
Chico Alencar (Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr)
Em meio à primeira crise do governo Dilma Rousseff, o deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ) afirma que o ex-governador José Serra (PSDB-SP) e o senador Aécio Neves (PSDB-MG) “foram cúmplices de Palocci”, ao colocarem “panos quentes” nas acusações sobre o enriquecimento rápido do ex-ministro.
Segundo o deputado, que deixou o PT em 2005, Serra e Aécio fazem parte da oposição que “talvez não queira mesmo uma República onde a fronteira ética seja inteiramente definida”.
“A postura do Aécio e do Serra, como líderes maiores do PSDB e como potenciais candidatos à Presidência da República, foi lamentável”, diz o ex-petista e agora parte da oposição contra o governo Dilma.
Chico diz, no entanto, que o PSOL não vai deixar de cobrar explicações sobre as atividades de Palocci. “Para nós, o problema central é conseguir romper essa promiscuidade entre negócios privados e interesse público”.
No início da crise envolvendo o ex-ministro, o partido apresentou uma emenda constitucional que proíbe a quem exerce mandato desenvolver qualquer atividade privada que tenha interface com o poder público. “Até agora”, lamenta, “só conseguimos meia centena de apoio a essa emenda. Precisamos três vezes isso para fazer com que ela tramite.”
Poder Online – Como o senhor analisa a atuação oposição durante a crise Palocci?
Chico Alencar – Temos que considerar que a oposição hoje no Brasil é muito reduzida porque se formou um grande centrão de apoio ao governo, que vai de petistas históricos a Paulo Maluf, Romero Jucá, Renan Calheiros e José Sarney, que historicamente foram muito combatidos pelo PT. E há também uma parcela dessa oposição que já foi governo e que condena, no governo do PT, práticas que ela mesma desenvolveu. Por tudo isso tem um elemento de pouco autenticidade na crítica da oposição. Ainda assim, com todo esse conforto de base de sustentação, se errou além da conta. E isso se deve um pouco ao estilo ainda misterioso, enigmático e desconhecido da presidente Dilma, que nunca teve projeção no cenário da disputa política. Sempre foi uma gestora, de perfil técnico. Sem nenhum desenvolvimento no campo político. E isso tem suas consequências e gera muitas dificuldades.
Poder Online – Mas o senhor acredita que a oposição foi a responsável pela saída de Palocci do governo?
Chico Alencar - Apesar de Aécio e Serra terem querido, desde sempre, colocar panos quentes, talvez por alguém próximos deles ou eles próprios desenvolverem as mesmas práticas, de consultoria milionárias e suspeitas, o PSDB, o DEM, o PPS e nós do PSOL – com as nossas diferenças, que não são poucos – fizemos o que tínhamos obrigação de fazer. A postura do Aécio e do Serra, como líderes maiores do PSDB, de uma parte da oposição – que eu chamo de conservadora -, e como potenciais candidatos à Presidência da República, foi lamentável. Eles, na prática, coonestaram o neopatrimonialismo que o Palocci pratica. Foi uma postura inaceitável para quem quer ética na política, transparência total. O Aécio e o Serra ficaram aquém de seu próprio partido e numa postura muito estranha que tem que ser questionada. De alguma maneira, eles foram cúmplices da prática que o Palocci desenvolveu.
Poder Online – A oposição manterá a posição investigar o ex-ministro? E como atuará o PSOL?
Chico Alencar – Evidente que sim porque as suspeitas sobre crimes que ele tenha cometido não pararam. Não é porque ele deixou o cargo de ministro que vamos esquecer isso, que vamos deixar isso pra lá. Senão pareceria, inclusive, que era apenas uma disputa de poder. Para nós do PSOL, o problema central é romper essa promiscuidade entre negócios privados e interesse público. E no início da crise Palocci, apresentamos uma emenda constitucional que veda a quem exerce mandato desenvolver qualquer atividade privada que tenha interface com o poder público. Até agora, só conseguimos meia centena de apoio a essa emenda. Precisamos três vezes isso para fazer com que ela tramite. Mas isso mostra que uma parte da oposição talvez não queira mesmo uma República onde a fronteira ética seja inteiramente definida.