
Almeida: brasileiro é pouco alavancado (Foto: Divulgação)
Os atuais níveis de inadimplência do consumidor podem até gerar uma desaceleração da economia, mas os riscos de uma crise de crédito estão descartados. É o que garante o economista da Serasa Experian Carlos Henrique de Almeida.
Para ele, há uma tendência de redução dos níveis de inadimplência nos próximos meses, mas alguns consumidores – principalmente das classes D e E – ainda demorarão para se livrar das dívidas.
Em entrevista ao Poder Econômico, ele alerta, por outro lado, que a inadimplência em alta pode acabar com a estratégia do governo de segurar os juros em queda.
Poder Econômico – Qual é a sua expectativa para a inadimplência nos próximos meses?
Carlos Henrique de Almeida - Apesar de toda incerteza na economia, considerando as informações atuais, esperamos uma queda da inadimplência do consumidor, mas uma queda bem gradual. Temos hoje pelo Banco Central a inadimplência do consumidor em 8% em maio. Acreditamos que possa chegar ao fim do ano ao redor 7%. Uma redução bem gradual, de seis meses para descer um ponto percentual.
Poder Econômico – O brasileiro ainda se incomoda por ter o nome sujo?
Carlos Henrique de Almeida - Sim. Mas não é mais como antigamente. Para algumas pessoas, o nome pode ser tratado como um patrimônio. Outras caíram na tentação do crédito e perderam o controle. Sabemos que a principal causa da inadimplência é a falta de controle. Os novatos no crédito é que correm maior risco de inadimplência, principalmente, das classes D e E, porque tem pouca vivencia com crédito. Acabam aprendendo a lidar com o crédito da pior forma possível, que é a inadimplência.
Poder Econômico – Esse aspecto cultural de zelar pelo nome ajuda o Brasil a ter uma inadimplência mais controlada?
Carlos Henrique de Almeida – Isso não é mais tão representativo. É lógico que ainda ocorre. Mas o que hoje evita uma inadimplência maior ainda é a questão do desemprego baixo e da renda do consumidor crescendo.
Poder Econômico – Qual o perfil médio do endividado brasileiro?
Carlos Henrique de Almeida - O endividado brasileiro não é tão alavancado como o norte-americano, canadense e inglês. Dados dos bancos centrais desses países mostram um endividamento bem maior. Mas o comprometimento da renda no Brasil é maior, porque lá eles tem o crédito mais longo e taxa de juros praticamente negativa. Esse processo de redução de juros no Brasil é novo. E, mesmo assim, juros de 2% ao mês, no ano dá uma boa taxa de juros. Não é barato. Ainda não temos um crédito barato na comparação com as principais economias. Nosso endividamento está ao redor de 42% da renda disponível. Há países que isso passa de 100%. Já o comprometimento da renda é de 22%, enquanto a do americano é 16%.
Poder Econômico – Mas é praticamente impossível o Brasil reeditar a crise de crédito dos Estados Unidos, por exemplo…
Carlos Henrique de Almeida - Não tem como acontecer o que aconteceu nos EUA em 2008 e 2009. Nossa relação crédito/PIB agora passou 50%, o nosso crédito imobiliário está ao redor de 5%, e lá só o imobiliário era 80%. Nós nem temos crédito para ter bolha. Não temos uma perspectiva de crise pela inadimplência. Lógico que não é bom ver a inadimplência subir. Manter a taxa de juros baixa com inadimplência em alta fica difícil para as instituições financeiras. Hoje, a inadimplência é 29% do spread. Se ela cresce, fica difícil segurar os juros.