O DIREITO DE QUERER MENOS, POR HERMANO VIANNA
O texto abaixo, escrito pelo antropólogo Hermano Vianna, chegou até mim via Nana Caetano, que recebeu da pesquisadora de moda Rosana Preciosa. Ele foi escrito em 2003, mas faz sentido até hoje (e acho que cada vez vai fazer mais) – e deve ser lido, compreendido e pensado, sempre, por todo mundo que “mexe com modas”. Ta aqui (é longo, mas vale a pena. Garanto):
“Nos últimos anos, não é mais possível andar pelas ruas de Londres sem se deparar, em todos os lugares, com uma loja de sanduíches da cadeia Prêt-A-Manger, recinto de look pós-moderno onde podemos ter toda uma nova experiência fast-alimentar. As massas do mundo “desenvolvido” se sofisticaram demais para continuar consumindo hamburgers e coca-colas, mesmo quando estão com pressa. Não fica bem, nem um pouco bem, serem surpreendidas num McDonald’s, que não contente de ter fama de gerador de enfartes ainda é acusado de destruidor de florestas tropicais. Além disso, essas massas já foram doutrinadas a gostar de rúcula, tomate seco e capuccino – portanto seus novos paladares não admitem mais aqueles sabores rudes que um dia encantaram a sociedade de consumo em seus tempos primitivos, pré-digitalizados e pré-globalizados.
Ser massa hoje, num país de primeiro mundo, é bem mais complicado. Nada de prazeres fáceis e vulgares, nada de indústria cultural, nada de gostar do que é igual para todos. Agora todo mundo tem que ter personalidade e bom-gosto – sempre definidos por seu padrão de consumo. O produto de massa contemporâneo vem com outra embalagem, para fingir que não é de massa, para aparentar que foi feito só para você, consumidor especial que sabe o que quer, e que para comprar o que quer tem que exercitar o tempo todo o seu sagrado direito da escolha – escolhendo sobretudo algo que o distingue dos outros mortais e atua como seu passe VIP para fora do tão-mal-falado-lugar-comum. Ninguém mais quer estar em nenhum lugar comum, todo mundo quer ser diferente, e ser diferente é chique.
Portanto, o novo McDonald’s é o Prêt-A-Manger, até porque a cadeia da nova fast-food foi mesmo comprada pelo McDonald’s. Mas é uma fast food envergonhada, que salpica tudo – da decoração à bandeja – com “estilo” e “filosofia”. Logo na vitrine, ou na home do web site, quem entra lê: “Nós percorremos distâncias extraordinárias para fugir dos obscuros aditivos, preservativos e agentes químicos comuns na maioria da “fast” food “prepared” que está no mercado hoje em dia.” O aviso “filosófico” ainda diz que todos os ingredientes contidos nos sanduíches e nas bagettes (é claro…) chegam frescos nas lojas todos os dias, e os sanduíches e as bagettes (é claro…) não comidos naquele mesmo dia são doados para instituições de caridade.
Fico imaginando os mendigos, que também são sofisticados no primeiro mundo, escolhendo entre um Crayfish and Avocado Salad e um Black Pepper Chicken on Bloomer Bread, que podem ser servidos nas opções Nut Free, Sesame Free, Dairy Free, ou GM Free (GM Free, para quem não sabe – como eu não sabia, significa que o sanduíche não contém nenhum ingrediente Geneticamente Manipulado, isto é, nada de soja ou milhos transgênicos nem nenhum de seus derivados). Para facilitar também as escolhas dos sem-teto britânicos – e agora também de Nova York, Hong Kong, Tóquio e breve de todas outras cidades “desenvolvidas” do mundo – as embalagens contêm informações sobre valores de proteínas, de fibras, de gorduras (saturadas ou não), de carboidratos (dentre eles a quantidade de açúcares). Um educado lembrete diz que “já que quase todos os produtos Pret são feitos todos os dias a partir de ingredientes frescos os valores nutricionais são apenas médias.” Assim a empresa evita também que algum mendigo, ou consumidor elegante, a processe no futuro alegando que na sua bagette havia 2% mais carboidratos do que os “propagandeados”.
