Depois de “4 Anos, 3 Meses, 2 Dias”, “Como Festejei o Fim do Mundo”, “A Leste de Bucareste” e “A Morte do Sr. Lazarescu”, mais um pequeno grande filme romeno chega ao Brasil. “Polícia, Adjetivo”, de Corneliu Porumboiu, tem muitas das características associadas frequentemente com aquela cinematografia: o realismo seco, pontuado por um senso de humor ácido; os longos e estáticos planos; a investigação da herança maldita da ditadura Ceausescu.
No caso de “Polícia, Adjetivo”, essa herança se manifesta na atuação burocrática e autoritária da força policial. Contra ela, se insurge silenciosamente o policial Cristi (Dragos Bucur). Ele é designado para investigar uma denúncia contra um adolescente que fuma haxixe e oferece a droga com frequência a dois amigos. Na Romênia, é o suficiente para levá-lo à cadeia.
Cristi passa oito dias seguindo o jovem, buscando provas para inocentá-lo e pedindo mais tempo a seus superiores para que possa encontrar os traficantes. Ele argumenta que a prisão arruinaria a vida do adolescente e que a Romênia irá se adaptar em breve à legislação da União Europeia, que não prevê punição aos consumidores.
O conflito do filme é esse impasse entre a Romênia do passado e a do futuro, que deixa o protagonista imobilizado do país do presente. É um conflito passado nas entrelinhas, em um filme dedicado mais à reflexão do que à ação, interessado mais nos substantivos do que nos verbos. Em um certo sentido, é um anti-filme policial, que mostra uma investigação como um processo tedioso e arbritrário.
Para se ter uma ideia, o clímax é uma discussão semântica entre Cristi e seu chefe, sobre palavras como consciência, lei, moral e policial. È uma sequencia simples, construída com o mínimo de recursos, e ao mesmo tempo extremamente complexa, por tudo que revela sobre o teatro absurdo do poder.
A ideia do The Auteurs, um dos meus sites de cinema preferidos atualmente, é fantástica. Uma Copa do Mundo de filmes, com disputas entre diferentes cinematografias. O modelo adotado é o mesmo do mundial de futebol: 32 países, divididos em 8 grupos de 4 na primeira fase; os dois primeiros colocados de cada grupo vão às oitavas de final; aí começam os mata-matas, que vão até a finalíssima.
Cada partida entre dois países é um embate entre três filmes, escolhidos por “técnicos” ligados ao fórum do site. O The Auteurs anuncia os filmes, dá um tempo para que seus leitores assistam a cada um deles e depois votem em seus preferidos em cada disputa. O objetivo é estimular os participantes do fórum a ver filmes pouco conhecidos de cinematografias variadas.
Até aí, tudo bem. Agora vai a má notícia para os ufanistas: o Brasil foi desclassificado logo na primeira fase. Mas nós demos azar: caímos no “grupo da morte”, composto ainda por Alemanha, Espanha e Canadá. Foram três jogos e três derrotas. Aí vão os resultados de cada partida:
Canadá 2 x Brasil 1
(”Terra em Transe” ganhou de “Spider” por 11 a 3; “Lavoura Arcaica” perdeu de “Calendar” por 4 a 5; “Pixote” perdeu de “Léolo” por 5 a 7)
Alemanha 3 x Brasil 0
(”Cidade de Deus” perdeu de “Ninotchka” por 6 a 13; “O Beijo da Mulher Aranha” perdeu de “Tabu” por 6 a 10; “Como era Gostoso o meu Francês” perdeu de “Asas do Desejo” por 5 a 7)
Espanha 2 x Brasil 1
(”Vidas Secas” ganhou de “Lúcia e o Sexo” por 10 a 4; “Deus e o Diabo na Terra do Sol” perdeu do “Cria Cuervos” por 7 a 11; “Carandiru” perdeu para “Um Cão Andaluz” por 3 a 10)
Como se vê, o pior jogador brasileiro foi Hector Babenco, cujos filmes apanharam nas três disputas de que participou. Mas a participação do Brasil não chega a ser uma vergonha. Com toda sua tradição, os Estados Unidos também dançaram na primeira fase.
