Blanche: “Desvalorização do real não salva indústria brasileira”
Quando o assunto é câmbio, o nome de Nathan Blanche é quase obrigatório. Poucos conhecem tão bem esse mercado no Brasil como ele, que acompanha o sobe e desce há décadas. Sócio da Tendências Consultoria, Nathan, nesta entrevista ao Poder Econômico, discorda do lugar comum – defendido pelo Ministério da Fazenda – de que a desvalorização cambial desta semana será suficiente para aumentar a competitividade da indústria nacional. O especialista está mais preocupado com a pressão inflacionária.
Em sua opinião, o Brasil vive extraoficialmente um regime de câmbio duplo, com o governo administrando a cotação da moeda e saindo assim da lógica do famoso tripé, câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário, adotado desde o Plano Real.
Poder Econômico – O recente movimento de valorização do dólar frente ao real já pode ser observado como uma tendência?
Nathan Blanche - Isso é uma mudança de política cambial. Nos últimos seis meses, houve uma mudança. Fatalmente, o regime de câmbio flutuante está superado e hoje em dia vivemos em um regime de câmbio administrado. Não é a primeira vez que isso ocorre. Tivemos câmbio administrado na década de 1980 e até o Plano Real tínhamos um câmbio duplo no Brasil, com flutuante e o administrado, que era administrado pelo BC. Agora, o câmbio duplo não é declarado, mas a forma como está sendo regido o mercado de câmbio, pelo Ministério da Fazenda, com pouca intervenção do BC, passa a se sentir empiricamente que o regime de câmbio foi mudado, deixando o nosso tripé econômico [câmbio flutuante, meta de inflação e superávit primário] meio manco.
Poder Econômico – Então, o câmbio não está refletindo fundamentos econômicos?
Nathan Blanche -Essa mudança é empírica, não é teórica. O câmbio não obedece a fundamentos econômicos, mas sim a uma decisão do governo de desvalorizar a taxa de câmbio.
Poder Econômico – E qual o impacto disso no fluxo cambial?
Nathan Blanche – A taxa de juros hoje em dólar no mundo não chega a 0,5%. E aqui temos 6% para entrada de capitais. Tem algum impedimento, uma barreira que foi posta pelo fluxo de capitais. Mas o fluxo negativo dos primeiros dias de maio já era esperado. Em abril, o fluxo só não foi negativo por conta do bom momento comercial, via exportações. Nos três primeiros dias de maio, tivemos fluxo negativo de US$ 1,8 bilhão, com US$ 652 milhões positivos da conta de comércio, mas US$ 2,43 bilhões negativos da conta financeira. Nos quatro primeiros meses do ano, o que salvou foi o grande fluxo da conta de comércio.
Poder Econômico – E a tendência é de mais saída de dólar, já que os juros estão mais baixos…
Nathan Blanche - Você não pode criar uma barreira contra o fluxo de capitais. Sempre quando tem uma diferença, o mercado consegue buscar os seus meios de como superar. Na conta capital de curto prazo, o saldo em 2010 foi de US$ 24,7 bilhões. Em 2011, essa conta fechou com US$ 13 bilhões. Acertadamente, o governo está tentando impedir essas arbitragens especulativas. Isso fez efeito e foi acertado e eu dou todo o meu apoio para isso.
Poder Econômico –Esse movimento de alta do dólar já pode trazer uma preocupação extra para o governo no combate à inflação?
Nathan Blanche – Temos dois fortes compromissos com a formação de preços: a demanda interna e a taxa de câmbio. Oitenta por cento das importações brasileiras são de insumos de componentes. Com o objetivo de salvar a indústria brasileira é que essa política de desvalorização do real vem ocorrendo. A taxa de juros tem efeito lento sobre a economia, assim como as medidas macroprudenciais. Já o câmbio é injeção na veia. Se nós exportamos 8% do produto industrial e o resto é consumo interno, temos 92% da rede produtiva no Brasil que demandam esses insumos também. É desprezar o bom senso da globalização tentando esses impedimentos e essa desvalorização para promover a indústria, pensando que isso não vai afetar preços relativos.
