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14/04/2008 - 16:06

MUNDINHO? EU VIVO É NUM MUNDÃO!

“Abaixem os preços, democratizem a cultura de moda e parem, então, de reclamar que os brasileiros se vestem tão mal!”
A frase acima é o último parágrafo da carta do editor de moda da Folha de São Paulo e querido de plantão, Alcino Leite Neto, na última revista Moda, publicação feita pelo jornal e que todos devem conhecer. No restante do texto, Alcino faz uma comparação da moda apresentada nas passarelas brasileiras e o que se vê no desfiles internacionais com seus respectivos mercados (nacional e gringo). Explica que, claro, a moda internacional produz para o mercado de luxo do mundo todo e que os estilistas brasileiros têm que se contentar com o mercado interno (”minúsculo para a moda sofisticada, ainda que gigantesco para as roupas populares”). E que “enquanto criarem roupas apenas para o restrito mercado de luxo brasileiro, as grifes permanecerão simples ateliês de costura”. E propõe: “o maior potencial criativo e econômico da moda brasileira talvez não esteja na imitação do luxo, mas na produção de um design democrático, que combine criatividade com bons preços”.
Me deliciei lendo cada frase do editorial do Alcino. OK, a coisa também não é tão simples assim. Começar é difícil, produzir em pequena escala custa muito caro (daí os preços altos das roupas nas araras) e o Brasil não é, mesmo, o País mais prático quando o assunto é abrir um negócio. A questão é que eu realmente não acho que nossos estilistas estejam interessados em abrir o leque. Querem, com raras exceções, desenhar para o tão famoso… MUNDINHO. Qualquer pessoa mais familiarizada com o universo da moda conhece essa expressão. “Mundinho” é o jeito com o qual quem é de moda chama este míni-gigante universo em que vive. E não tem expressão melhor (e mais triste, na minha opinião) que essa para descrever esse… small world. Primeiro, porque ele é mesmo mínimo (cabe em uma sala de desfile. Melhor: na sala de desfiles do MAM, que é a menor de todas no SPFW). Depois, porque é, definitivamente, o universo da exclusão. Você é feio? Ou gordo? Não tem convite para o desfile? Nem nome na lista da festa? Não tá com pulseirinha? Ainda não decorou as gírias da vez? Desculpe, pode aguardar ali ao lado, por favor? Próximo!!
A frase final do texto do Alcino poderia não falar de dinheiro, que ainda faria sentido: “democratizem a cultura de moda e parem, então, de reclamar que os brasileiros se vestem tão mal” dá o recado que eu quero dar aqui. O Brasil é gigante. E recheado de gente querendo informação, sedentos por saber (e lançar) a próxima tendência. É, aliás, um dos países que mais lançam tendências locais. As moon boots, as calças bailarinas, o shortinho do Tchan, as calças Gang e mais centenas, milhares de manias criadas por novelas e seguidas por milhões (M-I-L-H-Õ-E-S) de pessoas. Acha tudo horroroso, cafona? Pode ser. Mas é reflexo da quantidade ínfima de informação de moda bacana que chega até o povo. Se a informação (e os produtos. E os preços) chegassem longe, talvez a cena fosse outra. A Inglaterra já entendeu que as classes mais baixas querem moda (o fenômeno do fast-fashion de gigantes como Top Shop e H&M é enorme por lá). Os EUA estão entrando na onda (a GAP deixou de ser básica e tem muito mais tendências em suas prateleiras e este ano o país recebe a primeira Top Shop) e o Japão, nem se fala (a Uniqlo, por exemplo, seu maior fenômeno de fast fashion, está dominando o mundo). Produto com design e qualidade, a preços mais baixos, para as classes que mais crescem no Brasil (hello… classe C com dinheiro no bolso, pronta para consumir!!), ninguém conseguiu fazer até agora. Nossas redes populares estão tentando (C&A lançou minicoleções de estilistas, Renner está cada vez mais tchap tchuras), mas, convenhamos, ainda estão longe de acertar.
Conclusão do meu desabafo: abram o leque. E não estou falando só para os estilistas, não. Estou falando para o “mundinho” todo. Imprensa inclusive (principalmente, talvez). Deixem de olhar para o mundINHO e comecem a perceber o mundÃO.
… E parem, então, de reclamar que os brasileiros se vestem tão mal!

Autor: Maria Prata - Categoria(s): Sem categoria Tags:

44 comentários para “MUNDINHO? EU VIVO É NUM MUNDÃO!”

  1. Márcia Mesquita disse:

    Ah, pelos textos eu imaginei que gostasse muito da London College mesmo e acho que deve ser sério o curso, mas a gente fica insegura né? eheheheh
    Obrigada!
    bjs

  2. Rafaela Coelho disse:

    Concordo muito com esse post.
    Ainda tem a Zara, do tipo fast-fashion no Brasil, que na minha opinião é a melhor em custo benefício.

