O deputado federal Carlos Sampaio (PSDB-SP) vai propor na próxima terça-feira oito mudanças no projeto de lei 7663/2010 que altera o Sistema Nacional de Políticas sobre Drogas. A previsão é de que o texto seja votado na quarta (17).
Entre as mudanças, o projeto –que causou polemica entre políticos e instituições que cuidam de dependentes químicos- cria um cadastro de usuários de drogas e institui a internação involuntária do viciado. O projeto é de autoria de Osmar Terra (PMDB-RS) e Givaldo Carimbão (PSB-AL) é o relator.
Sampaio disse ao Poder Online que recebeu um telefonema do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) há dez dias, pedindo para que ele se debruçasse sobre o texto. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), é a favor do projeto.
Deputados do PT também estão elaborando uma proposta com alternativas.
Qual a sua opinião sobre o texto atual?
Ele é meritório, tem avanços importantes, foi fruto de um estudo aprofundado sobre o caso. Só que tem alguns pontos em que o projeto peca por falta de lógica. Vamos apresentar o substitutivo para aprimorar e evitar algumas coisas que possam retroceder em vez de avançar. É para melhorar, não ignorar o que foi feito, valorizando projeto e propondo mudanças. E vamos apresentar substitutivo para já ser votado como o projeto de lei em vez de apresentar emendas depois.
O que não tem lógica no projeto? Quais são as falhas?
Dos 30 artigos, vamos pedir para mudar oito. A principal é sobre o regime de internação involuntária, que como está é privação de liberdade. O texto atual diz que familiares ou qualquer servidor público pode pedir a internação por até 180 dias. Não tem lógica um servidor público comum pedir internação de dependente químico. Vamos propor que haja uma medida cautelar de tratamento e após 72 horas de internação, o dependente é avaliado por uma equipe técnica que informa o Ministério Público e eles decidem se serão necessários mais dez dias de tratamento ou se ele poderá ser liberado. Se nesses 15 dias o caso continuar grave, aí sim entra o juiz e o advogado da família para pedir a conversão do tratamento para internação compulsória de até 60 dias. Aí criamos uma lógica de tratamento, separando os 15 primeiros dias da desintoxicação das outras etapas de tratamento. E não estou dizendo que em 60 dias o dependente estará curado, mas ele já vai ter discernimento para decidir sobre seu tratamento.
Outro ponto é a cota prevista para universidades e empresas, 10% para dependentes químicos nas faculdades e 5% nas empresas privadas para acolherem como aprendiz. Isso é um retrocesso, um estímulo. Suprimos essas obrigações de cota. O dependente tem uma série de nuances, de cuidados que precisa ter, as cotas parecem recompensas por ser drogado.
E sobre a pena e diferenciação de usuário e traficantes?
Para majorar a pena é preciso ter lógica e o texto como está não tem. Eles aumentaram a pena mínima para o trafico para oito anos sendo que a de homicídio é de seis anos, não faz sentido. Suprimi todas as majorações de pena, só mantivemos a majoração quando se refere a multas porque aí tem lógica, está mexendo com traficante, financiamento de crime. Na segunda-feira (16) à tarde vamos conversar com a equipe técnica para discutir as circunstancias para nortear o usuário. Ainda não terminamos o texto dos substitutivos. Mas o usuário tem que ser identificado pela circunstancia em que ele é pego e pela quantidade, esses critérios precisam ser mantidos, nem sempre uma pessoa com uma quantidade razoável de maconha, por exemplo, é traficante.
Houve consulta a especialistas para preparar os substitutivos?
Sim, a bancada do PSDB montou uma equipe técnica e consultamos especialistas e ONGs.
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso intercedeu sobre esse projeto de lei?
Eu recebi a ligação do Fernando Henrique há dez dias. Ele não deu dicas sobre mudanças, ele foi muito correto. Disse apenas que na visão dele o projeto como está significa um retrocesso e não vai no caminho da modernidade. Ele me pediu que, como líder da bancada, eu me debruçasse sobre o texto e analisasse com carinho.