17 comentários | Comentar
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17 luis 14/05/2012 16:02
Basta tirar o governo da economia. o cambio mascara as deficiencias da economia brasileira. assim nunca teremos produtos competitivos.
a ineficiencia do governo drena capital, esforço e energia dos em´resarios.
quem disse que para uma economia ser forte ela tem ser quase 100 % baseado na industria? os EUA tem 70 % do pib em serviços e ainda é a maior economia do mundo.
o setor textil americana sofreu a concorrencia da china na decada passada e hoje é a mais moderna do mundo, fornecendo tecidos especiais para cirurgias, tecidos especiais para queimados, isso graças a concorrencia dos chineses.
os EUA sofreram concorrencias so japoneses na decada de 90 no setor automotivo e hoje a GM é a maior industria automobilistica do mundo, pagou tudo o que devia ao governo quando na crise de 2008.
o brasil só crescerá quando ABRIR a sua economia. aumentando a produtividade, claro baixando estes impostos leoninos.
o mercado na livre concorrencia se encarrega de baixar os preços.
por exemplo, os correios poderia ser uma multinacional se sofresse concorrencia de uma empresa estraneira, como não há concorrencia o resultado é alguns (a minoria, mas existe) funcionários jogando as encomendas dos clientes como fosse ‘bola de basquete’.
esse é o nosso brasil.
16 Apolônio 14/05/2012 13:28
Vi vários empresários e economistas dizendo que o real estava muito valorizado e isto estava atrapalhando nossa competitividade, encarecendo nossas exportações. Agora, que o dólar deu uma valorizada em cima do real, eles estão chiando. Vai entender o que eles querem. Agora sabemos que muitos economistas e muitos da mídia falam da China, e de outros paises Asiáticos. Sabemos que os custos desses trabalhadores são baixíssimos, pois direitos trabalhistas, nenhum. A não ser que muitos que defende essa idéia, queiram que retrocedamos. Eles, como a mída falam dos impostos, mas são os primeiros a falarem de nossas estradas, infraestrutura, que não são boas, falam da educação, falam que tem que haver mais recursos para isso, para aquilo, mais fiscalização do poder público, etc. Aí vem a pergunta: Pode-se fazer alguma coisa sem impostos ?
15 Neco 14/05/2012 13:02
Depois de 8 anos de competência FHC, destruindo a indústria e patrimônio nacionais, não há incompetência no atual governo na resolução destas perdas.
Vai demorar bastante, mas estamos no caminho certo.
Dá-lhe Dilma, isto sim é saber fazer.
Faz bem feito!
14 Gerson Bastos 14/05/2012 12:15
A grande verdade é que teríamos de imediatamente, como se conhece em economia, sacrificar os bens de consumo e favorecimento aos bens de capital, combinado a isso deminuir a verocidade da coleta de impostos. Na verdade a economina anda com o que temos, na verdade há um gerenciamento(ou ingerenciamento) da economina, somos sempre reativos.
13 Manfredo 14/05/2012 8:16
Até quando a culpa será do FHC? Já temos dez anos de governo do PT e estamos caminhando a passos largos para a desindustrialização, acorda Brasil, acorda PT …. É hora de pararmos de retórica e pensarmos em soluções estratégicas e inteligentes. Sugiro a busca de comPTência dentro e fora dos partidos ou vamos ver a nossa indústria morrer, seremos apenas um imenso país agrícola, extrativista e mineral.
12 Inacio 14/05/2012 4:17
O sr. Joel de Sousa esta certissimo quando diz que o FHC destruiu o país, fortaleceu o real
a um patamar imprudente! Que deu quebradeira de muitas industrias nacionais e emigração de outras.
11 Claudio 14/05/2012 0:23
Em economia, assim como na medicina, qualquer remédio tem seus efeitos colaterais. Qualquer exagero é prejudicial. O que se deve buscar sempre é o equilíbrio dinâmico.
Quanto à choradeira e o comportamento da mídia é sempre assim: existe sempre o setor que ganha com uma medida e outro que perde. E há sempre a mídia alugada que se coloca à serviço daquele setor que perde e também da oposição, que precisa criticar de alguma ou de qualquer maneira.
10 antonio luiz pereira 13/05/2012 22:55
a cadeia industrial precisa tomar cuidado com o “economês” de tão má lembrança e tratar de identificar seus verdadeiros problemas, é falácia falar que nos outros paises não se paga imposto, quem vive no meio industrial sabe do despreparo e amadorismo que campeia por aí.
È bom lembrar que falam muito em impostos, na realidade querem baixas para diminuir os preços ou se apropriar da diferença? quanto a exportação impostos não são exportados.
interessante seria saber quanto que as empresas brasileiras investem na pesquisa e desenvolvimento para modernizar seus parques industriais, por outro lado o governo vai abrindo so cofres para investimento, só isso não basta, os Coreanos estão apresentando produtos de qualidade como carros por exemplo, e nós? acabamos com a gurgel.