    Dá sim pra se vestir bem sim sem gastar horrores, ter informação de moda sem que seja somente coisa de novela, ainda mais hoje que a internet dispõe de tanta coisa de graça (revistas, fotologs e blogs como o seu).

    Eu que moro em João Pessoa – PB (que nem uma Zara tem) tenho que me contentar em mandar fazer grande parte das minhas roupas pela falta de opção. Abri no ano passado uma marca pequena de vestidos baseados em tendências justamente pra suprir esse buraco enorme na moda local. Vendemos pelo orkut e enviamos pra todos os Estados e tá dando certo, ou seja, as pessoas querendo comprar só falta alguém que queira vender essa idéia.

  3. Hannah Sá disse:

    Falou muito bem, Maria. E não só por você.

  4. Daniel Amarhal disse:

    Maria, simplesmente fiquei besta com o texto do Alcino e adorei saber que você aderiu à causa. Esse fim de semana ainda pedi para o Vitor Angelo escrever o por que do mainstream ser tão fechado e esnobe… e sua posição, junto com a do alcino, é das mais corretas.

    Vou ser bem franco:
    _Achava você muito blasè, mas depois de hoje ganhei a semana e aplaudo você com muita satisfação!

  5. Xe disse:

    nos EUA demorou mas os estilistas finalmente acordaram para o fato de que a visibilidade que eles ganham desenhando uma coleção popular mais nem por isso com menos charme ou qualidade inferior, para a Target, por exemplo, acaba ajudando a vender as coleções mais exclusivas. não entendo porque as roupas são tao caras no Brasil onde a mão de obra – e o algodão – são notoriamente baratos. é o mesmo problema com roupas para pessoas acima do peso – dai a importancia de veiculos como a Vogue americana com o Shape Issue – ou moda jovem demais quando quem tem poder aquisitivo não são os adolescente.

  6. Sammya disse:

    huhuhu apoiadissímo ambos.. É uma pena que todas (ou quase todas) inovações, como o fast fashion, demoram pra chegar no brasil.

  7. Marianna Valente disse:

    Adoro a discussão! Vamos parar de nos conformarmos e colocar a moda brasileira para girar! Levar informação para classes que estão permeáveis e super afim de conhecer e consumir uma moda bacana.

  8. Vítor disse:

    Maria, achei muito bacana e consciente o seu post. Não lembro de ter lido nada de um jornalista de moda brasileiro que fosse tão inteligente, sensato, humilde e bem escrito. Parabéns.

    Na minha opinião, a questão não é negar a existência do luxo ou tentar estendê-lo às classes C e D. Qualquer um consegue perceber que o luxo não foi feito para ser acessível e que é um setor que movimenta a economia, gera empregos e tal…

    O problema é quando um estilista brasileiro qualquer começa a vender um vestido de viscolycra a R$500,00. O pior: muito pouco se cria na moda brasileira para justificar o critério subjetivo dos preços que são vistos por aí. Para confirmar isso, basta ver as vitrines de shoppings bem bacanas do Brasil: todos seguem as mesmas tendências… de Paris e Milão!

    Depois, ainda se acham no direito de reclamar de tempos difíceis para a indústria da moda no Brasil. Só rindo mesmo.

    Só acho uma pena que não role um boicote às marcas brasileiras do tipo copy/paste que jogam nas alturas os preços de coisas como sandálias gladiadoras que copiaram da Balenciaga. Cópia por cópia, melhor ficar com uma da Renner, que é muito mais em conta e que é assumidamente “modinha”. Ou, então para quem pode, fica a dica de comprar o original.

    A Renner, aliás, tem melhorado bastante. Ainda tem muita coisa horrorosa, mas já existe uma vontade visível de ser antenada e com o que chamam por de “informação de moda”. Pena que o brasileiro acabe sempre optando pelo que é justo e sexy (aka “vulgar”), mas acho isso pode ir mudando com uma maior democratização da moda.

    Bjs!

  9. Ana disse:

    Maria,eu concordo totalmente com o que você escreveu.
    Eu tenho 14 (pra 15) anos,e quando meus pais não me compram roupas,eu não tenho dinheiro para ficar comprando nas lojas em que gosto e tudo o mais,e eu estou constantemente atras das promoções,garimpando peças na Zara,Renner,na C&A,e até na sul center (uma loja gigante de Curitiba que vende blusas a 5 reais).É claro que eu não tenho roupas só dessas lojas,mas elas quebram o maior galho,e ficam muito boas se você sabe como usá-las.
    Mas se uma pessoa sem informação, vai em qualquer uma dessas lojas,ou até em uma loja muito boa ,tipo a Mob,acaba comprando coisas muito feias.
    Enfim, além de as lojas boas cobrarem preços caros, outro fator é a falta ENORME de informação .