O que menos importa no projeto do The Auteurs é a vitória ou a derrota. Todos as cinematografias saem ganhando, porque seus filmes são vistos e debatidos por mais espectadores. É uma das ideias mais interessantes que vi nos últimos tempos para estimular as pessoas a ir atrás de obras pouco conhecidas. Se dez estrangeiros se dispuseram a ver “Vidas ou Secas” ou “Deus e o Diabo na Terra do Sol” por conta da Copa do Mundo, a participação brasileira já valeu a pena.
Para quem está interessado em saber quais são os 16 países que chegaram às oitavas de final, clique aqui para conferir a tabela do The Auteurs.
“Fama” (1980), de Alan Parker, foi o primeiro musical a que assisti, ainda no começo da adolescência. Mesmo sabendo hoje que não se trata de um grande filme, ainda guardo por ele algum carinho, por ter me apresentado a um gênero novo. Só muito tempo depois eu descobriria que “Fama” era apontado justamente como um dos principais sintomas da decadência do musical.
Apesar de não ter muitas expectativas, a decepção com o remake que estreou na semana passada foi inevitável. O novo “Fama”, dirigido por Kevin Tancharoen, passou por um processo de higienização.
Grosso modo, foi mantida a história original, sobre a luta de um grupo de jovens para entrar e se formar numa escola de artes performáticas de Nova York e encontrar um lugar ao sol na indústria cultural americana. Mas todas as partes adultas e sujas foram eliminadas.
Ainda existe um personagem gay, mas ele nunca sai do armário. Ainda há um assédio sexual, mas, tal como mostrado, ele parece uma brincadeira de criança. Ainda há jovens com problemas sociais – desta vez, nada a ver com drogas e gangues; é só o papai e a mamãe que não querem que eles cantem e dancem.
É um “Fama” que parece mais o “Fama” da Angélica do que o “Fama” do Alan Parker. Feito para espectadores de “High School Musical” ou do “American Idol”. Com personagens que cantam com a vozinha de Justin Timberlake ou o vozeirão de Jennifer Hudson.
De certa forma, o novo “Fama” também é um sintoma – não apenas de mais um momento difícil para o musical, como também da infantilização de uma certa produção hollywoodiana.
Em meio a estreias espetaculosas, como “2012″ e “Aconteceu em Woodstock”, a modesta produção espanhola “De Profundis” vai provavelmente passar despercebida. Mas é um filme que merece um pouco de atenção, por ter uma proposta radicalmente artesanal, que remete aos primórdios da animação.
Seu diretor é Miguelanxo Prado, um dos principais ilustradores e autores de graphic novels da Espanha. Ao longo de cinco anos, ele criou 10 mil pinturas e desenhos e uniu-os para criar “De Profundis”. É um filme de enorme beleza, de ritmo lento, de efeito quase hipnótico.
A trama gira em torno da história de amor entre uma violoncelista, que vive em uma casa cercada pela água, e um pintor, que decide embarcar em um navio pesqueiro para melhor desenhar o habitat marinho. Quando o barco naufraga, ele é resgatado por uma sereia e inicia uma jornada mar adentro.
“De Profundis” lembra vagamente a obra do mestre japonês Hayao Miyazaki, em sua construção de um universo onírico particular e em seu método artesanal de produção. Mas o filme de Prado talvez seja ainda mais radical na decisão de priorizar a experiência sensorial do que a narrativa.
Se você gosta de animação, mas quer descansar os olhos da hiperatividade infanto-juvenil da maioria dos desenhos atuais, “De Profundis” é uma bela pedida.
A Criterion Collection é a Bíblia dos selos de DVD. Tem os melhores filmes, os melhores extras, a melhor qualidade de imagem e som. E também as capas mais classudas. Elas são tão emblemáticas, têm um estilo tão particular, que naturalmente viraram alvo de plágios e homenagens. A mais interessante delas surgiu em um fórum do site The Auteurs, em que vários participantes criaram suas capas fake de DVDs do selo. Conseguiram fazer até um “Transformers” à moda Criterion. Minhas preferidas estão aí abaixo.
