Marina Silva: “Dilma sempre questionou o alto custo da energia nuclear”
Em suas conversas com a presidenta Dilma Rousseff sobre energia nuclear, a ex-senadora Maria Silva (PV) lembra que o argumento da então ministra de Minas e Energia para combater o investimento do Brasil em energia nuclear era o desperdício de recursos comparado a outras fontes alternativas. “Dilma sempre questionou o alto custo da energia nuclear”, afirma Marina, nesta entrevista, concedida na sede do Instituto Democracia e Sustentabilidade, ao Poder Online – a primeira depois do desastre do Japão que, para ela, deixa uma grande lição para a Humanidade e coloca em xeque o programa brasileiro. “É como se, no meio de todos os soldados, só nós é que estamos marchando certo”, questiona. Leia os principais trechos e assista ao vídeo.
Poder Online – O que o desastre no Japão deixa de lição para o Brasil na questão da energia nuclear?
Marina Silva – O que esse acidente terrível deixa para o Brasil e para a Humanidade é a lição de nos reconectarmos com o princípio da realidade. A nossa tecnologia e o nosso conhecimento são muito importantes e necessários para vários avanços na melhoria da qualidade de vida, mas, por outro lado, ela gera também um efeito de nos sentirmos quase que onipotentes, de decretarmos que as coisas estão seguras e de que estamos no controle. E aí vem um acidente com essa magnitude para nos mostrar que não é seguro, que não estamos no controle e que temos que ter um pouco mais de humildade frente a fenômenos que nós não conhecemos e que não controlamos. A grande lição é de nos reconectarmos com a nossa impotência para podermos ficar no lugar da potência, e não da onipotência.
Poder Online – Como muitos países, o Brasil também deveria rever seu programa?
Marina Silva - É como se, no meio de todos os soldados, só nós é que estamos marchando certo. É o que eu sempre digo: sábios são os que aprendem com os erros dos outros. Agora, estúpidos são os que não aprendem nem com os seus próprios erros. E neste momento não há erros dos outros. É o erro da humanidade. E a reação dos outros países é se colocando no lugar do Japão. Não é olhando para Japão, é olhando para si mesmo. E o único que não consegue olhar para si mesmo neste momento é o Brasil. A humanidade está em xeque. Fomos colocados em xeque por ousarmos achar que estamos no controle. Aquele navio no meio da pista, aquele caldo de carros, de lanchas, de navios, depois de uma onda gigante, que transformou tudo aquilo num pão de ló, que parecia uma sopa, que parecia lego. Aquilo é para nos conectar com a nossa impotência. Estamos vivendo um período nonsense. Temos que reconectar de novo.
Poder Online – Houve uma certa arrogância em relação à questão nuclear?
Marina Silva – Da Humanidade. Eu não digo que foi só por parte dos japoneses porque o paradoxo é porque o Japão é a segunda economia mais desenvolvida do mundo, todos tomavam o Japão e as usinas nucleares do Japão como um paradigma. Se no Japão acontece algo dessa magnitude, imagine em outras regiões do mundo em que não se tem as mesmas condições, até mesmo de lidar com eventos naturais de proporções da magnitude como aconteceu no Japão. Há uma coisa que temos que reconhecer, para não sermos injustos: em termos de lidar com terremotos, eles têm uma cultura secular, milenar de lidar com isso e com certeza são um exemplo para a Humanidade. Por outro lado, existem acontecimentos que derivam de eventos semelhantes a esses que fazem com que a junção desses eventos naturais de magnitude insondável com o nosso estilo inadequado de viver causa danos muito grandes. É um grande ensinamento.
Poder Online – Por que a senhora defende que o Brasil não precisa de energia nuclear?
Marina Silva - O Brasil não precisa da energia nuclear. Não precisa, não precisa, não precisa. O Brasil tem sol, o Brasil tem vento, o Brasil tem biomassa, o Brasil tem água, o Brasil tem, inclusive, petróleo e gás. Mas, para produzirmos energia, as pessoas estão fazendo um investimento caro para uma energia que não é segura. No meu entendimento, a grande lição é rever o programa nuclear no Brasil. O mundo todo está fazendo isso. Por que não o Brasil? O que nos faz ser diferentes em relação aos outros países nessa discussão é que nós temos alternativas. E uma boa parte não tem as alternativas que nós temos. Em relação a termos a maior área de insolação do planeta, termos um potencial de eletricidade muito grande, o próprio ex-ministro Roberto Rodrigues disse que nós teríamos quatro usinas de Belo Monte só da palha e do bagaço da cana-de-açúcar. Quem tem tudo isso fora o Brasil? Não vejo necessidade de investirmos recursos que não temos para uma energia que é cara e perigosa.
