Depois de muita gente ganhar milhões de dólares com palestras, relatórios, artigos pregando a liberalização financeira irrestrita, desde fins dos anos 1980, o Fundo Monetário Internacional vem a público reconhecer, oficialmente, que o fluxo de capitais mundo afora merece, sim, um controle.
A Grande Recessão já havia feito o FMI titubear em declarações aqui e ali sobre este seu dogma. Admitira controles em alguns países e, diga-se, o Brasil saiu na frente nesta guerra. Agora o fundo publica cartilha aceitando o inexorável. Mas só em alguns casos e de forma temporária .
O fato só prova a grande dificuldade dos organismos multilaterais de virem a público, diante da comunidade internacional, reconhecer seus erros teóricos – ou suas visões institucionais distorcidas por pressão do mercado (como bem mostra o documentário Inside Jobs, ganhador do Oscar).
Durante duas décadas, o FMI influenciou as políticas mundo a fora e legou ao ostracismo políticos, visões e até mesmo universidades de Economia que pensavam diferente. O mundo, no entanto, não ouviu nenhum pedido de desculpas.
Os países que sustentam o FMI, com desembolsos altos para bancar sua estrutura e suas pesquisas, além do fundo propriamente dito, precisam estabelecer mecanismos de controle sobre a produção acadêmica do organismo. Afinal, ideias não nascem em árvores e têm consequência sobre a vida, o emprego e o futuro das pessoas.
É bastante confortável para economistas e estrategistas do FMI quebrarem tabus no tempo que determinam à mercê de interesses conjunturais. O mesmo vale para o Banco Mundial, que, durante a década de 1990, errou em recomendações, por exemplo, na questão da Previdência Social, influenciou na privatização total do sistema chileno e, depois, voltou atrás. Hoje quem paga o preço daqueles que ficaram sem previdência no país é o meu, o seu e o nosso do contribuinte do Chile.
Prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman lembra, em seu blog, que desde as crises dos países da Ásia, nos anos 1990, apontava a liberdade de fluxo de capitais como causa, mas o FMI nunca ouviu.
Assim como fazia pouco caso da tese da “financeirização” da Economia que era vista como coisa de economistas franceses. Agora é coisa da “flexibilidade intelectual” do FMI.