“Minha veia sempre foi romântica mesmo.”
“Pô, cresci ouvindo e vendo Jovem Guarda, sou tiete dele [de Roberto Carlos].”
“O sertanejo não é popular? É música popular brasileira, porra.”
“Oh, que chique [imposta a voz], já tenho um lugar na música popular brasileira?”
“Nossa, estou tão preocupado, nem vou dormir esta noite [sobre o preconceito da imprensa musical ao seu trabalho]”
“Não vou dormir esta noite de preocupação com os críticos que acham que eu sou brega…”
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Como é bom ler uma entrevista de alguém que não está nem aí para convenções, que não dá bola para o senso comum, que não está amarrado por um roteiro e por uma agenda construídos por assessores.
Essa é a impressão que temos de Fábio Jr. após sua conversa com Pedro Alexandre Sanches, publicada nesta quarta-feira (27 de abril) no iG.
Fábio Jr. já foi tudo e já tem tudo na vida. Casou com Glória Pires, foi galã de novela da Globo, é cantor popularíssmo e tem filhos muito bem-sucedidos. No Brasil, muitos artistas que não têm metade desse currículo arrotam prepotência e deslumbre. Não Fábio Jr.
Ainda da entrevista ao Pedro Alexandre, um trecho que ilustra o que quero dizer:
“Uma vez estava fazendo uma novela, a gente desceu para almoçar e vieram umas meninas conversar. Parei de comer, óbvio, para tirar uma foto, dar um autógrafo. Não sei quem do elenco falou: “Como você permite que interrompam o seu almoço?”. Falei: “Escuta, meu filho, se não fossem elas eu não estava aqui. [Enfatiza] Nem você”. Se num dia você acordou meio virado, rodou a lâmpada, não sai de casa, meu filho. Ou muda de ramo. Estou aqui e vou reclamar porque uma fã quer tirar uma foto? [Imposta a voz] “Oh, interrompeu a minha refeição”, ah, pô, vai roubar para ser preso.”
Não conheço muitos atores ou músicos que teriam esse tipo de atitude.
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Fábio Jr. não tem problema em se assumir como brega ou romântico. Na música pop, isso é comum? Será que acharíamos esse trecho brega se fosse cantado em português:
“Let me give my love to you/ Let me take your hand”.
É de uma música do Death Cab for Cutie (“Meet Me on the Equinox”).
Outros exemplos:
“Her hair reminds me of a warm safe place/ Where as a child I’d hide” – Guns, “Sweet Child of Mine”
“Fell in love with a girl/ fell in love once and almost completely/ she’s in love with the world/ but sometimes these feelings/ can be so misleading” – White Stripes, “Fell in Love with a Girl”
“If you’d accept surrender/ I’ll give up some more/ Weren’t you adored / I cannot be without you, matter of fact/ I’m on your back, I’m on your back, I’m on your back / If you walk out on me, I’m walking after you – Foo Fighters, “Walking After You”
“Never opened myself this way/ Life is ours, we live it our way/ All these words I don’t just say/ And nothing else matters” – Metallica, “Nothing Else Matters”
“I don’t want to be your friend/ I just want to be your lover/ No matter how it ends/ No matter how it starts” – Radiohead, “House of Cards”
Nem vou colocar Coldplay. Seria covardia.
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Para encerrar: se achamos que na música de hoje tem muita picaretagem, Fábio Jr. nos revela que lá atrás as coisas não eram muito mais transparentes. No início de carreira, ele cantava sob o pseudônimo Mark Davis, para fingir que era americano. Ele conta como compunha as músicas:
“Era com dicionário na mão, ‘together’?, opa, rima com ‘forever’. A gente fazia show, saía todo mundo de óculos escuros, dizendo só ‘hi’ para neguinho achar que éramos americanos mesmo”.