“Goodbye Kiss”, do Kasabian, era uma música medíocre. Até chegar a Lana Del Rey.
A tão amada quanto odiada cantora que já nos deu “Video Games” fez um cover da música para o Live Lounge, programa apresentado pela Fearne Cotton na Radio One britânica.
De britpop genérico, “Goodbye Kiss” virou uma irresistível balada. Compare as duas versões.
The Ting Tings, Lana Del Rey e Ian Brown. Na mesma música.
Obra do Ting Tings, que num programa da britânica Radio 1 tocou ao vivo, misturadas e de forma acústica, “Born to Die”, da Lana, e “F.E.A.R.”, do Ian Brown.
Talvez tudo isso, mas não só. “Tramp”, disco da norte-americana Sharon Van Etten, e o inclassificável grupo Django Django também entram na lista.
Sharon Van Etten não é nenhuma novidade. Antes de “Tramp”, já havia lançado dois discos – e antes dos discos havia sido barista e namorava um sujeito que não botava fé em sua música e que constantemente a encorajava a largar a carreira.
“Tramp” é um disco forte, resultado de alguém que sabe exatamente o que está fazendo. Sharon tem uma voz pungente, seca, envolvida por melodias ásperas – lembra às vezes uma jovem PJ Harvey. Nesse sentido, ela está isolada dentro do cenário de cantoras pop: longe do party-pop de Lady Gaga, Beyoncé, Rihanna; do neo-soul de Adele e milhares de outras; do neo-gótico de Zola Jesus.
Um vigor energizante está presente no primeiro single, “Serpents”, que contrasta com a melancolia desesperadora de “Give Out”. Zach Condon, do Beirut, participa de “Magic Chords” e “We Are Fine”. “Warsaw” e “Kevin’s” são densamente lentas. E tem “Leonard”, em que confessa: “I am bad at loving you”.
Abaixo, Sharon Van Etten e “Serpents” no programa do Jimmy Fallon.
“Tramp” deve ser o disco que transformará Sharon Van Etten em um nome bem conhecido. Ela vai começar uma turnê grande pelos EUA e já está escalada para festivais como o South by Southwest (EUA) e o Primavera Sound (Espanha).
Não sei muito sobre o Django Django – sei que é um quarteto originário de Edimburgo e que está baseado em Londres. E que acabaram de lançar o primeiro disco, homônimo. E que é das coisas mais interessantes que ouvi ultimamente.
Música percussiva, quebrada, psicodélica, dançante. Com harmonias vocais que lembram Beach Boys. Música global, impregnada de referências, como boa parte do que vale a pena no pop hoje.
Classificar “Django Django” é impossível. Faixas como “Waveforms” e “WOR”, por exemplo, têm em comum apenas a interrogação que colocam no ouvinte: onde isso vai parar? Já “Default” ganhou remixes de JD Twitch e do Horrors.
É impossível dissociar “Born to Die”, disco de Lana Del Rey, da avalanche de notícias e comentários proporcionados pela cantora nos últimos meses. A primeira vez que ouvimos falar nesse nome foi no meio de 2011, quando chegou ao YouTube o clipe de “Video Games”. A partir daí, veio uma avalanche de comentários tanto celebratórios quanto raivosos.
Os elogios apontam para a voz sexy, para a estética sessentista, para sua misteriosa história de vida. As críticas miram a voz “fabricada”, o visual “fabricado” (de onde vêm esses lábios??), seu passado “fabricado” (como ela morava num trailer se o pai é rico???). Lana Del Rey: ame ou odeie.
É sempre bom aparecer gente assim, que polariza opiniões, que chacoalha o marasmo no qual vive a maioria dos nomes pop. Não dá para ficar imune a Lana Del Rey. OK, mas e o disco?
“Born to Die” está recheado de melodias bem construídas e é produzido de maneira profissional. Lana Del Rey juntou-se a um grupo de produtores que arquitetaram tanto (boa parte das) letras quanto arranjos. O curioso é que o resultado é tão assimétrico quanto as opiniões sobre a cantora.
O disco é produzido com competência porque não há nada fora do lugar, nenhum excesso. A voz de Lana é baixinha, às vezes apenas sussurros. Os arranjos são aveludados, com poucos elementos. É um clima assumidamente retrô, anos 1960, girl-sweet-pop.
Esse formato joga para o bem e para o mal: dá unidade ao disco, mas o torna cansativo.
“Born to Die” inicia com o quase trip hop da faixa-título; tem a melancólica “Blue Jeans”; “Video Games” e sua letra cortante (“Heaven is a place on Earth with you/ Tell me all the things you want to do/ I heard that you like the bad girls/ Honey, is that true?”); a quase-dançante “Diet Mountain Dew” – quando Lana Del Rey acerta, o resultado é emocionante.
Mas muito do disco soa repetitivo, variações de um mesmo tema (“National Anthem”; “Million Dollar Man”). Ou pior: soa genérico. “Off to the Races”, de batida urban, poderia ser uma pedrada na voz de Beyoncé – com Lana, é asséptica. “Radio” e “Carmen” parecem faixas demo da fase “Bedtime Stories” de Madonna.
Altos e baixos são normais em um disco de estreia (de estreia com essa persona; ela já havia gravado um álbum sob o nome Lizzy Grant). Sua recentes desastrosas aparições ao vivo (como no “Saturday Night Live”) podem servir de aprendizado. Lana não possui uma voz potente, não é tecnicamente perfeita – até aí, montes e montes de cantores/vocalistas se dão bem com poucos recursos. Lana é ainda (bem) menor do que a repercussão que irradia, mas algumas faixas de “Born to Die” mostram que isso pode mudar.