Nogueira da Costa: “Sistema bancário passa por processo de depuração”
Vencedor do XVIII Prêmio Brasil de Economia do COFECON – Conselho Federal de Economia, o livro Brasil dos Bancos (Edusp) já é referência para quem procura entender o sistema bancário brasileiro – sua história e sua dinâmica. Seu autor, Fernando Nogueira da Costa, professor da Unicamp, é muito mais do que um especialista acadêmico do tema. É um dos poucos economistas com duplo olhar sobre os bancos: de pesquisador e de gestor. Foi vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal (2003-2007), diretor-executivo da Febraban (2003-2007), presidente do conselho da Companhia Brasileira de Securitização e conselheiro de várias instituições. Nogueira da Costa também traz em seu currículo um fato curioso: foi professor de Dilma Rousseff, na Unicamp.
Nesta entrevista, por email, ao Poder Econômico, ele analisa o atual momento no sistema bancário, prevê que os grandes bancos privados reagirão à perda de mercado para os bancos públicos – agora usados como instrumentos para redução do spread e ampliação do crédito – assim que a economia retomar o crescimento, aponta os motivos pelas sucessivas quebras de bancos médios e sentencia: “O sistema bancário passa por um processo de depuração”.
Poder Econômico – Os bancos brasileiros são apontados como eficientes e fortes comparados com os sistemas de outros países. Como chegamos até aqui?
Fernando Nogueira da Costa – Bem, isto é uma longa história que começa com a fundação do primeiro Banco do Brasil com a chegada de D. João VI, em 1808, no Brasil, e ainda está transcorrendo… Contei essa história bancária, que ainda era inédita na historiografia brasileira, no meu livro. Sintetizando os traços comuns no esboço dos perfis dos “bancos privados líderes”, todos os bancos privados nacionais, em conjunto com empresas não-financeiras, fazem parte de algum grupo econômico forte. Eles atuam em todas as atividades bancárias, seja de varejo, seja de atacado, entretanto, sem perderem o foco em seu nicho de mercado específico. Todos cresceram através de fusões e aquisições bancárias, ganhando assim abrangência nacional, apesar de sempre privilegiarem a disputa de negócios na região mais dinâmica e no centro financeiro, isto é, em São Paulo. Conseguiram opor barreira tecnológica aos seus concorrentes. Antes da última fase de concentração bancária e de apreciação da moeda nacional, eles ainda não tinham escala para almejar maior inserção internacional. Agora, este é o grande desafio.
Poder Econômico – Qual a falha que ainda persiste no sistema, o que podemos melhorar?
Fernando Nogueira da Costa – Quanto às bancarrotas, algumas características comuns dos casos expressivos entre os bancos “perdedores”, isto é, aqueles cujas marcas desapareceram, nos anos 90, são a promiscuidade com o instável poder político, o autofinanciamento do grupo econômico-financeiro, o vínculo maior com sua base regional, a defasagem tecnológica em relação aos maiores concorrentes, a vulnerabilidade face às mudanças no contexto macroeconômico, a gestão familiar, não profissional, e fraudulenta. A supervisão e/ou fiscalização bancária é atribuição permanente do Banco Central do Brasil para evitar contaminação e crise sistêmica. Cabe sempre aprimorar, acompanhando as contínuas inovações financeiras.
Poder Econômico - Como analisa o fato de o governo usar os bancos públicos para reduzir o spread bancário?
Fernando Nogueira da Costa – O resultado da Caixa mostra o banco público na contramão das outras instituições, confirmando que o banco atuou de forma mais incisiva que os concorrentes na primeira metade do ano. O Banco do Brasil também avançou mais que os privados, mas nada que se compare à performance da Caixa. A carteira de crédito da Caixa teve expansão de 44,6% em 12 meses, enquanto o BB avançou 19,9%. Na média, os privados tiveram expansão de 13,17%.
A forte expansão do crédito da Caixa veio acompanhada de expressivo crescimento do lucro e inadimplência comportada, ao contrário da concorrência, fortemente influenciada pela baixíssima taxa de calote da carteira imobiliária. Apenas o BB tem inadimplência em nível tão baixo quanto o da Caixa (2,1%), graças a carteira de crédito consignado, com desconto em folha de pagamento. O Bradesco exibiu índice de 4,2% e o Itaú de 5,2%.
A inadimplência na Caixa e no BB também recebeu ajuda matemática para cair. Como a carteira de crédito das instituições públicas cresceu em ritmo maior que das privadas, há um benefício no cálculo da inadimplência, que considera os empréstimos com atrasos acima de 90 dias.
