
Lacerda: Brasil está no perigo da zona de conforto (Foto: AE)
Este ano, o dólar já caiu 8,1% e fechou a sexta-feira cotado em R$ 1,71. A persistência de nossa moeda manter o fôlego alimenta as queixas, alertas e debates sobre a desindustrialização. O professor Antônio Corrêa de Lacerda (PUC-SP) é um acadêmico com trajetória sempre voltada ao setor produtivo. Economista-chefe da Siemens Brasil e conselheiro da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais (Sobeet), dedica-se à pesquisar os desafios de nossa indústria. Nesta entrevista ao Poder Econômico, Lacerda comenta sobre o câmbio, claro, e as medidas setoriais e protecionistas adotadas como solução. Mas faz um alerta sobre o futuro da economia brasileira, caso o governo demore a reagir: “Nosso maior risco econômico é o da acomodação”.
Poder Econômico – Qual a sua previsão para o câmbio este ano?
Antônio Corrêa de Lacerda – Deveremos continuar com uma expressiva volatilidade. Temos duas forças que agem contrariamente. O crescente déficit em conta-corrente de quase US$ 50 bi no ano passado, e que deverá expandir-se para US$ 60 bi este ano induz uma potencial desvalorização do real, frente a um cenário externo adverso. Por outro lado, prevalece no mundo um quadro de baixos juros reais, o que atrai grandes volumes de capitais para o Brasil: captações das empresas, investimento em bolsa, IDE, etc.. Esse outro aspecto contribui para a valorização do real.
Poder Econômico – Quais exemplos, de outros países que passaram por esse processo? Quais foram as conseqüências?
Antônio C. de Lacerda – A consequência é a desindustrialização e o aumento da vulnerabilidade externa. O real valorizado diminui a competitividade da produção brasileira, não apenas para exportação, mas frente aos importados, especialmente de países, que, ao contrário do Brasil, mantém sua moeda desvalorizada e subsidiam fortemente seus produtores para ganhar mercados. Outros fatores de competitividade sistêmica têm prejudicado a geração de valor agregado local, como custo elevado de financiamento e crédito, carga tributária sobre investimentos e exportação, infraestrutura e logística, caras e deficientes, custo elevado de insumos, como aço e energia, etc. O nível da produção industrial do final de 2011 é praticamente o mesmo do de setembro de 2008, pré-efeito da crise, da quebra do Lehman Brothers. Todo desempenho industrial ao longo destes mais de três anos apenas nos fez recuperar o patamar alcançado então. O PIB deve ter acumulado um crescimento de cerca de 10% no período, mas a indústria parou. Nos tornamos um mercado de consumo relevante, mas um produtor decadente.
Poder Econômico – Algumas empresas estão aproveitando “oportunidades” e captando lá fora mesmo sem necessidade.
Antônio C. de Lacerda – Está sobrando recursos no exterior, porque os juros estão muito baixos nos EUA e Europa. As empresas precisam de capital de giro e de financiar suas operações e investimentos. Trata-se de uma oportunidade pois o Brasil e suas empresas são atrativos em um mundo com muitos países em recessão ou estagnação e ainda taxas de juros muito baixas.
Poder Econômico – O governo deveria atuar para reduzir a valorização do real? Por quê?
Antônio C. de Lacerda – A desindustrialização é um fenômeno precoce e intempestivo no Brasil. Algo que deve ser fortemente combatido, pois não se trata de uma demanda setorial corporativa. A indústria é um forte indutor do desenvolvimento, como denotam as experiências históricas internacionais e a nossa própria, sendo fator determinante do padrão do valor agregado, comércio exterior, renda, emprego, tecnologia e de balanço de pagamentos. Especialmente em um país com as nossas características. Não se trata de uma escolha excludente entre produzir bens primários ou manufaturados, já que temos potencial para sermos competitivos em ambos. Desde que haja condições sistêmicas isonômicas e um arcabouço de políticas de fomento voltadas para tal. Só depende de estratégia e de olhar além do curto prazo.
Poder Econômico – As medidas setoriais são uma alternativa?
Antônio C. de Lacerda – Medidas setorais, embora necessárias, não alteram o fator preponderante que é a enorme diferença cambial, em grande parte advinda da diferença abissal que há entre o nivel de juros praticados no pais e no exterior.
Poder Econômico – Quais os maiores riscos destas medidas?
Antônio C. de Lacerda – O Brasil vem conquistando avanços importantes em vários campos, em especial no econômico-social, o que tem nos propiciado maior autonomia das políticas econômicas para enfrentar as adversidades do ambiente externo. O sucesso tem se traduzido em um nível elevado de aprovação do governo, o que mostra que a sociedade reconhece os progressos. O governo da presidente Dilma Rousseff vem consolidando importantes conquistas que se viabilizaram especialmente ao longo dos últimos dois decênios. O controle da inflação, mais recentemente acompanhado de um maior crescimento do nível de atividades, vem refletindo na melhora do emprego, com auxilio das políticas sociais, o que tem gerado distribuição de renda e minimizado a nossa ainda elevada desigualdade. No entanto, o maior risco econômico que enfrentamos, ao contrário do passado recente, não advém dos fatores externos, mas de caráter interno, que é o risco da acomodação. A conjugação de fatores, econômicos, políticos, sociais, etc, tende a levar-nos a um sentimento de acomodação geral e a não realizar as transformações necessárias. Aqui há um claro conflito, entre o conforto do presente e a sustentabilidade futura.