MUNDINHO? EU VIVO É NUM MUNDÃO!
“Abaixem os preços, democratizem a cultura de moda e parem, então, de reclamar que os brasileiros se vestem tão mal!”
A frase acima é o último parágrafo da carta do editor de moda da Folha de São Paulo e querido de plantão, Alcino Leite Neto, na última revista Moda, publicação feita pelo jornal e que todos devem conhecer. No restante do texto, Alcino faz uma comparação da moda apresentada nas passarelas brasileiras e o que se vê no desfiles internacionais com seus respectivos mercados (nacional e gringo). Explica que, claro, a moda internacional produz para o mercado de luxo do mundo todo e que os estilistas brasileiros têm que se contentar com o mercado interno (”minúsculo para a moda sofisticada, ainda que gigantesco para as roupas populares”). E que “enquanto criarem roupas apenas para o restrito mercado de luxo brasileiro, as grifes permanecerão simples ateliês de costura”. E propõe: “o maior potencial criativo e econômico da moda brasileira talvez não esteja na imitação do luxo, mas na produção de um design democrático, que combine criatividade com bons preços”.
Me deliciei lendo cada frase do editorial do Alcino. OK, a coisa também não é tão simples assim. Começar é difícil, produzir em pequena escala custa muito caro (daí os preços altos das roupas nas araras) e o Brasil não é, mesmo, o País mais prático quando o assunto é abrir um negócio. A questão é que eu realmente não acho que nossos estilistas estejam interessados em abrir o leque. Querem, com raras exceções, desenhar para o tão famoso… MUNDINHO. Qualquer pessoa mais familiarizada com o universo da moda conhece essa expressão. “Mundinho” é o jeito com o qual quem é de moda chama este míni-gigante universo em que vive. E não tem expressão melhor (e mais triste, na minha opinião) que essa para descrever esse… small world. Primeiro, porque ele é mesmo mínimo (cabe em uma sala de desfile. Melhor: na sala de desfiles do MAM, que é a menor de todas no SPFW). Depois, porque é, definitivamente, o universo da exclusão. Você é feio? Ou gordo? Não tem convite para o desfile? Nem nome na lista da festa? Não tá com pulseirinha? Ainda não decorou as gírias da vez? Desculpe, pode aguardar ali ao lado, por favor? Próximo!!
A frase final do texto do Alcino poderia não falar de dinheiro, que ainda faria sentido: “democratizem a cultura de moda e parem, então, de reclamar que os brasileiros se vestem tão mal” dá o recado que eu quero dar aqui. O Brasil é gigante. E recheado de gente querendo informação, sedentos por saber (e lançar) a próxima tendência. É, aliás, um dos países que mais lançam tendências locais. As moon boots, as calças bailarinas, o shortinho do Tchan, as calças Gang e mais centenas, milhares de manias criadas por novelas e seguidas por milhões (M-I-L-H-Õ-E-S) de pessoas. Acha tudo horroroso, cafona? Pode ser. Mas é reflexo da quantidade ínfima de informação de moda bacana que chega até o povo. Se a informação (e os produtos. E os preços) chegassem longe, talvez a cena fosse outra. A Inglaterra já entendeu que as classes mais baixas querem moda (o fenômeno do fast-fashion de gigantes como Top Shop e H&M é enorme por lá). Os EUA estão entrando na onda (a GAP deixou de ser básica e tem muito mais tendências em suas prateleiras e este ano o país recebe a primeira Top Shop) e o Japão, nem se fala (a Uniqlo, por exemplo, seu maior fenômeno de fast fashion, está dominando o mundo). Produto com design e qualidade, a preços mais baixos, para as classes que mais crescem no Brasil (hello
classe C com dinheiro no bolso, pronta para consumir!!), ninguém conseguiu fazer até agora. Nossas redes populares estão tentando (C&A lançou minicoleções de estilistas, Renner está cada vez mais tchap tchuras), mas, convenhamos, ainda estão longe de acertar.
Conclusão do meu desabafo: abram o leque. E não estou falando só para os estilistas, não. Estou falando para o “mundinho” todo. Imprensa inclusive (principalmente, talvez). Deixem de olhar para o mundINHO e comecem a perceber o mundÃO.
E parem, então, de reclamar que os brasileiros se vestem tão mal!

to amando este debate que o Alcino lançou. Os preços das roupas estão no sense total.
Adorei o texto! Escrevi um mais ou menos no mesmo sentido no fim da semana passada!
