ditadura militar, revela a utilização política do futebol na Copa de 70. “Boleiros” (1998) e “Boleiros 2” (2006), de Ugo Giorgetti, e o documentário “Futebol” (1998), de João Moreira Salles e Arthur Fontes, mostram o rosto humano do esporte. Outros títulos recentes, como “Ginga” (2006), produzido por Fernando Meirelles, testemunha as transformações do futebol na era da globalização.
“Estilisticamente, cada um desses filmes é típico de sua época: o melodrama dos anos 30, o cinema-verdade dos 60, o verismo de espetáculo dos 80, a diversidade de poéticas dos 90 e 2000, e a fusão com uma estética da publicidade, típica do nosso tempo”, escreve Zanin.
Além dos filmes sobre o esporte, o livro ainda analisa as muitas produções ligadas de maneira indireta ao tema, como “Rio 40 graus” (1955), “Os Trapalhões e o rei do futebol” (1986) e “Cidade de Deus” (2003).
Entre os filmes que recebem os maiores elogios do autor, estão “Garrincha – Alegria do povo”, “Subterrâneos do futebol”, “Boleiros”, “Futebol” e, como não poderia faltar, os clássicos cinejornais do Canal 100, ponto máximo da filmagem de futebol no Brasil e no mundo.
O único longa-metragem que conseguiu se equiparar ao Canal 100 até hoje, em termos de emoção e técnica, foi “Todos os corações do mundo”, produção oficial sobre a Copa de 1994 dirigido pelo brasileiro Murilo Salles e filme sobre futebol preferido deste blog. O resultado é tão bom que até aquela finalzinha chinfrim entre Brasil e Itália parece uma disputa épica na tela grande. Talvez tenha sido a única ocasião em que o cinema nacional deu uma goleada no futebol brasileiro.