Poder Online – Por que a senhora acha que existem pessoas que defendem tanto a energia nuclear aqui no Brasil?
Marina Silva – É difícil a gente fazer qualquer tipo de especulação. Existem aqueles que querem dominar essa tecnologia. Do ponto de vista da pesquisa científica, não tem problema. Podem continuar pesquisando. Com certeza o Brasil já tem o domínio dessa tecnologia. Mas em relação ao suprimento de energia, nós temos outras fontes mais seguras, mais abundantes e até mais baratas. É uma pergunta bem interessante a que você faz. Por que, em que pesa circunstâncias, se insiste tanto na geração de energia nuclear quando a gente poderia investir em outras fontes?
Poder Online – Como analisa a reação do governo brasileiro nessa questão?
Marina Silva – A reação mais adequada, no meu entendimento, foi a do ministro de Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, que diante daqueles que já ficam muito açodados em querer minimizar o que não se pode minimizar, o que não tem como minimizar, e querer mostrar uma segurança e um controle que o mundo inteiro não tem, que supostamente o Brasil teria, o Aloizio falou que nós temos riscos. Não são os mesmos riscos dos japoneses, mas temos outros riscos, e que temos que ter um olhar cuidadoso para esses riscos. Não sei se isso é a fala do governo, mas é a fala de um membro do governo que agiu, eu acho, que de acordo com a prudência, que todo mundo tem diante de algo tão avassalador como o que está acontecendo no Japão. Mais uma vez eu digo: essa visão de suposto saber, de suposto controle, está querendo enganar a quem? Engane a si mesmo, mas não queiram vir enganar a sociedade e a opinião pública.
Poder Online – Quais são esses riscos que a senhora vê no Brasil?
Marina Silva – Nós temos problemas com deslizamentos, por exemplo, chuvas torrenciais. Quem disse que esses grandes deslizamentos que acontecem em outras regiões não podem acontecer lá [em Angra dos Reis]. Ali é inseguro por natureza. Do ponto de vista geológico, não sabemos. Não sou especialista para dizer quais são todos os riscos, mas com certeza eles existem. Mas o maior risco é que não sabemos o que fazer com esses resíduos. Eles vão ficando como uma herança maldita para as futuras gerações. O que eles vão fazer com esses resíduos radioativos? Isso nós não sabemos. As pessoas apenas vão acumulando, acondicionando. E, às vezes, nem sempre da melhor forma possível. Não é só o processo de geração em si que está acontecendo nas usinas e nos reatores. São também os resíduos que vão ficando como um depósito e uma herança maldita para aqueles que virão.
Poder Online – Qual será a atitude do PV, neste momento, em relação à energia nuclear?
Marina Silva – Acredito que mantém a coerência. Quando eu era ministra do Meio Ambiente, mesmo sendo do PT, votei contra no Conselho de Política Energética. Naquela época, as pessoas acharam que o ministério estava tendo uma posição dissonante do governo e não era admissível ouvir alguns comentários de um ministro que votava contra a posição do governo. Não se tem que votar a favor ou contra a posição do governo, se tem que votar de acordo com aquilo que se acha justo, correto e ético para com a sociedade. E o meu voto e o voto da minha equipe sempre foram considerando o que orientava as ações do Ministério do Meio Ambiente: quando não temos segurança em relação a algo, temos que ser precavidos. E aí entra a ideia do princípio da precaução. Em relação a esses resíduos, é mais do que claro e evidente, e o episódio do Japão nos diz isso, não em palavras, não em papers científicos, diz na tragédia, em três dimensões, que não temos o controle, não temos como dar conta de algo que não temos um antídoto para reverter.
Poder Online – Em 2006, na reeleição do ex-presidente Lula, quando a então ministra Dilma defendeu a energia nuclear a senhora se posicionou logo depois da campanha…
Marina Silva – Em primeiro lugar: eu entrei no governo com uma posição contrária à energia nuclear, mantive a minha posição, em qualquer lugar público, contrária à energia nuclear, mantive minha posição no Senado e na campanha presidencial…
Poder Online – …a pergunta é se na época do governo, a senhora chegou a conversar com a então ministra Dilma Rousseff a respeito dessa questão da energia nuclear?