Ao ver tanta opulência numa simples lanchonete não pude deixar de suspirar pensando no meu querido e coitado Terceiro Mundo. Aquilo tudo pode existir ali porque em algum lugar do mundo não existe nada parecido. Isso é matemática de primeiro grau. O planeta não tem recursos suficientes para proporcionar esse padrão de consumo de massas para todas as suas massas. A Terra se esgotaria com quilômetros de plantação de rúcula orgânica de perder de vista e toneladas de tomates limpinhos (de preferência lavados com água mineral Evian…), secando ao sol para depois serem tratados com azeite extra-virgem preparado artesanalmente… (Isso para não falar nos direitos trabalhistas nível comunidade européia que são pagos para quem prepara cada sanduíche daqueles todos os dias!) Não cabe no mundo isso tudo para todos. Não que não fosse bom caber. Mas não vai ter Fome Zero mundial que, nas atuais condições tecno-científicas da engenharia agronômica, vá produzir riqueza o bastante para alimentar o desejo de Crayfish e Avocado Salad (com molho thai, por favor) de toda a população do mundo, se ela vier a desejar tal coisa (como periga desejar se esse estilo de “sofisticação” continuar a se alastrar nessas proporções epidêmicas – como têm se multiplicado assustadoramente, por exemplo, as máquinas italianas de fazer café).
Isso porque estou falando “só” de comida. Imagine que espaço sobraria no mundo se todo mundo tivesse uma casa do tamanho e da “sofisticação” do tipo das que aparecem na Caras ou na Wallpaper (nada contra a Caras… nada contra a Wallpaper…) Ou como seria o trânsito de uma cidade como São Paulo, e os níveis de petróleo no mundo, se todo mundo pudesse ter, como todo mundo parece desejar por razões para mim inexplicáveis a não ser por mero exibicionismo, um Hummer personalizado. Tudo bem, dizem que o carro é bom, dos melhores, já foi testado em guerras no deserto… Eu acredito em propaganda militar e marketing… Mas quem precisa mesmo dele? Quem, em sã consciência, trocaria um bom sistema transporte público por esses dinossauros – sofisticadíssimos, eu sei – cibermecânicos? Mas todo mundo, na hora H, troca a briga por um bom transporte público por um carro vistosão e grandão (coitados dos estacionamentos), se lixando para o mundo, para os outros. E cada vez massas maiores têm acesso a esses bens e vão se empanturrar com tanta sofisticação. Assim caminha o capitalismo, e o fim da história, não é mesmo? Outro mundo é possível? Só se tiver casacos da Burberry para todos, ou relógios Bulgari para todos? Não precisa tanto: mesmo churrasco no domingo para todos já faria um estrago danado.
Tudo bem. Não quero estragar o domingão de ninguém. Todo mundo é filho de Deus, merece ter tudo do bom e do melhor que até hoje só poucos tiveram. Mas a que custo? E porque todo mundo precisa mesmo desse tipo de “bom e melhor”. Não há outros “bons e melhores” bem diferentes disso que hoje as massas parecem desejar? Não vou propor nenhuma patrulha ecopolítica radical para o bem da humanidade. Mas não consigo deixar de achar que o mestre Agostinho da Silva estava coberto de desafiadora razão quando escreveu querendo algo bem distinto disso tudo:”Mas eu quero ver o primeiro homem que não deseja coisa nenhuma! Nunca fazemos treino para isso e, pelo contrário, todo mundo está organizado [...] para desejar alguma coisa mesmo quando não deseja. [...] Quer dizer, o mundo, na fase atual, está continuamente a semear desejos em nós, sendo esse um dos pontos mais importantes do mundo – como é então que podemos chegar a uma economia que não semeie em nós o desejo, mas sim a quietação e não a inquietação”. Grande questão, talvez a maior de todas: por que economia tem que ser inquieta por definição?
Agostinho da Silva não era bobo. Ele sabia que foi a partir desse tipo de desejo que todo um parque industrial foi construído para produzir tantas coisas, e que é só por causa desse avanço tecnológico que podemos hoje pensar numa alternativa “quieta”. Sei que a pregação desse quietismo solidário soa ingênua, comunista, franciscana, reacionária (contra o “progresso”), moralista ou mesmo obscurantista. Parece um sonho do “vamos nos dar as mãos agora e trocar o luxo de poucos pelo simples e necessário para todos.” Só uma mudança tremenda de mentalidade (Agostinho da Silva esperava o Quinto Império, com o Espírito Santo nos iluminando…), da concepção de “desenvolvimento” (para o Brasil se “desenvolver” precisamos mesmo derrubar as florestas e plantar soja?”), ou mesmo da natureza humana, poderia colocar em cheque essa cruel máquina de fabricar inveja, eterna insatisfação e desejos sempre maiores? Desejos por quê? Por uma bolsa Louis Vuitton?!!!