Pela ordem, “Caché”, “Danton”, “Juventude em Marcha”, “Cidade dos Sonhos”, “Norbit”, “Taxi Driver”, “Transformers”, “Twin Peaks” e “Z”.
Apagão na vida real é uma tragédia. Mas no cinema funciona que é uma beleza. Como eu já disse certa vez, o escuro é o melhor amigo do filme de terror. E o apagão é uma garantia de escuridão total, que não pode ser revogada por um interruptor inconveniente.
O site Homem Etc. fez uma boa seleção de filmes sobre blecautes. Ok, não são obras-primas do cinema. Mas trabalham basicamente essa ideia da pane elétrica como elemento de terror – como num país nada distante.
1) “Where Were You When the Lights Went Out?” (1968)
Estrelado por Doris Day, o filme é sobre o grande apagão americano de 1965. O YouTube desativou a incorporação, mas você pode ver o começo neste link.
2) Efeito Dominó (1996)
Com Elisabeth Shue, Kyle MacLachlan e Dermot Mulroney, o filme mostra como um blecaute leva uma metrópole a uma pane social.
3) “O Verão de Sam” (1999)
Dirigido por Spike Lee, este talvez seja o melhor filme sobre um blecaute real, o de Nova York em 1977. Mas o apagão é apenas o pano de fundo para a história de um serial killer, também real, que assolou a cidade no verão daquele ano.
4) “Blackout” (2007)
Este não está na lista da Homem Etc., tem aquela cara de “direto pra DVD” e é sobre o grande blecaute de 2003, o maior da história americana. No geral, foi um apagão pacífico, mas o bicho pegou no Brookly nova-iorquino, onde se passa a ação.
5) “The Blackout” (2009)
Ainda inédito, o filme com jeitão de produção B mistura blecaute e aliens em um condomínio de uma pequena cidade americana.
6) “Blackouts”
O pessoal do Homem Etc. conseguiu encontrar este curta brasileiro ainda inédito, com quatro histórias que se passam no apagão de 2003 que atingiu a ilha de Santa Catarina.
E aí, esquecemos algum apagão cinematográfico nesta lista?
Ao se assistir a “Besouro”, fica logo claro por que o filme é um fenômeno no YouTube, mas um fracasso como cinema. A produção é feita de alguns bons momentos que duram 30 segundos, 1 minuto, em particular as cenas de lutas. Mas é incapaz de uni-las para formar uma narrativa fluida e coerente. É um filme truncado, desconjuntado, sem jogo de cintura – de certa forma, a antítese de seu assunto, a capoeira.
Seu diretor é João Paulo Tikhomiroff, que já ganhou trocentos Leões de Ouro em Cannes por suas propagandas, mas só agora estreia em um longa de ficção. Esse currículo fica claro ao longo da projeção: é um filme veloz e de fôlego curto, bom para os 100 metros rasos, não para a prova de fundo. Nesse sentido, é um filme que reforça certos preconceitos muito comuns sobre cinema feito por publicitários.
A assessoria de imprensa do filme foi muito competente para vender o filme como um fenômeno da nova era do audiovisual e conseguiu emplacar longas matérias sobre o filme na imprensa. Mas a decepção ao vê-lo na tela grande é quase inevitável. “Besouro” é um triunfo da propaganda, não do cinema.
Se não contarmos a repescagem, a Mostra de São Paulo terminou nesta quinta-feira, o que significa que chegou a hora do balanço. O meu dificilmente poderia ser mais positivo. Vi mais bons filmes nessas duas últimas semanas do que em todo o resto do ano.
Para mim, foi uma Mostra ao estilo de Ronaldo em sua atual fase: só indo na boa, sem muita correria, sem desperdício de energia, mas com alta porcentagem de aproveitamento. Dos muitos chutes que dei, a maioria balançou a rede; alguns foram golaços, pouquíssimos erraram o alvo.
De canelada mesmo, só um: “O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus”, filme de despedida de Heath Ledger, que não ficou à altura do talento do ator. No campo do não cheira e nem fede, “Distante Nós Vamos”, tentativa de Sam Mendes (“Beleza Americana”) parecer indie, e o superestimado “À Procura de Eric”, uma Sessão da Tarde à moda socialista de Ken Loach.
