
Anthony Garotinho (Foto: Gustavo Lima/Agência Câmara)
Eleito deputado federal pelo PR do Rio de Janeiro, o polêmico ex-governador Anthony Garotinho chegou à Câmara sem muita disposição para a atividade legislativa. Afirmou até, numa mesa do Cafezinho, que considerava o ambiente ali “muito maçante”.
Mas Garotinho encontrou folêgo novo com a tramitação do projeto de redistribuição dos royalties do petróleo entre todos os estados do país, que foi aprovado pelo Senado e voltou à Câmara para uma decisão final.
O texto, que já tinha obtido 400 votos em sua primeira votação entre os deputados, antes de passar pelo Senado, pode colocar por terra a economia do Rio, segundo o atual governador, Sérgio Cabral (PMDB).
E também a economia do município onde Garotinho iniciou sua carreira política: Campos, no norte do Estado, cuja atual prefeita é sua mulher, Rosinha Mateus.
O projeto voltou à Câmara em condições de ser aprovado ainda em 2011, com força para passar como um trator sobre os 46 deputados do Rio de Janeiro e os dez do Espírito Santo que se opunham publicamente. Numa reunião do grupo, Garotinho pediu para falar e definiu como primeira estratégia adiar a votação para 2012.
Pelo menos essa estratégia deu certo.
Poder Online foi ouvir o deputado para saber qual a vantagem do adiamento e o papel do governo federal nisso.
Conhecido por sua rebeldia, Garotinho acabou tecendo loas à presidenta Dilma Rousseff (PT), aos senadores fluminenses Lindbergh Farias (PT), Francisco Dornelles (PP) e Marcelo Crivella (PRB), assim como à toda bancada de deputados. Só não poupou de críticas a Sérgio Cabral.
Poder Online – Por que o adiamento era tão importante?
Anthony Garotinho – Porque, tal como vinha do Senado, a nova lei passaria a vigorar este ano e o Rio de Janeiro perderia imediatamente R$ 4 bilhões. Somente o município de Campos perderia R$ 500 milhões.
Poder Online – Então foi este o motivo principal para lutar pelo adiamento.
Anthony Garotinho – Não. O motivo principal foi ganharmos tempo para demonstrar que o projeto foi aprovado no Senado tomando como base números absolutamente falsos. O relator, senador Vital do Rego (PMDB-PB) apresentou uma receita de US$ 79 bilhões com o pré-sal entre 2012 e 2020. Perguntei-lhe de onde ele tirou esses números e ele acabou dizendo que viu na internet. Insisti: “Onde na internet?” E nem isto ele soube responder. Segundo a Petrobrás, a receita neste período não parassará de R$ 54 bilhões. A Agência Nacional do Petróleo calcula R$ 50 bilhões.
Poder Online – Teve também uma discussão de números quanto ao Fundo R$ 8 bilhões, criado pelo relator no Senado para serem distribuídos entre os estados não-produtores…
Anthony Garotinho – Exato. Perguntamos por que R$ 8 bilhões e não R$ 10 bi, ou R$ 20 bi? Sabe o que ele respondeu? Que o sequestrador é quem estabelece o valor do resgate. O Vital do Rego acabou caindo em descrédito.
Poder Online – E qual foi o papel da presidenta Dilma Rousseff neste adiamento?
Anthony Garotinho – Ela foi muito correta conosco. A partir do momento em que se convenceu de que os números do Vital do Rego eram chutados, ela determinou que o governo pisasse no freio. Sentimos uma mudança de comportamento, menos pressa, maior prudência. Afinal, ficou comprovado que a coisa fora feita de afogadilho no Senado.
Poder Online – E por que os senadores tiveram tanta pressa?
Anthony Garotinho – Foi pressão do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Seus estados, o Amapá e o Maranhão, estão entre os que mais ganhariam com o modelo do Vital do Rego. Os senadores do Rio — O Lindbergh, o Dornelles e o Crivella –, todos eles lutaram muito, mas não conseguiram impedir a tratorada comandada pelo Sarney.
Poder Online – Na Câmara, as bancadas do Rio e do Espírito Santo parecem estar conseguindo mais desta vez do que na primeira tramitação, quando o governador Sérgio Cabral partiu para o enfrentamento.
Anthony Garotinho – O Cabral de fato errou a mão na primeira tramitação na Câmara. Agora tentou ajudar, fez aquele ato público no Rio que teve seu valor. Mas errou de novo quando tentou estabelecer como estratégia o movimento “Veta, Dilma!”. Ao mesmo tempo que ele jogava a toalha, erradamente, achando que o projeto seria aprovado este ano, ainda criava um constrangimento para a presidenta da República, jogando em seu colo uma decisão contra os demais estados.
Poder Online – E agora, como será?
Anthony Garotinho – Agora vamos para uma estratégia que não exponha a presidenta. Vamos buscar os números corretos. E deixar claro que não somos contrários à divisão do pré-sal. Mas que esta divisão não pode se dar sobre os contratos já licitados. Tem que ser dividido aquilo que vier a ser licitado, lá na frente. É isso o que determina a constituição: o cumprimento dos contratos já firmados.