O protagonismo dos bancos públicos repete cenário visto durante a crise de 2009, quando as instituições ligadas ao governo assumiram atuação anticíclica no crescimento do crédito. No fim de 2009, quando sentiram mais firmeza na recuperação da economia, os bancos privados voltaram a brigar pelo mercado.
A grande questão é qual será o comportamento da inadimplência – e, portanto, das despesas com provisão – da Caixa quando os créditos agora concedidos começarem a maturar. Na esteira do forte ritmo do crédito, o banco estatal passou a atuar de forma mais agressiva, com taxas de juro abaixo daquelas dos concorrentes, em linhas de crédito nas quais não tinha tradição e a qualidade dos empréstimos concedidos só ficará clara no futuro.
Poder Econômico – Qual sua opinião sobre os sucessivos aportes que o Tesouro Nacional está sendo obrigado a fazer nos bancos públicos para ampliar o crédito?
Fernando Nogueira da Costa – A operação de injeção de R$ 21 bilhões no Banco do Brasil e na Caixa Econômica, em setembro de 2012, foi o principal motivo no mês para pequeno aumento no endividamento da União, que está com forte tendência de queda em consequência da diminuição da taxa de juros básica (Selic). Essa capitalização da Caixa direcionada ao programa Minha Casa, Minha Vida é muito bem aproveitada não só como política pública, pois alavanca muito mais valor (nove vezes mais) do que seria caso o mesmo recurso fosse utilizado diretamente por algum ente governamental, mas também como política de sustentação do crescimento econômico. Pode se verificar que embora tenham sido já contratados financiamentos para construção de quase 2 milhões de imóveis, desde 2009, até o terceiro trimestre de 2012 foram concluídas apenas cerca de 57% das construções desses imóveis. Assim, o incentivo ao crédito imobiliário não só multiplica a relação Crédito / PIB, por ser um crédito que perdura durante longo prazo nos balanços bancários, como também permite um crescimento sustentado durante todo o tempo médio de 2 anos de desembolso para construção do imóvel. É um indicador antecedente do crescimento já contratado para os próximos anos!
Poder Econômico – Embora tenhamos um sistema bancário forte, a política de juros baixos está dificultando a vida, sobretudo, para os bancos pequenos e médios. Há espaço para esse segmento? Por que tantos estão quebrando nos últimos anos?
Fernando Nogueira da Costa – Não é essa política de juros baixos a responsável pelos problemas estruturais dos bancos pequenos e médios. Desde a quebra do Banco Santos, no final de 2004, eles têm dificuldade de captação. Por isso, recorrem à venda de carteira de crédito consignado imediatamente após sua originação. Só que muitos não contabilizavam corretamente essa venda, retirando-a de seu balanço. Desesperado com a redução dos lucros distribuídos, o banqueiro procura ainda manipular o “lucro líquido” por meio de alguns expedientes fraudulentos como reduzir as “provisões para devedores duvidosos”, isto é, o dinheiro que precisaria reservar para fazer frente a maus devedores, rolando indefinidamente créditos ruins ou aceitando a superposição de garantias pouco eficazes. Outro expediente é antecipar a contabilização das receitas para o início da operação, por exemplo, de crédito consignado, quando deveria ser no momento do pagamento final, para contabilizar corretamente eventual inadimplência, e postergar as despesas para o fim. Após essa “gestão de maquilagem”, passa para a “gestão desesperada”, inclusive com a proibida auto concessão de crédito através do próprio grupo econômico. Parece-me que há um processo de depuração e consequente concentração bancária.
Poder Econômico – Com uma perspectiva de longo prazo de taxas de juros mais baixas, vê uma transformação no setor?
Fernando Nogueira da Costa – Os grandes bancos privados nacionais e estrangeiros estão perdendo market-share no mercado de crédito para os bancos públicos. Acredito que eles reagirão, agressivamente, na próxima retomada de crescimento econômico e, portanto, da demanda de crédito. Essa inédita concorrência em preço, em vez de ser apenas em qualidade da prestação do serviço bancário, como era o costume, é muito saudável para o setor bancário brasileiro. O governo Dilma foi hábil e corajoso em mudar, gradualmente, o mix de políticas econômicas e dar uma nova configuração aos preços relativos básicos: juro mais baixo, câmbio mais alto, desoneração fiscal seletiva, crédito direcionado a setores dinâmicos prioritários para a estratégia de desenvolvimento em longo prazo, incentivo ao lançamento de títulos de dívida privada com emissão de debêntures por grande empresa não-financeira. Dilma, minha ex-aluna, teve a vontade política e o conhecimento técnico para mudar, adequadamente, a regra dos depósitos de poupança e coordenar a atuação da diretoria do Banco Central com a do restante da equipe econômica.