Marina Silva - Sempre conversei no âmbito dos fóruns adequados, que era o Conselho de Política Energética, do Ministério de Minas e Energia. Nós tínhamos um assento e um voto lá. Fizemos um voto e apresentamos as razões pelas quais votávamos contra e dizíamos que não era necessário o Brasil fazer esse investimento. Se era para o Brasil fazer um investimento mais elevado para geração de energia, que se fizesse isso com a energia solar, por exemplo, já que a energia eólica teve hoje uma redução do custo que está altamente competitiva, menor até do que as termoelétricas.
Poder Online – Como a senhora analisa, dentro desses fóruns e desses debates que aconteceram naquela época, a posição da então ministra Dilma em relação à energia nuclear?
Marina Silva - A ministra Dilma, na época como ministra e hoje a nossa presidente, levantava uma série de questionamentos em relação aos custos da energia nuclear. Ela sempre levantou esses questionamentos para ser honesta com a posição que ela tinha, que era uma atitude bastante reticente em relação a questão dos custos. Setores do governo, a própria EPE [Empresa de Pesquisa Energética], o próprio Mauricio Tolmasquim e setores do Ministério de Ciência e Tecnologia faziam estudos tentando convencer de que os custos não eram tão altos assim. A gente sabe que mesmo esse custo de R$ 220 por megawatt /hora está bem subfaturado. É muito maior do que isso porque tem uma série de subsídios que não aparecem. Mas lembro-me de ela, enquanto ministra de Minas e Energia, fazer críticas em relação à questão dos custos. Mas, num determinado momento, quando isso foi para votação, aí foi aprovado, inclusive com o voto favorável dela.
Poder Online – A senhora já pensou em procurar a presidenta Dilma, conversar com o ministro Aloizio Mercadante? Há alguma interlocução com o governo?
Marina Silva - Mais do que a conversa de uma pessoa com a presidente e com os ministros, o que vai prevalecer é o apelo dessa tragédia do Japão. O que nós precisamos é vocalizar essa tragédia. Não permitir que ela nos paralise e, ao mesmo tempo, não cauterizar a nossa mente, a nossa inteligência política para um episódio dessa magnitude. Ainda mais na realidade de um país como o nosso que, se há investimentos a serem feitos, que sejam para gerar energia limpa e segura. E não para uma energia que é por natureza insegura, como estamos vendo em um dos países mais desenvolvidos do mundo. Mais do que uma pessoa, é a opinião pública nacional e internacional que nesse momento se coloca. E o bom senso dos agentes públicos. É isso que vai falar na consciência de cada um.
(com Thais Arbex)
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124 comentários | Comentar
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124 Aline Nunes 21/03/2011 22:07
Então, sei q as usinas nucleares são uma forma sim de gerar energia e que o risco de acidente hj é pequeno e não gera gases tóxicos, porém elas são caras e o risco de acidentes não é nulo. Hj se tem umas 440 usinas destas em funcionamento no mundo e um único acidente pode atingir grandes proporções, com efeitos ambientais duradouros.
Não são apenas os reatores, mas os resíduos gerados (lixo radioativo) q também se constituem em um problema. Esses rejeitos são compostos de elementos radioativos de meia-vida longa. A grande questão é como dispor e isolar tais rejeitos de maneira segura, a fim de não contaminar os recursos hídricos e a atmosfera. Nenhum país usuário desta energia encontrou uma solução definitiva para este problema que se agrava a cada ano, a medida q novas unidades entram em operação e os rejeitos são acumulados em depósitos provisórios, sem condições adequadas de segurança a longo prazo, inclusive no Brasil.
O país não precisa dela. Temos Sol e vento suficientes para suprir nossas necessidades de energia no futuro. Há ainda a possibilidade de fazer usinas até com bagaço de cana-de-açúcar, sabia?
O próprio Japão pode se reconstruir investindo em energia renovável. Há um estudo elaborado pelo Greenpeace, chamado Revolução Energética, que diz q o Japão pode ter sua matriz energética 60% renovável nos próximos 40 anos. Para isto, bastaria focar seus investimentos em eólica, biomassa, geotérmica e solar.
O Brasil lançou a nova versão do seu relatório Revolução Energética no fim de 2010 com o plano de o país funcionar com uma matriz elétrica 100% limpa. Mas aqui amigo, o q emperra não é a falta de opções energéticas, mas as políticas! Desenvolvimento sustentável não é utopia.