9 DOUGLAS 13/05/2012 21:26
O que vai salvar a industria e comercio brasileiro é deixar de ser tão ganancioso, e usar da filosofia de ganhar mais vendendo mais e para isso tem que abrir mão de tanto lucro e baixar os preços, ainda não vi nenhum reporter perguntar para um industrial ou comerciante qual é sua margem de lucro, se falar a verdade o povão vai ver aonde esta o problema.
8 Alder Oliveira de L. e Silva 13/05/2012 20:28
Vai entender esse país de loucos. O que mais se ouvia, era empresários e economistas dizendo que o real valorizado estava quebrando a indústria brasileira…agora que o dólar chegou a 1.90 , vejo economistas dizerem que a alta do dólar não será boa para economia. Vá entender esse país e seus economistas!
7 irineu 13/05/2012 19:36
O que as nossas indústrias precisam ter é capacidade de se evoluir e parar de chorar , pois incompetência só dá nisso ….quebradeira ..e ñ venha esses tecnograta com seu blá.blá , estamos de saco cheio disso ……por favor vão lá na Grécia e dê uma mãozinha à êles e pare, de encher o saco aqui !!
6 WAGNER 13/05/2012 19:24
Visito feiras de negócios e constatamos que 90 % dos stands têm produção na CHINA. O Preço é muito menor mas, em que condições ? Infelizmente é a guerra do capitalismo – o objetivo é lucro e o mais barato, esqueçam condições humanas, sociais etc
Cadê a SUSTENTABILIDADE ?
Ahhh SIM … É ECONOMICAMENTE INVIÁVEL, então pode degradar, prejudicar empregos, vidas …
5 edy clodio petry jardim 13/05/2012 19:19
Na China o cambio é 6.5 por 1,em outros paises asiaticos como Cambja e Vietnã,chega
a 30.000 por 1. No Japão também fica por ai. A infra destes paises é bem melhor,impostos
praticamente zero,leis trabalhistas zero,vontade de trabalhar MIL. Não é com pura dema
gogia e propaganda milhonária que a coisa vai andar.
4 Edivelton Tadeu Mendes 13/05/2012 18:33
Sim, professor Nathan, os impostos – em cascata, somados aos custos de produção – a energia está um absurdo, vem há muito colocando em risco nossa produção industrial.Mas a China vai substituir a produção no Brasil – sob as bançãos do PT?Não!
3 Joel de Souza 13/05/2012 17:53
Quando é que alguém vai criar coragem e dizer que FHC destruiu o país? Eu me lembro de ver nas rodovias centenas de Galpões fechados, industrias que migraram para Argentina e outros paises. Foi tb a primeira vez que vi SEM TETO dormindo sob as arvores nos canteiros da 23 de maio… Sem teto é criação do PSDB, de FHC ou não é? Estou errado?
2 Jorge Ferreira 13/05/2012 16:17
O tripé do Plano Real (até 1998) foi: (i) câmbio fixo valorizado (aqueles 6% de queda ao ano não mudavam a essência dessa estrutura); (ii) déficit primário e (iii) juros mínimos de 20% a.a. para fechar as contas externas. Ou seja, política monetária passiva. Acho que isso foi um equívoco no final do 2. parágrafo.
Quanto ao tripé a partir de 1999, o câmbio nunca foi flutuante (flutuação limpa). Quando o dólar era escasso e subia (até 2002) o Governo não intervia porque não tinha dólar para vender. Se tivesse, evitaria essa elevação por motivos inflacionários. Quando o dólar tornou-se abundante (pós 2003), o Bacen comprou.
Por fim, a queda recente do dólar está sim associada aos determinantes acima mencionados, mas também a um contexto de incerteza e, talvez principalmente, à alta do déficit em transações correntes que, julgo, encontra explicações na própria valorização do real, com seus efeitos sobre a balança comercial e remessa de lucros.
1 ADRIANO M. GRANJA 13/05/2012 16:11
Ao contrario do que diz o titulo Nathan não declara (pelo menos nessa entrevista) que “desvalorização do real não salva industria brasileira”. Diz apenas que isso vai pressionar a inflação, mas é uma “injeção na veia” que na minha opinião vai ser muito bom.