
Macedo: falta plano estratégico (Foto: Divulgação)
Nos próximos dias, o mineiro Roberto Macedo vai se refugiar em “algum lugar de Minas Gerais” para uma comemoração tripla. Sua mãe completará 99 anos amanhã. No dia 31, será sua vez de comemorar aniversário. O terceiro motivo é o prêmio de Economista do ano da Ordem dos Economistas do Brasil. Seu discurso para o dia da homenagem ainda será redigido, mas alguns pontos, Macedo adianta nesta entrevista ao Poder Econômico. Ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Economia (como se chamava à época, 1991-92), ex-diretor da FEA-USP (1986-1990), Macedo acredita que o Brasil está crescendo pouco por força da conjuntura internacional, porém, o governo jogou também muita sujeira para debaixo do tapete. Ele aponta quais. Um dado positivo do trabalho da equipe econômica é a luta para baixar os juros bancários. ”O governo não pode desistir da guerra contra o spread”, diz.
Poder Econômico - As previsões do mercado dão conta de um crescimento do PIB abaixo de 2% este ano. O Brasil poderia crescer mais ou as condições externas estabeleceram esse patamar global em 2012?
Roberto Macedo – Neste ano o crescimento do PIB já está quase que definido perto dessa taxa pelas más condições externas e pelas dificuldades internas. No conjunto, há dificuldades do lado da demanda (queda da internacional devido à crise, consumidores locais retraídos por excesso de endividamento e inadimplência e empresários inibidos por expectativas desfavoráveis). Do lado da oferta, há as dificuldades enfrentadas pela indústria, a queda da safra agrícola de 2012 pela seca no Rio Grande do Sul, e a produtividade fraca. De ambos os lados, porque afeta tanto a oferta como a demanda, o problema crônico, a baixa taxa de investimentos da economia. Se em 2012 melhorar o quadro, não será grande coisa. Se não piorar ainda mais, já será alguma coisa.
Poder Econômico – Como analisa, depois de alguns meses, a guerra declarada pelo governo ao spread bancário?
Roberto Macedo – Em que pesem minhas divergências em relação a vários aspectos da política econômica, no caso da monetária sou a favor dela no que diz respeito à redução da Selic, à guerra ao spread bancário e à utilização de medidas macroprudenciais. A redução da Selic vem ocorrendo, mas na ponta dos tomadores de crédito os juros não vem caindo de forma significante, exceto em segmentos de baixo risco, como no crédito consignado. Isso indica que
a guerra do spread é muito mais difícil, conforme se esperava. Os bancos não estão a fim de perder rentabilidade e nessa guerra é preciso garantir a segurança deles. Um passo importante seria o governo avançar na parte que lhe
toca do spread, em particular os impostos e os compulsórios. Ele não fica bem na foto só querendo que os bancos reduzam suas margens. Há também a “margem governamental” por reduzir.
Poder Econômico – O que acontecerá se o governo perder essa guerra em termos de gestão do sistema financeiro?
Roberto Macedo – Essa será uma guerra demorada; o governo poderá perder algumas batalhas, mas não pode desistir da guerra, nem de fazer seu próprio esforço para reduzir o spread.
Poder Econômico – Como analisa o cenário externo? Teremos ainda maiores impactos no Brasil?
Roberto Macedo – Tanto ou mais que o tamanho do impacto, é importante a duração desse cenário externo negativo. O centro do furacão continua na Eurozona, onde sempre se avança um pouco, mas tudo com muita lentidão em face da dificuldade de lidar com países que permanecem soberanos em muitas decisões, em particular na aceitação
de pacotes indigestos, como na Grécia, Espanha e outros países, e na indisposição da Alemanha em se comprometer com uma ajuda sua mais abrangente, ou de aceitar que o Banco Central Europeu vá mais no seu socorro a bancos e governos. Essa crise não é tão forte quanto a de 2008-2009, mas tudo indica que terá durabilidade maior, o que pode levar a uma soma de efeitos ao longo do tempo superior à da crise anterior. Meu radar continua sem mostrar um ponto indicativo de término da crise na Eurozona.
Poder Econômico – Como o governo poderia se preparar para obter um crescimento melhor em 2013 e 2014?
Roberto Macedo – O governo precisa definir e executar um plano estratégico onde o papel central esteja na ampliação substancial da taxa de investimentos da economia relativamente ao seu PIB. Dado esse objetivo, deveria identificar todos os obstáculos que se antepõem ao alcance dele, e fazer um enorme esforço de superá-los. É um conjunto que vai desde as dificuldades que impedem o próprio governo de expandir seus investimentos até aquelas que desestimulam o setor privado a fazer o mesmo. Várias delas dependem de soluções governamentais, como nos casos da alta carga tributária, das carências da infraestrutura, da lenta emissão de licenças ambientais, da indisposição governamental quanto à concessão de serviços públicos e por aí afora. E há uma questão de mentalidade: é preciso abrir o país para negócios que geram valor adicionado, começando por não se indispor com ou atrapalhar quem se empenhe em fazê-los.