PAI
Olá,
Nessa minha primeira coluna acho necessário me apresentar. Muita gente não me conhece e vai acabar conhecendo através dessa coluna, então, vamos fazer como manda a etiqueta.
Meu nome é Rafael Grampá e eu faço HQs. Pra quem não conhece meu trabalho, prefiro ilustrar ao invés de explicar. A imagem abaixo é um dos últimos desenhos que eu fiz. (CLIQUE PARA AUMENTAR).
Minha mãe se chama Oneide, meu irmão Cris e meu pai Josme. É, Josme. Hoje em dia o Josme é um senhor de cinquenta e poucos anos, porém jovial. Curte usar um conjunto de tactel e tênis de futebol de salão. Anda sempre meio esporte – até porque joga sua bola até hoje. Diz ele que é um ótimo goleiro e tem mil histórias pra contar. Eu particularmente não sei se ele é um bom goleiro. Lembro muito pouco das suas atuações no gol. Nosso convívio ficou restrito a pequenos encontros desde que minha mãe e ele se separaram. Eu tinha nove anos. Mas lembro muito bem das suas histórias, algumas contadas por outras pessoas, outras pelo próprio Josme.
Diz a lenda que a banda em que ele tocava bateria nos anos 60, chamada Os Chayennes, era a banda cover mais popular da grande Porto Alegre naquela época. Tem uma história que ele mesmo conta – e conta empolgado, suas narinas dilatam de tanto que ele sorri e noto que sempre se emociona quando descreve a parte da levitação.
Baile de formatura, 1968. No auge da festa a energia elétrica do salão acaba. Quando volta, os alto-falantes não funcionam mais. O baile precisa continuar mas o vocalista da banda (vamos chamá-lo de “Loberto”) fica desesperado por ter que cantar sem microfone. Forçar a sua voz de veludo poderia comprometer os próximos shows da banda. Loberto, então, pede ao guri Josme que assuma a fente, pois sabe do desejo do garoto de ser o front man da banda desde o início de Os Chayenes. “É a sua chance, Josbe”. Imagino que Loberto sempre fala o nome do pequeno Josme errado. Bullying. Josme decide aceitar a provocação e se impõe em frente a platéia e evoca um A# do cara do violão – sim, agora ficou tudo acústico. A platéia apreensiva olha fixamente para Josme, que enche os pulmões num segundo interminável e: “Eu tenho tanto / Pra lhe falar”. A platéia ovaciona e Josme diz levitar. Seus olhos se enchem de lágrimas quando conta essa história, deve ser verdade. Josme levitou.
Juntando as peças, acho que Josme deve ter sido escolhido pelo “enconsto da arte” naquele momento. Sim, insisto em dizer que a arte é um encosto. Segundo o Wikipédia: “Encosto é um fenômeno provocado a alguém por uma entidade exterior causadora de total dependência mental, espiritual e física a uma pessoa sobre a qual se deseja o domínio completo, deixando-a incapaz de sentir vontade própria, etc”. Arte. Quem é artista vai concordar comigo. Mas enfim: Josme. Depois de ter sentido a dopamina refrescar seu corpo e de ter sido suspenso pelos aplausos, Josme decide que vai se tornar o novo Rei do Iê-Iê-Iê. Inventa um pseudônimo: Hudson Carlos! Hudson se põe a compor suas próprias canções. Só não posto imagens da caderneta feita por ele mesmo com cartolina bege, onde juntou uma meia dúzia de folhas e escreveu suas inocentes letras, porque isso não me pertence.
Não tenho conhecimento se Hudson Carlos chegou a gravar alguma dessas letras, ou se ao menos chegaram a ter um arranjo. Só sei que agora Hudson Carlos existe apenas nessa caderneta, o sonho de Josme que guardo comigo.
Meu tom pode ter sido irônico até agora mas foi assim que eu sempre acabei me referindo ao Josme, com a desculpa de que ele havia sido o maior figuraça de sua época. Transformei o Josme em um mito na minha roda de amigos. Mas a verdade é que eu nunca quis demostrar quanta falta ele me fez depois que foi embora. Queria ele por perto de qualquer maneira e decidi que ele seria esse figuraça que todos iriam amar ao invés do verdadeiro Josme, que representava muita mágoa para mim. Depois da separação, ele procurava pouco, se interessava pouco, deixou minha mãe, meu irmão e eu na mão inúmeras vezes, sumia sem remorso nenhum. Não pagou pensão, minha mãe se fudeu pra nos criar. Foi intimado e poderia ter sido até preso por não ter pago pensão, só não foi porque o Cris e eu não queríamos ter um pai na cadeia, um futuro que Hudson Carlos jamais teria imaginado para si. Mal sabe ele que a única coisa que eu esperava dele era um “high five” de pai, um convite para ir ao cinema, num rodízio de pizzas, um interesse pelo que eu estava lendo ou desenhando. Ele só curtia convidar a gente para vê-lo jogar bola e eu achava muito egoísta de sua parte, sempre atrás dos aplausos perdidos do baile de formatura e por isso eu nunca ia. Era eu que havia sido deixado de lado. Não queria dar atenção, queria receber.
