
Ana Maria Machado (Foto: AE)
Em meio às denúncias de corrupção nos ministérios dos Transportes e da Agricultura, a Academia Brasileira de Letras promove, no próximo dia 9, um debate sobre ética na política.
O ministro das Relações Exteriores do governo Fernando Henrique Cardoso, Celso Lafer, será o palestrante principal do evento que faz parte do ciclo de conferências Ética e Cidadania em Tempos de Transição.
Coordenadora do projeto, a escritora Ana Maria Machado afirma que o objetivo do evento é provocar do reflexão. “A maioria desses políticos corruptos foi eleita por maioria dos votos. Representam os eleitores que sistematicamente têm votado neles e nos seus partidos. Então os eleitores e o sistema também têm algo a ver com isso. Ou não?”, questiona nesta entrevista ao Poder Online.
Poder Online – Quais as consequências para a sociedade quando a falta de ética de alguns políticos torna-se desculpa ou justificativa para atos de corrupção?
Ana Maria Machado – É exatamente isso que o ciclo Ética e Cidadania em Tempos de Transição está tentando examinar e analisar, com diferentes enfoques – como o do historiador Boris Fausto, o da sociólogo e escritora Rosiska Darcy de Oliveira, o do professor de filosofia do direito Celso Lafer, o do antropólogo Roberto DaMatta. Mas essa análise não pode ficar apenas na superficialidade de carimbar rótulos nos outros. Afinal, a maioria desses políticos corruptos foi eleita por maioria dos votos. Representam os eleitores que sistematicamente têm votado neles e nos seus partidos. Muitos deles são reeleitos, mesmo depois de já terem sido expostos como corruptos e condenados nas primeiras instâncias. Então os eleitores e o sistema também têm algo a ver com isso. Ou não?
Poder Online – Ética e política são incompatíveis?
Ana Maria Machado – Claro que não. A ética é compatível com todas as atividades humanas, em todos os seus aspectos é a marca da civilização. Por isso deve ser sempre reforçada e aprimorada.
Poder Online – A sociedade, no dia a dia, em pequenos atos demonstra uma tendência a abandonar o comportamento ético?
Ana Maria Machado – Não sei se é o caso de generalizarmos assim, com essas afirmações vagas e no ar. Mas, sem dúvida, a impunidade alimenta essa tendência. E a superficialidade característica de tempos em que se evita pensar a fundo também contribui para isso. Fica mais fácil jogar a culpa no outro do que parar para examinar o que realmente ocorre.
Poder Online – É possível resgatar valores éticos na sociedade competitiva do século 21?
Ana Maria Machado – Sem dúvida. Achar que não é possível é, justamente, fazer o jogo da antiética.
Poder Online – Quais ações podem sair do ciclo de conferências da Academia Brasileira de Letras?
Ana Maria Machado – O objetivo do ciclo não é provocar ações diretamente, mas suscitar reflexões. Essas reflexões é que irão apontar a cada um o que deve fazer. Achei que podíamos examinar a ética, como um aspecto da filosofia. E lançar um olhar sobre o momento contemporâneo, os tempos que estamos vivendo, que são considerados de transição para alguns novos modelos de comportamento, ligados às novas tecnologias.