    :)

  10. aline disse:

    concordo em genero, numero e grau. felizmente algumas empresas jah comecam a perceber que moda barata e de qualidade vende. veja o caso da hering: depois de reposicionarem a marca, reduzirem os precos medio em 30% e investirem em produtos com mais informacao de moda, tiveram 46% de crescimento nas vendas.

  11. Giulliana disse:

    Maria, ameeei o texto! E concordo total com vc, a moda deveria ser mais democratica SIM e qm escreve sobre ela tb!

    Bjoos!

  12. Gustavo Ferreira disse:

    Hi!!!
    Maria nunca havia lido e escutado nada de vc, até o dia em que te vi no Scrap MTV, anotei o endereço do blog e corri entrar, confesso que me apaixonei, gosto de moda (apesar de ser leigo na área ainda =/), tenho visitado seu blog diariamente e tem me ajudado muitooo…e até agora esse na minha opinião foi um dos melhores post que li aqui, perfect!!!
    Obrigado
    bjs

  13. natália disse:

    sensacional..
    pena que perdi a revista moda e a matéria completa..

  14. Marti disse:

    E, sinceramente, eu nem acho que os brasileiros se vistam tão mal assim. Fato que tem muita aberração passeando na rua, mas também têm muita coisa bonita e criativa. É só ter um pouco de sensibilidade.

    Genial o Alcino.

  15. Guilherme disse:

    Palmas pros dois (vc e o alcino) por aderir. O passo pode ser pequeno mas tem que ser pra frente!

  16. Malu disse:

    Em uma palavra: irretocável.

  17. fernanda youssef disse:

    OTEMO.

  18. Fátima Lopez disse:

    Arrasou!
    Levanto a bandeira com Alcino e vc…

  19. Eudes disse:

    Concordo com tudo que foi dito.
    É fato, o brasileiro se veste muito mal, mesmo.
    Mas vejo tudo isso como falta de opções para a “massa”. Um exemplo que percebo é a cidade onde meus pais moram, Rio Claro/SP, é ridícula a *inexistência* de coisa bacana para vestir.
    Todo mundo se veste muito mal, mas se tivesse alcance a coisa bacana talvez uma porcentagem maior acertaria nas escolhas.
    E assim vai, por todo Brasil.
    Tudo o que é popular é muito fraco.
    É isso.
    Parabens, seu blog é ótimo e sempre passo por aqui.
    Abs

  20. Vanessa Khouri disse:

    Achei a materia sensacional! Percebo que no Brasil as pessoas estudam moda e nao sabem nem pra quem vao vender o que futuramente criarao. Comecam fazendo um curso de moda porque esta na moda e ai abrem um atelie pra vender coisas pras amigas. Eu fiz administracao primeiro porque todo mundo do mundinho acredita que administracao seja o caminho da felicidade, mesmo que vc deteste financas e seja a unica da sua classe a estudar fotografia nos intervalos, sem contar com o traje, saia longa e rasteiras, como eu. Tentei fugir desse mercado de qualquer maneira pra exatamente nao ter esse trabalhao de pensar em todas esses detalhes em que a moda se encaixa. Digo que nao escolhi trabalhar com moda, mas como um “carma” fui fisgada desde a infancia por ela. Hj penso dia sim, dia nao, no que de fato funciona no Brasil. Um dia desses fui ao meu Banco e vi uma mulher bem humilde com uma sacola de tecido, no ombro, da Cris Barros. Fiquei pensando naquilo em como nao se encaixava naquela mulher. Nao porque ela nao pudesse ter um sacola da Cris Barros no ombro,mas porque de fato aquilo nao fazia parte do mundo dela. Nao que ela nao pudesse usar aquela sacola com o nome de uma estilista “conceituada”, mas porque ela provavelmente ganhou de alguem que por algum motivo nao quis mais (provavelmente deve ter umas mil daquelas) e a coitada sem saber nem quem e a estilista sai por ai com uma sacola no ombro, com uma sandalinha horrorosa no pe, o cabelo meio baguncado e um vestidinho largo, velho (ja que a pessoa que fez pensou que esse “tipo de gente” nao precisa de coisas bonitas). Em suma, no Brasil, principalmente no mercado que trabalho que e de calcados e que 90% sao homens, as pessoas nao se preocupam com esse mundao ai fora que e tao grande e tao necessitado de coisas bonitas. Parece que a informacao antes de tudo nao chega ate eles, nao existem cursos bacanas e baratos, nao existem revistas bacanas acessiveis a eles, nao existe incentivo e acesso a blogs como esse, porque raros tem computador. O mundao esta desesperado por informacao antes de tudo… O segundo passo cabe aos estilistas como eu abrirem os olhos para o tamanho do mundo que existe ai fora.

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