Houve uma época na adolescência em que Josme e eu passamos mais tempo juntos, mas eu já o tinha bloqueado da minha vida. Adolescência, Death Metal cristão (outra hora eu conto essa história), rebeldia, um prato cheio para desprezar Josme. Ele não passava de um adulto que eu mais ou menos respeitava, que aprendi a tolerar pra ganhar um par de tênis de marca de vez em quando. Não existia uma troca de pai e filho mas na adolescência quase nunca há mesmo. Eu sabia que ele tinha feito merda, mas ele continuava se comportando como se ainda fosse responsável pela minha criação, sendo meio durão, dando moral. Para um cara que abandonou a família eu achava que ele deveria ter sido mais parceiro, sem essa máscara de “Pai” que ele fazia questão de usar. Ele já tinha desistido do posto, então não tinha porque fingir.
Quando eu completei 21 anos, redescobri algumas fotos antigas do meu pai e da minha mãe. Meu contato com Josme já nem existia mais, acho que cheguei a ficar uns dois ou três anos sem ao menos vê-lo. Esqueci até a data do seu aniversário. Por outro lado, eu sentia a necessidade da presença dele e criei um personagem baseado nas fotos que eu havia reencontrado. Ele virou o protagonista de uma tira chamada “O Jovem Josme nos Tempos do Iê-Iê-Iê”, que contava a história de um jovem ambicioso e de talento duvidoso que acreditava que, se possuísse a perna mecânica do Roberto Carlos, seria o novo rei da Jovem Guarda. A idéia era também uma resposta para o que eu estava vivendo na época – descobrindo a Jovem Guarda, os discos malditos de Ronnie Von, apaixonado pelos Beatles, Rolling Stones, The Kinks, uma lista bem grande. Nunca cheguei a realizar a tira, fiz apenas uns esboços. Vários esboços. Resolvi rabiscar uma das tiras que eu me lembro, com mais ou menos o tipo de traço que eu gostava de fazer na época para ilustrar esse texto. (CLIQUE PARA AUMENTAR).
Me tornei adulto, vim para São Paulo e nunca mais falei com o Josme. Talvez algumas vezes por telefone, uns dois ou três encontros rápidos em sete anos. Distanciamento total. Posso estar sendo um tanto injusto nessas minhas lembranças, ele deve ter participado um pouco mais do que eu lembro, mas não muito mais. Eu não o procurava e nem ele a mim. Ficamos assim, fingindo que tudo bem.
Em Setembro de 2010, um bujão de gás explodiu no meu pai enquanto ele trocava a mangueira. Quando minha mãe me ligou para avisar, meu mundo caiu. Achei que o tinha perdido. Ele sofreu graves queimaduras nas pernas e no braço esquerdo, mas por conta do ótimo atendimento da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, ele se recuperou muito bem.
Em março deste ano foi a última vez que eu o encontrei. Ele passou de carro na casa do Rafa Albuquerque, onde eu estava hospedado, para me pegar. No caminho conversamos sobre assuntos muito íntimos que jamais havíamos falado antes. Ele ainda um pouco no papel de pai exemplo, querendo ser político, mas eu acho que aos poucos ele foi percebendo que o que eu queria era apenas conversar com um amigo. Havia um churrasco sendo preparado em sua nova casa e lá estariam sua nova esposa, minha mãe e seu novo marido. Um momento peculiar na minha vida. Foi durante o churrasco que ouvi sua história da levitação mais uma vez. Lembrei da caderneta com as composições de Hudson Carlos e perguntei a ele o que havia sido desse sonho, uma pergunta que eu gostaria de ter feito há muito tempo. “Conheci a sua mãe e logo em seguida casamos, larguei a banda e tive que trabalhar”, respondeu, simples assim.
Fantasio com a idéia de que Josme nunca deixou de lado o seu sonho dourado e que talvez uma família representasse o fim desse sonho, como ele mesmo falou, e por isso nos abandonou para deixar Hudson Carlos cantar, o que nunca aconteceu. Mas talvez eu esteja apenas querendo criar uma razão fantástica para um acontecimento muito comum, a separação. Eu não o julgo mais. Não consigo mais me referir a ele com ironia, uma lacuna se completou. Hoje eu o vejo como um dos caras mais felizes que eu conheço, realizado com suas conquistas no futebol – jogando com os veteranos do Inter – realizando novos sonhos com sua nova família e twittando a hora do seu whisky com azeitonas.
Seu telefone estava guardado na agenda do meu celular como “Josme”. Depois do nosso último encontro, mudei para Pai.
Pai,
Sei que você vai ler esse texto. Não vejo a hora de assarmos aquela carne e tomar uma cerveja aqui em casa, como combinamos.
Do teu filho,
Rafa
55 comentários | Comentar
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5 Daniel Rodrigue 01/07/2011 0:31
Muito bom texto!
4 Guilherme Bragiola 01/07/2011 0:42
Pô, que foda Rafa.
Muito bonito o texto, e ao mesmo tempo muito dificil.
Curto muito o seu trabalho, sou fãzasso do teu traço, mtu bem feito mesmo.
Continue assim!
Abraços.
3 Bruno Rodrigues 01/07/2011 0:45
Uma declaração de amor, Rafael. Muito lindo, cara, parabéns.
2 Fabio Catena 01/07/2011 0:57
simplesmente fantástico, me emocionei muito aqui. perdi meu pai a 5 anos, e sinto sua falta todos os dias. Esse texto me fez lembrar das histórias que meu pai contava quando eu era mais novo… parabéns Rafa, obrigado por repartir essas palavras
1 Italo Aguiar 01/07/2011 1:24
Muito bonita a estória Rafa, fico feliz por você. Na próximo post conta a estória do Death Metal Cristão! hahahahaha. Abraço,
Italo Aguiar