Cannes surpreende e premia cinema de esquerda
A única previsão que se pode fazer sobre o Festival de Cannes é que seu resultado será imprevisível. Quando todos esperavam uma Palma de Ouro para “Volver”, de Pedro Almodóvar, ou “Babel”, de Alejandro González Iñarritu, o júri decidiu entregar o prêmio principal do evento a “The wind that shakes the barley” (O vento que balança a cevada), de Ken Loach.
O cineasta inglês é um dos últimos bastiões do cinema de esquerda. Toda sua obra se constrói em torno de ideais socialistas, em particular a denúncia da opressão contra os mais fracos. “The wind” não é exceção. O filme mostra a luta dos irlandeses contra a Inglaterra pela independência do país na década de 20; mas, depois da separação dos países, os irlandeses dividem-se em dois lados e iniciam uma guerra civil.
Na coletiva de imprensa do filme, Loach deixou claro que o novo filme pode ser visto como uma metáfora do que se passa hoje no Iraque, com os Estados Unidos e a Inglaterra fomentando divisões que levaram ao atual estado caótico do país depois da queda de Saddam Hussein.
A recepção inicial a “The wind” em Cannes foi morna. O filme foi considerado emocionante no conteúdo, mas convencional na linguagem – inferior a outros trabalhos de Loach, como “Agenda secreta” e “Terra e liberdade”. Porém, como ocorreu em 2004 com “Fahrenheit 11 de Setembro”, o júri deve ter chegado à conclusão de que, em tempos políticos, a Palma deveria também ser política.
Cannes preferiu premiar o cinema de ideais de Loach do que o cinema de sentimentos de Almodóvar – o que, observando a situação de longe, parece ser uma injustiça histórica com o espanhol, que continua sem uma Palma de Ouro. A surpresa da premiação reside no fato de que a obra do presidente do júri, o cineasta chinês Wong Kar-wai (“2046″), está muito mais próxima do espanhol do que do inglês.
“Volver” acabou ficando com os prêmios de melhor roteiro e de interpretação feminina (para todo o elenco de mulheres, que inclui Penélope Cruz e Carmen Maura). O prêmio masculino também foi coletivo, para os atores de “Indigènes”, do francês Rachid Bouchareb. “Flandres”, de Bruno Dumont, ganhou o Grande Prêmio do Júri do festival. E Iñárritu foi o melhor diretor por “Babel”.