Também acho que não sou totalmente bobo. Consigo evidentemente admirar a beleza de uma bolsa Vuitton desenhada por Takashi Murakami. Acho bacana, bem potlach, que alguém gaste tanto dinheiro para comprar essa bolsa – adoro ver gente queimando dinheiro, quanto mais dinheiro melhor. Mas também sei que o mundo poderia viver muito bem sem essa bolsa (ou que o preço de uma bolsa boa e bonita poderia ser infinitamente mais barato), e não seria um lugar menos interessante por isso. E então não consigo evitar de sempre ver que há algo de podre (a tal cruel máquina de reprodução de inveja, insatisfação e também humilhação) na bolsa Murakami, no sanduíche do Prêt-A-Manger (por mais frescos que eles sejam), ou na hipnótica branquidão dos lençóis de algodão egípcio do Hotel Fasano (isso para não falar no assento térmico da privada do Emiliano).
Sempre vai ter alguém que tem mais, ou vai ter um produto novo – e glamurosamente caro – que você não tem e não pode ter (e o fato de você não precisar ter não tem a menor importância, quando o desejo de ter é o que move tudo). Um restaurante de luxo vai ter que sofisticar e encarecer sua culinária se quiser se manter “acima” dos fast-food sofisticadíssimos que o sucesso de massa do Prêt-A-Manger e do café italiano apenas anuncia de forma tímida e canhestra (ninguém realmente “sofisticado” come no Prêt-A-Manger). Com as massas do primeiro mundo cada vez ganhando mais dinheiro, uma loja como a Prada vai ter que aumentar constantemente e astronomicamente seus preços a cada estação se quiser manter o interesse de uma clientela que compra não produtos mas sim exclusividade, aquilo que todo mundo não pode comprar. Pois sem exclusão, nada disso existiria: se uma roupa é usada por qualquer um, ela necessariamente – no regime de moda no qual vivemos – perde o seu charme. E assim por diante: se todo mundo puder comer nesse restaurante, dormir nesse hotel, viajar nessa primeira classe, todo esse mundo desmoronaria. É preciso deixar sempre gente de fora para a festa da sala VIP ser animada.
O que estou pregando então? Uma comunidade hippie globalizada? Uma nova revolução cultural maoísta? Pretinhos básicos, e nada mais, para todas as moças? Nada disso parece ter dado muito certo, não é? Porque todo mundo está ficando cada vez mais louco ao consumir e não há – até segunda ordem – plano de fuga no shopping center planetário (fugir para onde? até em Cuba as pessoas se jogam no mar revolto só para fazer compras em Miami… e mesmo no Butão, que não tinha TV até os anos 90, agora já tem internet…). Então esta é minha única maneira de terminar este texto com um elegante otimismo: quero apenas menos, um pouquinho menos. Vocês que são brancos, e precisam realmente comprar isso tudo, que se entendam. Não vou nem concluir dizendo que tudo isso me parece um pouco cafona (o que seria muito óbvio – até porque eu gosto de brega!), não vou nem insinuar que não é mais nem um espetáculo interessante contemplar o barulho produzido por tanta insatisfação (e acho que mesmo estratégias situacionistas de desconstrução desses desejos apenas aumentam o barulho, e a quantidade de coisas e ações que atravancam o mundo…) Como diz o Wado, numa canção que adoro: eu vou ficar quietinho, eu vou ficar no meu canto. Talvez essa seja a atitude mais radical.”
Autor: Maria Prata - Categoria(s): Comportamento Tags: Consumo, Desejo, Hermano Vianna, Luxo
Muito bom o texto. Virei fã do blog por essas reflexões inteligentes sobre nosso “mundinho”! Parabéns por disponibilizar o que, infelizmente, não temos como acessar com facilidade, como esse texto maravilhoso. Bj
este texto de 2003 me lembrou um da Danuza Leão que recebi esses dias… quem tiver paciência, leia. achei um pouquinho hipócrita no início, mas vai ver, doar copos foi a maneira q ela encontrou para dizer “não” ao consumo desenfreado. e eu com tudo isso? eu já comi no pret-a-manger, carregaria por aih uma louis vuitton do murakami sem problemas e quero muita coisa. e desejo sempre mais. só que, pra alegria do hermano vianna, eu quero (olha só que chavão) todas as coisas q o dinheiro não pode comprar… mesmo não querendo andar por aí com as roupas iguais às de todo mundo.
DANUZA LEÃO
Mudanças à vista
Vou tentar, aos poucos. Para começar, tirando do armário as coisas que com certeza não vou usar mais
O MUNDO está mudando depressa, ultimamente, e vai mudar mais ainda.