Também acho que falta abrir o leque, mas que isso é algo que nossos estilistas não estão muito dispostos a fazer…
Beijos!
Exatamente, Maria.
O problema é da Imprensa inteira. Em todos os assuntos. E as pessoas compram tudo da forma que é vendida, no caso, esta “forma de se pensar”.
Ah, deixei notinha pra você no Mona Lisa Station.
Beijo de 2a feira!
Concordo plenamente com você Maria, acho que a imprensa tem um poder tão grande nas mãos( hora bom, hora ruim) que poderia alavancar a moda literalmente e não ficarem tão limitados apenas ao mundinho . As pessoas curtem moda e tendencias todos querem estar por dentro, não vemos?? todas as revista hoje tem pelo menos uma pagina falando de moda de alguma maneira, as pessoas consomem moda só precisam de oportunidade de acesso.
Absss
Esse é um dos melhores textos sobre moda q eu ja li! A-M-E-I!!!
Maria,na sua opinião,qual das lojas populares do Brasil está mais perto de alcançar uma linha parecida com a da Gap ou da H&M? Marisa? Renner?
quase tive uma síncope quando li o texto do Alcino, escrevi pra ele imediatamente. é tão engenhoso e inteligente
e seu texto prossegue a discussão de maneira excelente
o lance do mundinho realmente é insuportável
vamos para o mundão
adoraria comprar coisa boa e barata na C&A
juuuura que se precisa ter dinheiro para se vestir bem, conheço muita gente que cara peças MARAVILHOSAS na cea e até na Marisa, tem que ter bom gosto, informação e paciencia pra achar algo bom. Agora que tem um problema TEM, TAMANHOS, sou magro e alto e não encontro nada do meu tamanho, e viver de dior homme não rola né HAHA
Nossa que post maravilhoso ! Concordo 100%. Ate coincidencia, pois tinha acabado de falar da Uniqlo e seus precos baixos, mas com produtos otimo ! Bacana Maria !
um beijo
Mariah! É isso aí. Por isso que eu gosto do Alcino. Inteligente e contudente. Concordo contigo, nunca prestei atenção no mundinho (e olha que neste quase meio século de vida já tentaram me enfiar em vários deles). Aliás, nunca usei esse termo. E lembrei que a gente já praticamente amanheceu dentro da Top Shop. Porque nóis é Tabajara. HAHAHAHAHAHAHA. Bjs
Maria Prata, seu texto está excelente, asssim como a sua fonte ( o jornalista do jornal Folha de SP). Mas tenho que acrescentar algo que me pertubou nestes últimos dias: vc cita a minha meio” H&M” tupiniquim C&A como representante da fast fahion mundial aqui no Brasil, mas acho que eles estão mudando o foco… pouco a pouco querem colocar as melhores peças (por enquanto estão fazendo isso com os acessórios) para uma classe mais favorecida. Acredita que encontrei várias bolsas liiiiiiiiiiiiiindas de r$ 295.90???? Quase trezentinhos!!! E na C&A!!! Prefiro mil vezes gastar esse valor em uma marca de porte , nem que ela custe um pouco a mais.
Hum! Adorei o texto do Alcino quando li, e adorei também essa sua mega-resposta.
É óbvio que as grifes têm de investir num nicho, que é vender o luxo, como a Osklen, por exemplo, faz bem. Mas não se pode esquecer que existe o resto do país querendo vestir.
Se houvesse mesmo um interesse global, não apenas de estilistas, mas também de outras setores (maiores) quem sabe a gente nunca mais ouviria alguém dizer que as roupas de desfile são “coisas ridículas, que ninguém teria coragem de usar”, e os envolvidos com a produção de moda deixariam de ser “viados e peruas fúteis que em nada contribuem para o mundo”.
Espero que o texto do Alcino gere resposta igualmente produtivas e quem sabe os temas dos próximos Pense Moda, e Fashion Marketing e das semanas de moda não seja algo ligado à isso, né?
Super parabéns, Maria!
AAAAAAAAADOREI!
queria poder ler a matéria do Alcino, porque como mera jornalista que gosta de moda e consumidora dura, acho que um dos principais motivos para a moda engatinha é a insistência em não democratizá-la.
A começar pela imprensa que, mesmo nos veículos voltados para o público leigo, colocar editoriais muito conceituais, com peças a preços exorbitantes e informação de moda muito profi para um público que não conhece nomeclatura e etc.