Angra I, II e a futura Angra III, estão bem no meu lindo estado e ver a linda Angra dos Reis isolada seria um terror! E olha, um terror dos menores pq um acidente ali não afetaria apenas este município…. Pensem.
123 Mario 21/03/2011 19:08
A energia nuclear é a maneira mais eficiente de se gerar energia disponível hoje, desde que se destine os resíduos de forma correta, por exemplo, utilizando para aquecimento, desde que bem acondicionados. Porém, o Brasil tem realmente outras alternativas e deve-se colocar na ponta do lápis, com pragmatismo e sem chiliques emotivos. Devemos lembrar que a demanda não para de crescer.
Por exemplo, energia eólica – hoje – é uma falsa “energia verde”, por necessitar de imensas áreas, colocar bilhões de toneladas de CO2 na atmosfera durante sua construção e ainda necessitar de outra fonte como complemento, por depender de ventos constantes (ventos mais fortes ou mais fracos fazem as turbinas perderem muita eficiência). Já a energia solar térmica é mais eficiente e é realmente limpa. Energia solar fotovoltaica ainda é muito cara.
122 césar figueiredo 21/03/2011 18:16
A Marina falou o óbvio : o Brasil e o Mundo não precisam da perigosa energia nuclear ; temos
a energia hidreletrica abundante e o mundo , onde não é possível uma hidreletrica como o Japão ,
deve procurar fontes alternativas : solar , eólica , das marés e a que talvez seja no futuro a mais
viàvel , que é a do hidrogênio tirado das águas , que somam 2/3 do nosso planeta.
121 ALCINDO 21/03/2011 18:05
COMO DIZIA MEU PRIMO MANDUCA “SÓ TEM MONSTRO ESCREVENO AQUI” , NÃO SEI POR QUE A PRESIDENTENÃO REQISITA ESSA GENTE !MAS,,,,, É CLARO QE MARINA TEM RAZÃO , QEM CONHECE AMAZÔNIA SABE QUE NÃO HÁ NECESSIDADE DE USINA NUCLEAR NO BRASIL E NUNCA VAMOS TOMAR ÁGUA DE PRIVADA RECICLADA ! TU PENSA QUE É MENTITA ? NÃO É NÃO . TEM GENTE QUE JÁ TOMOU E ACHOU ÓTIMA ! SABE LÁ O QUE É ISSO .
120 Saulo 21/03/2011 17:03
A Marina foi felicíssima ao tocar no detalhe do armazenamento do resíduo das Usinas Nucleares. Só faltou ela mencionar que: Caso ocorra qualquer problema nas “nossas” usinas em Angra dos reis, existe uma dificuldade monumental em se fazer evacuação das pessoas moradoras daquela região. A BR 101 não comportaria e não daria vazão suficiente para uma remoção rápida e segura. Sem contar que esta vive em obras que nunca acabam e apresentam deslizamentos e quedas de barreiras constantes.
119 Roberto 21/03/2011 16:06
Caro Frederico, creia que o SENHOR DEUS existe e tudo fará diferença em sua vida, caso contrário é fato que sempre estará coxeando entre pensamentos que não levam a nada. O fim e o início de tudo está em DEUS e nenhum cientista que se preze irá provar o contrário. Ah! Caso você não creia, saiba que somente com o coração se sente a presença de DEUS, já que que é com o coração que se sente amor, ódio, tristeza etc. Um forte abraço
118 MALDONADO 21/03/2011 15:53
A OPINIÃO DA MARINA É SENSATA, POIS O HOMEM AINDA NÃO DOMINA POR COMPLETO O CICLO DO ÁTOMO, E POR ENQUANTO SÓ SOMOS APRENDIZ DE FEITICEIRO, E OLHA AI AS ZEBRAS, AMERICANAS, RUSSA E JAPONESA, E A EXPERIENCIA BRASILEIRA, É EIVADA DE CRÍTICAS.
117 Carlos Alberto Lima 21/03/2011 15:35
Vamos viver na base da lamparina,com essas ideias das ongs o Brasil vai parar no tempo e no espaço por falta de energia.
116 Laura Simoes 21/03/2011 14:30
Acho que o Brasil com toda esta reserva natural como o sol não precisamos mesmo de Usina nuclear! Precisamos sim gastar menos nesta tecnologia e gastar mais com educação das crianças e seguranças!
115 Ricardo 21/03/2011 14:26
Marina, admiro muito sua postura e inteligência, vc tinha que estar lado a lado deste governo,seu nome está ligado à esperança de uma vida mais sustentável para nós e principalmente para os nossos filhos e netos.