Daí em diante, minha lista só tem filmes que vão do bom à obra-prima. Nesta última categoria, estão “Vencer”, épico político que comprova que o italiano Marco Bellochio virou mestre, e “35 Doses de Rum”, em que a francesa Claire Denis mostra que se tornou uma das diretoras essenciais da atualidade.
Dos cineastas consagrados, vieram o delicioso “Singularidades de uma Rapariga Loira”, em que o centenário Manoel de Oliveira revela ainda ter fôlego de garoto, e “Abraços Partidos”, obra menor de Almodóvar, mas ainda assim muito acima da média.
A Mostra nos brindou ainda com os dois melhores filmes até aqui de cineastas que decidiram se arriscar fora de sua zona de conforto: “O Fantástico Sr. Raposo”, belo passeio do americano Wes Anderson pelo mundo da animação, e “Soul Kitchen”, incursão do alemão Fatih Akin pela comédia.
De novos cineastas, duas boas surpresas: “Dente Canino”, fábula de humor nonsense do grego Yorgos Lanthimos, e “Os Famosos e Duendes da Morte”, estreia muito promissora em longas do brasileiro Esmir Filho, diretor do curta “Tapa na Pantera”.
No final das contas, esta edição da Mostra me ajudou a recuperar um tanto da minha fé no cinema, que andava abalada por um ano muito fraco do circuito comercial.
É difícil falar de um filme sobre o universo da culinária sem recorrer a algum tipo de clichê: uma obra açucarada ou sem sal, para paladares finos ou de sabores exóticos, com receita bem temperada ou que desandou e assim por diante.
Mais difícil do que escrever a respeito, só mesmo filmar esse universo. O cinema gastronômico é um campo fértil para o estereótipo: a comida como fonte da sensualidade, como celebração do prazer, como bastião da identidade cultural.
Mesmo os filmes mais estimados sobre culinária são vítimas desse problema, como “A Festa de Babette” (1987), “Como Água para Chocolate” (2000), “Chocolate” (2000) e “Simplesmente Martha” (2002). E a grande virtude de uma animação como “Ratatouille” (2007) é justamente saber trabalhar bem com os clichês. É uma sina parecida com a do futebol: o cinema ainda não gerou produtos à altura do tema.
Nesse cenário, “Soul Kitchen” – que será exibido pela Mostra nesta quarta-feira, às 14h50, no Arteplex – é uma bem-vinda exceção. Uma rara comédia alemã que nos faz rir, dirigida por Fatih Akin, mais conhecido por seus dramas pesados (“Contra a Corrente”, “Do Outro Lado”). Um filme rock and roll sobre comida, estrelado por homens rudes e mulheres bravas.
O protagonista é o grego Zinos (Adam Bousdoukos), proprietário de um pé-sujo chamado Soul Kitchen, localizado em uma região decadente de Hamburgo. Ele está em uma fase negra: sua namorada decide morar um tempo em Xangai; seu irmão presidiário pede um emprego de fachada no restaurante para poder entrar em regime semi-aberto; um antigo amigo que virou corretor tenta sabotar o restaurante para comprá-lo por um preço baixo; e ele tem um problema nas costas que o impede de continuar cozinhando. A solução é contratar Shayn (Birol Ünel, de “Contra a Parede”), chef talentoso, mas totalmente casca-grossa, que ofende clientes e atira facas no dono do restaurante.
Shayn não lembra nenhum cozinheiro do cinema. Mas remete a chefs de programas de TV, como o escocês Gordan Ramsay (“Hell’s Kitchen”), e de livros, como o americano Anthony Bourdain (“Cozinha Confidencial”). Graças a ele, “Soul Kitchen” liberta o cinema de algumas das principais armadilhas dos filmes culinários, daquela velha combinação de elitismo e sentimentalismo, de frescura e convenção. Para não fugir ao clichê, um filme deveras saboroso.
É crítico de cinema, redator-chefe da revista “Trip” e colaborador da “Folha de S. Paulo”. Escreveu sobre filmes e outros assuntos para o site NoMínimo, a revista “Bravo” e os jornais “Gazeta Mercantil” e “Jornal da Tarde”, entre outros.