O mercado financeiro aposta, cada vez mais, que apenas a Eletrobras irá aceitar a renovação dos contratos de concessões do setor elétrico dentro das regras estabelecidas pela MP 579, assim a redução da tarifa a partir de janeiro seria de 12% a 14% – em vez de 16,2% (residências) e 28% (indústrias), como prevê o governo.
Caso apenas a Eletrobras aceite a renovação, analisa a indústria (CNI, Fiesp, Firjan), o impacto será insuficiente para compensar o reajuste de 30% ocorrido entre 2003 e 2011 na tarifa de energia, o que colocou esse custo como o segundo maior no balanço das empresas (só perde para mão-de-obra).
A indústria, reunida com o governo, neste momento, em Brasília, para debater o tema, está procurando argumentos para apoiar as MPs 578, 579 e 580. Mas, no ar, paira a dúvida sobre por que o governo federal decidiu reduzir as tarifas pela política de modicidade tarifária e não pela redução de encargos e tributos que significam 45% da tarifa.

Ilha Solteira, da Cesp: em discussão 20% da geração (Foto: Divulgação)
Daqui até o dia 4 de dezembro, o tema é, sem dúvida, o mais importante em discussão no país para garantir o crescimento econômico nos próximos dez anos – afinal de contas, historicamente o nosso crescimento sempre esbarrou no limite energético, desde a década de 50 do século passado – e Poder Econômico decidiu fazer um resumo, abaixo, para se entender o quê está em jogo:
O que é a MP 579?
A MP 579, baixada em setembro, antecipa a renovação das concessões do setor elétrico que vencem de 2015 a 2017, com o objetivo de fazer com que as concessionárias retirem do preço da tarifa o valor referente a ativos amortizados ou depreciados, ou seja, investimentos que já se pagaram. A retirada desse valor funcionaria como uma espécie de pedágio para que as empresas possam obter a prorrogação da concessão. Assim, as geradoras e transmissoras que renovarem seus contratos devem adotar o teto tarifário definido pelo governo. As concessionárias que não se interessarem pela prorrogação continuarão adotando a atual base tarifária e, ao final do contrato, as concessões serão licitadas pela União.
Quanto da energia do país está em debate?
São 20 contratos de geração ou 20% de toda a energia gerada no país; 9 contratos de transmissão ou 67% desse mercado e 44 contratos de distribuição ou 35% da rede. Estão nessa situação as empresas como CEMIG, CESP, Eletrobras, Chesf, Eletronorte, Eletrobras Furnas, entre outras.
Por que o governo afirma que haverá essa redução nos preços?
A redução das tarifas é uma soma de dois fatores: o fim da cobrança referente a investimentos que já se pagaram e a redução de encargos setoriais. A queda dos encargos inclui o fim da cobrança da CCC (Conta de Consumo de Combustíveis) e a redução da CDE (Conta de Desenvolvimento Energético) e da RGR (Reserva Global de Reversão). Com a redução da cobrança da CDE, a União aportará anualmente cerca de R$ 3,3 bilhões. Desta forma, a nova tarifa será composta pelos custos de operação e de manutenção das concessões, pelos tributos, pelos encargos setoriais já reduzidos e pela remuneração do uso das redes de transmissão e distribuição. A tarifa média proposta para as hidrelétricas, de R$ 9,50 por MWh para cobrir custos de operação e manutenção, deve implicar corte de 70% na receita das geradoras. Para as transmissoras, a redução média será de 67%.
Por que as empresas têm direito a uma indenização?
O fato de os empreendimentos de geração e instalações de transmissão terem sido concedidos há muito tempo não significa, necessariamente, que todos os ativos estejam amortizados ou depreciados. Os investimentos realizados até 31 de dezembro de 2012 que não tenham sido completamente amortizados ou depreciados serão indenizados. Os valores foram calculados individualmente. A soma total de indenizações que a União pagará será de R$ 20 bilhões, sendo R$ 7 bilhões para as geradoras e R$ 13 bilhões para as transmissoras.
Aí é que está o enrosco. A Eletrobras, por exemplo, calcula sua indenização (por seis distribuidoras) entorno de R$ 31 bilhões, mas o governo está disposto a desembolsar apenas R$ 14 bilhões. A empresa será obrigada a fazer um corte de custos de 30%, que ameaça demissão de 8 mil empregados. Sua participação no mercado (35% na geração e 56% na transmissão) está também sob suspeita.
Qual a consequência esperada?
As empresas ameaçam cortar metade dos R$ 270 bilhões previstos para serem investidos até 2021 – esse valor é quanto a EPE (Empresa de Pesquisa Energética) estima serem necessários em investimentos em transmissão e geração no período.