
José Francisco de Lima Gonçalves: dólar na casa dos R$ 2 (Foto: Divulgação)
O fim da crise da Europa pode ser a porta de entrada para uma turbulência maior na economia brasileira. A opinião é de José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator.
Em entrevista ao Poder Econômico, ele destaca que, se a recuperação da Europa não se der dentro de condições esperadas pelo mercado, um tsunami pode afetar o Brasil. Só resta saber a data.
Para ele, o real seguirá em tendência de desvalorização frente ao dólar, devendo permanecer próximo à casa dos R$ 2 por dólar.
Poder Econômico – Você acredita que é sustentável o atual modelo de crescimento promovido pelo governo, baseado no estímulo ao consumo?
José Francisco de Lima Gonçalves - Não é bem um modelo de crescimento. É o que sobrou para tentar estabilizar a demanda e um setor – automotivo – cuja cadeia produtiva é muito importante. Evidentemente, embora talvez seja uma condição necessária para a economia crescer dentro de um modelo, está longe de ser suficiente.
Poder Econômico – O governo deveria abrir mão da meta cheia de superávit primário para estimular a economia, por conta da crise europeia?
José Francisco de Lima Gonçalves - Vejo o problema como a queda do investimento em função da piora externa, que se soma a certo esgotamento do consumo, mesmo com a expansão do crédito doméstico. Se, nessa situação, o setor privado não investe, cabe ao governo fazê-lo, seja pelas estatais, seja pelo orçamento da União. Aliás, estados e municípios deveriam ajudar também. Abrir mão da meta cheia de primário, para mim, é criar condições necessárias, ainda que talvez insuficientes para que o gasto público compense a contração do investimento privado e recompor a meta quando a economia voltar a crescer. Veja o que acontece na Europa: você faz superávit primário com a economia fraca ou em recessão e a situação fiscal piora ao invés de melhorar.
Poder Econômico – A crise global já afetou o Brasil em sua totalidade ou ainda veremos um tsunami por aqui?
José Francisco de Lima Gonçalves – A probabilidade de uma crise financeira na Europa cresceu muito depois que o efeito da intervenção do Banco Central Europeu foi diluído pela piora do risco soberano e bancário. Paradoxalmente, um novo tsunami virá se e quando a solução da Europa acontecer e a percepção de risco global for reduzida. De o efeito não ser o que poderia ser, o que eu infelizmente acho mais provável. O real vai continuar mais para R$ 2,00 por dólar do que para R$ 1,60.
Poder Econômico – Em que momento esse contágio pode acontecer por aqui?
José Francisco de Lima Gonçalves – Um novo tsunami? Quando a situação melhorar lá fora e o risco do euro for muito baixo. É difícil estabelecer uma data. Mas note que, se a Europa demora a se recuperar, como a recuperação dos EUA parece que virá antes, a chance de um tsunami cai muito, tanto pelo diferencial de juros, quanto pelo diferencial de crescimento, como pelos termos de troca.
Poder Econômico – Pela primeira vez, na reunião desta semana, o voto dos membros do Copom passou a ser público. Isso pode comprometer, de alguma forma, as decisões do comitê?
José Francisco de Lima Gonçalves - As decisões de um colegiado que não tem mandato podem ser afetadas pela publicidade dos votos. Muitos analistas enxergam tal risco como uma ameaça de vingança do governo aos que votarem “contra” o governo. Tal raciocínio busca apequenar os membros do Copom. Sugere que quem raciocina assim teria a mesma cautela dos atuais membros se lá estivesse. Por que tais analistas insinuam que votariam de modo independente e os atuais membros do Copom não? Eu espero atas mais claras, com argumentos e “nomes aos bois” de modo a entender melhor o que está sendo discutido e quem pensa o que.