Quando vejo pela TV aqueles milhares de carros nos pátios das montadoras, feitos para que as pessoas troquem o seu a cada ano, e estas à beira da falência, fico pensando. A quantidade de carros que já existe no mundo não só contribui para a poluição, como nas grandes cidades o trânsito é caótico. Tanto que, em algumas, como Londres, já estão cobrando pedágio para poder circular no centro, e em outras é proibido circular em certas áreas. E pra que trocar de carro todo ano? De cinco em cinco já não dava pra ser feliz? E será que o mundo precisa de mais carros do que já tem? Para evitar o desemprego, as montadoras poderiam colocar seus operários recuperando carros antigos; alguém já viu um cemitério de automóveis nos EUA? Carros que seriam o sonho de qualquer pessoa normal estão lá, jogados, porque já têm alguns poucos anos de uso. E os bancos, como é que ganham tanto dinheiro? Nunca vou conseguir entender.
Estava olhando outro dia meu armário e vi quantas bolsas eu tenho. São muitas. E eu por acaso preciso de todas elas? Claro que não. E as roupas? A rigor, durante o dia ou estou de jogging ou de jeans e camiseta, e saio tão pouco à noite que preciso de pouquíssima coisa para vestir.
Posso dar a metade do que tenho e ficar muito feliz com a metade que ficou. É claro que existe um ranço dentro de mim que fica entre o “dou-não-dou, posso me arrepender, será?” e tenho medo de um dia chorar lágrimas de sangue por uma blusinha preta que dei num momento de loucura.
E é aí que entra a mudança; tenho que mudar, temos todos que mudar com o mundo. Não há razão para eu ter uma mesa de sala de jantar com seis cadeiras se tenho uma diarista que vem três vezes por semana e vai embora às 4h da tarde; eu não sei cozinhar, não pretendo aprender, nem convidar ninguém para jantar. Qual o sentido de ter essa mesa? Não seria melhor mudar para um quarto-e-sala? Estaria sem dúvida mais de acordo com a minha realidade.
Vou tentar, aos poucos. Para começar, tirando do armário as coisas que definitivamente não vou usar mais. E é pra já. Daqui a pouco eu acabo a coluna.
Vinte minutos se passaram, e nesse tempo, fiz uma limpeza. Não uma completíssima, mas bem razoável. É muito fácil dar conselhos aos outros, quando chega nossa hora, é tudo difícil. Ainda tenho coisas sobrando, mas meus sapatos ficam. Sou louca por eles e mesmo que não use nunca mais na vida, quero saber que eles estão ali, bem pertinho, ao menos para eu olhar. Quem vai ficar feliz é minha diarista. Vai ficar com tudo, mas com uma condição: que ela leve tudo amanhã mesmo, antes que eu me arrependa.
Muita coisa já foi: outro dia chamei duas amigas e botei em cima da mesa -para isso, pelo menos, ela (a mesa) serviu- todos os copos e louça que eu tinha sobrando e que não usaria nunca mais; até porque, se enlouquecer e resolver dar um jantar, o bufê traz tudo, da colherzinha de café à travessa, e quem mora só não precisa de mais do que seis copos, seis pratos, enfim, seis de cada coisa, e pronto.
Ainda estou longe da grande mudança: passar pelas lojas e não ter vontade de comprar rigorosamente nada. Mas estou perto: não agüento mais ouvir falar em moda -logo eu, que adorava-, e se me convidam para um desfile, eu quase morro. Aliás, meu problema não é só com a moda, é com tudo o que está na moda e que todo mundo segue, sejam restaurantes, cidades, carros, bebidas, comidas etc.
Estou precisando ter coragem para mudar para o quarto-e-sala, mas chego lá. Até porque adoro uma mudança.
danuza.leao@uol.com.br
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Índice
Texto maravilhoso Maria!
Nos faz refletir e olhar para questões sociais que são apagadas
por uma simples propaganda falsa( ou por impulso)
Beijoss!!
P.S. E o post sobre as formas de incentivo aos novos criadores de Londres que você prometeu? rsrs
Gostava deste blog; depois da publicação do texto do HV, me apaixonei perdidamente…..
Êta nóis! Não da pra não deixar um comentário depois de ver o texto do sócio no seu blog! Viva nosso guru.
Espetacular. O blog ta ótimo. Outra moda.
Bjs
Boas idéias. Ninguém é massa de manobra pq quer…
Existe uma poderosa indústria de MKT por trás , não é?
A Vivian no blog última moda escreveu sobre categorias em que as pessoas são enquadradas e seus consumos.