Ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos e atual presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp, Rubens Barbosa analisa positivamente a reação do Brasil diante da guerra comercial com a Boeing que causou a perda de um contrato de US$ 355 milhões da Embraer. A empresa de São José dos Campos (SP) venderia, pela primeira vez, 20 aviões Super Tucano ao programa Light Air Support da Força Aérea dos EUA. Experiente na diplomacia, Barbosa recomenda, nesta entrevista ao Poder Econômico: ”Ninguém gostou, mas o caso Embraer não pode contaminar a relação comercial com EUA.”
Poder Econômico – Como analisa o caso da Embraer?
Rubens Barbosa – Ninguém gostou do que aconteceu. Mas o governo brasileiro soube tratar com serenidade. É uma questão interna do governo americano. O Itamaraty emitiu uma nota, se disse surpreso e o assunto continuará na pauta. É o procedimento possível. A Embraer tem o melhor produto. É uma questão de soberania americana. O caso não deve, de forma alguma, contaminar a relação comercial com os Estados Unidos. O fato foi tratado dentro dos limites possíveis.
Poder Econômico – Qual deve ser a principal mensagem de Dilma Rousseff em sua visita aos Estados Unidos?
Rubens Barbosa – Essa visita dela é um desdobramento da visita de Barack Obama em março passado. Há uma série de iniciativas muito importantes que vão se desdobrar, é uma etapa a mais. Nós temos um déficit de 9 bilhões de dólares na balança comercial. Temos interesse em receber investimentos de empresas de lá. Na questão específica da crise financeira, o Brasil, no entanto, deve deixar claro que está acompanhando os acontecimentos nos Estados Unidos e na Europa e que vai tomar medidas para defender os seus interesses.
Poder Econômico – Como analisa as medidas adotadas até aqui em relação ao câmbio?
Rubens Barbosa – As últimas medidas foram para conter a especulação no mercado futuro, defesa comercial e desoneração fiscal. São medidas ad hoc que não enfrentam o problema estrutural. Não vai resolver o problema. São medidas de curto prazo. Apenas adiam o problema. Qual o problema? A perda de competitividade da indústria nacional. O país precisa enfrentar esse problema com coragem. O preço da energia tem que cair, a especulação tem que ser enfrentada, a questão da falta de infraestrutura, alta tributação, elevadas taxas de juros etc. Não dá para tomar medidas apenas ad hoc, de curto prazo.
Poder Econômico – Na questão do câmbio, na sua visão, o Brasil vive um ataque especulativo?
Rubens Barbosa – Não dá para dizer assim. É uma questão complexa. O Brasil tem um dos câmbios mais apreciados do mundo por vários fatores. O que ocorre hoje é especulação no mercado futuro e fraude. Há fraude nisso. A ação do Ministério da Fazenda, pelo que parece, será nesse sentido. Os recursos entram como Investimento Estrangeiro Direto (IED) mas vão para o mercado futuro. É preciso enfrentar isso.
Poder Econômico – O Brasil vive um processo de desindustrialização?
Rubens Barbosa – Alguns setores sim. Setores de transformação. Há uma processo de duplo sentido. Primeiro, empresas que produziam aqui passaram a produzir no exterior. Isso ocorre porque o Brasil está muito caro por todos os motivos já mencionados. Há ainda a importação estimulada pelo câmbio. Há um grave problema estrutural.
Poder Econômico – É preciso rever a agenda econômica?
Rubens Barbosa – Falta visão de médio e longo prazos. Já está ocorrendo e vai haver mais desinvestimento. Isso resultará em desemprego. Quando falo de médio e longo prazo, falo em cinco a dez anos de conseqüências ruins caso medidas não forem adotadas agora. A visão hoje é que é melhor produzir em vizinhos da América Latina e exportar para o Brasil. Por quê? Porque lá é mais barato.