
Beer: GM está fazendo a parte dela (Foto: Divulgação)
Em 1985, quando a fábrica da General Motors em São José dos Campos foi invadida por sindicalistas, André Beer era vice-presidente da montadora norte-americana e presidente da Anfavea. Hoje, à frente de sua consultoria voltada para o mercado automobilístico, ele acredita que a reedição do episódio é improvável, mas não poupa críticas ao Sindicato dos Metalúrgicos:
- Eles ainda estão no século 19 e nós já estamos no século 21.
Em entrevista ao Poder Econômico, André Beer diz que, se estivesse no comando da empresa, estudaria o fim da produção em São José dos Campos. Para ele, a montadora está “fazendo sua parte” e não deverá haver punição por parte do governo, caso a companhia precise demitir funcionários por conta da suspensão de algumas linhas de produção.
Poder Econômico: A General Motors está em crise no Brasil?
André Beer: Eu não acho. A GM tem produção em Gravataí, São Caetano e está programando motores em um futuro próximo em Santa Catarina. A GM Está fazendo a parte dela. Está é uma situação em São José dos Campos, que não é uma situação nova, é bem antiga. Eu mesmo enfrentei problemas com esses moços em 1985. Não há nenhuma novidade. Eles invadiram a fábrica, fizeram nossos gerentes reféns e ficaram um mês perturbando, até que conseguimos a reintegração de posse.
Poder Econômico: O senhor acredita que pode haver uma nova invasão na fábrica, como em 1985?
André Beer: Não seria o caso de repetir agora, porque as condições são totalmente diferentes. Eles não estão lá dentro acampados. Mas vamos ver o que eles vão fazer. Na verdade, eu acho que seria muito bom se eles um dia pudessem ter um diálogo com a empresa, que solucionasse com uma medida boa para ambos os lados. Até hoje isso não foi possível, porque o sindicato lá é bem radical. O sindicato está alinhado com partidos bastante radicais. Na verdade, é uma questão de postura ideológica.
Poder Econômico: Quais são os impasses nas negociações?
André Beer: Eu não posso responder pela empresa, porque não estou mais lá, mas tenho impressão que ela teve muitos problemas para chegar a um acordo. Por exemplo, eles (sindicato) não aceitam banco de horas e nem pontes, quanto tem emenda de feriado. É um processo travado. Esse é o maior problema.
Poder Econômico: Essa situação pode manchar a imagem da GM do Brasil junto à matriz?
André Beer: Não tem nada a ver com Brasil. Esta é uma posição restrita a São José dos Campos. A GM continua mantendo operações lá, como produção de pick-ups, o que inclui uma grande gama de produtos. Tem também a fábrica de motores, que continua por lá.
Poder Econômico: Se o senhor estivesse no comando da empresa atualmente, acabaria com a operação de São José dos Campos?
André Beer: Requer tempo para fazer algo assim, tempo e investimentos. Com o passar dos anos, se eu não conseguisse negociar de forma bem transparente e que atendesse a necessidade da empresa e dos trabalhadores, procuraria outro lugar para produzir. Isso é normal. Eles já passaram da hora de mudar a postura em relação à empresa. Estão ainda no século 19 e nós já estamos no século 21. A postura deles ainda é de estatizar tudo. Eles não estão realmente trabalhando no futuro.
Poder Econômico: Quando, em maio, o governo anunciou um pacote de medidas para o setor, houve um acordo de não demissão com as montadoras. Caso a GM confirme a demissão de 1,5 mil funcionários, o senhor acredita em algum tipo de punição para a montadora?
André Beer: O que acontece é que, quando para de produzir alguma linha, tem sobra de pessoas que, se não forem realocadas, vai ter de ser demitidas. É um processo normal.