
Nicola Tingas (Foto: Divulgação)
A Grécia está dividida: ou cumpre o ajuste fiscal imposto pelo bloco europeu e sacrifica sua economia e, consequentemente, sua população; ou volta-se para a economia local e perde todos os benefícios de estar em um bloco econômico ao lado das maiores potências do continente.
O lado para o qual o governo grego penderá não está definido. Mas uma coisa é certa: a Grécia não tem condições de superar a crise sozinha. É o que diz o economista Nicola Tingas, filho de gregos e economista-chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acref).
- Os gregos não têm interesse em sair do euro, mas também não têm condições de fazer um ajuste tão severo, disse ao Poder Econômico.
Poder Econômico – O recente anúncio de ajuste orçamentário aprovado pelo governo grego é uma luz para recuperação da Grécia?
Nicola Tingas – Não é tão simples assim. O contexto é muito complexo. Há muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Houve uma onda da crise do subprime, que depois virou crise da Europa, que é um contexto de crises globais. Há uma particularidade do esgotamento do sistema de bem-estar social europeu. E temos um país pequeno, que depende ou de um refinanciamento da dívida ou até de sair do bloco para novas condições, que são muito complicadas, como moratória ou a saída do euro.
Poder Econômico – O que o governo grego deve priorizar: atender aos ajustes fiscais e sacrificar a população e a economia, ou sair do euro e buscar a recuperação internamente?
Nicola Tingas – É um contexto muito difícil para a Grécia. As reformas exigidas não são incorretas em trazer mais realismo fiscal, mas, ao mesmo tempo, são de um tamanho e de uma contundência muito além da capacidade de absorção razoável do tecido social. A destruição de riqueza é extremamente severa, não há portas de saída para o crescimento ou para ajudar o país a amenizar esses efeitos e ter fôlego para reduzir o problema social. Simplesmente, mandam cortar tudo.
A proposta da União Europeia está assimétrica, inconsistente para a realidade da própria região, onde muitos países também estão endividados. Não é apenas a Grécia que está desequilibrada.
Poder Econômico – Como a Alemanha tem gerenciado essa crise, na sua opinião?
Nicola Tingas – O problema mais sério é do bloco europeu como um todo. O problema deveria ser visto em um contexto do euro e não somente em uma disposição de fazer ajuste a qualquer custo sobre uma sociedade. A Alemanha demorou para fazer qualquer tipo de pronunciamento e deixou a Grécia à deriva, achando que a situação não comprometeria o euro. Hoje, o processo atinge o euro, mas criaram-se formas paliativas de sustentar a moeda. Os países e os bancos da região têm uma liquidez suficiente para, caso a Grécia saia do euro, o impacto seja bem menor.
Portanto, eles não estão dispostos a fazer concessões. A Grécia vai ter de fazer o ajuste que eles querem, ou vai ter de sair.
Poder Econômico – E qual seria a melhor saída?
Nicola Tingas – Não existe resposta única para isso. Para o país sair da zona do euro não é interessante, porque ele se beneficia dentro de um contexto de fluxo de turismo e uma série de outras questões. Os gregos não têm interesse em sair do euro, mas também não têm condições de fazer um ajuste tão severo. A Grécia está dividida.