E o público está muuuito interessado! Trabalho numa empresa que faz os sites do grupo Brascan e nos sites dos shoppings, como o Rio Sul, depois que colocamos matérias de moda, a visitação aumentou muito! É uma das páginas mais acessadas do site, que antes era usado para conferirem a progra. dos cinemas e telefones de lojas.
Mudando de assunto, Maria, como você estudou na London College, vc sabe se a PG in Fashion e Lifestyle Journalism de lá é boa?
bjs e parabéns pelo blog
Tem toda razão. Os consumidores de novos estilistas são uns apostadores, para ter uma peça que acha legal tem que desembolsar uma %!@$&@#grana que poderia ser investida em uma marca já reconhecida ou estabilizada, com a qualidade garantida.
Também tem uma moda brasileira viajando com preços comparáveis a coleções de grifes de ALTO LUXO internacional. Infelizmente ou felizmente o brasileiro ainda não faz caridade e entre escolher um produto Dior ou Armani e uma marca brazuca wannabe , vai preferir a internacional.
Todos estavamos precisando desse desabafo.
a classe c foi definitivamente esquecida.
sair pra comprar roupa ultimamente é 8 ou 80.
ou algo barato que deixa muito a desejar, ou então bem caro e bem feito que vc deseja mas não pode ter.
Salve Salve!!!
acho que o mundinho tá se tornando cada vez menor… Tô certa??
amei o Post!!!
Concordo completamente, mas para isso, precisam haver investidores capazes de suprir essa demanda. Qualidade + preços bons + estilo sem verba inicial necessária não tem como existir, os estilistas nunca vão conseguir colaborar se não tiverem a ajuda dos ‘grandes nomes’ ( diga-se de passagem, sabemos quem são) ! Alô, investidores!!! Cadê vocês?? Olha a fatia no mercado querendo ser abocanhada, o primeiro leva o prêmio de ouro!!!!
Maria! Ai…que delícia de ler…é lendo e a cabeça fervilhando de indagações e comparações…enfim…
Acho que devemos abrir o leque também para a moda que surge em diversas regiões no nosso Brasil, pois quase sempre a mídia e os profissionais de moda em geral ficam no “mundinho” de alguns polos e não percebem e nem procuram conhecer os talentos e movimentos de moda que surgem dentro do próprio Brasil…vamos abrir o leque para a nossa moda e parar de valorizar só o que é de fora, caro e “exclusivo”. Parar com esse mundinho egoísta e superficial, mundinho de exclusão “Moda é para todos”
eu voto no prataporter pra melhor blog brasileiro de moda. sen-sa-ci-o-nal.
Amei o texto!!
sensacional!concordo com td td td que vc escreveu!
e acrescento:acho ótimo que a c&a e a renner estejam tentando..mas como citaram num comentario aqui em cima,uma bolsa na c&a por quase 300 reias não tem quem compre!…as duas (renner e c&a) quando fazem coisas mais legais,vendem a preços mt mais altos!deviam se mirar no exemplo de h&m e etc..q vendem cavalli,lagerfeld,..por preços realmente acessiveis..
bjbj
Pois é, o Alcino, de fato é algo essencial na nossa vida
… acredito que isso que ele falou, é um pensamento que nos acompanha ak no Brasil, principalmente pq a internet proporcionou um volume considerável de informações rápidas e sabemos como é possível se vestir bem e barato na EU, US e JP… entretanto, para a moda brasileira se transformar em democrática e acessível, é mais complexo, pois seria uma mudança no pensamento da sociedade brasileira, excludente, elitista e colonizada… e isso, nós sabemos que não é fácil, pois somos um país antigo, com uma sociedade recente. Por isso, a Renner, a loja de departamento mais bacana no Brasil é de um grupo americano e, não, brasileiro… acho isso sintomático e triste… mas acredito que a função de vcs, através dos jornalistas é ver e questionar para que nós possamos deixar de sermos tão vítimas de nossa história e começarmos a ser transformadores dela. Pois umas das coisas graves da nossa sociedade e, vamos parar de dizer, que a elite é diferente, pois cada vez menos é (se alguma vez já foi diferente) não ter auto-crítica e viver de eufemismos para amenizar a realidade… temos de alterar isso, absorvermos um pouco da cultura anglo-saxã e sermos mais crus, mais diretos, para podermos superar tanto estigmas e a moda faz parte disso, pode ser vítima ou precursora… acho que é um pouco disso.. perdoem-me pela prolixidade… mas acho que esse é caminho, provocar inquietação para mudar meishmo!! =))