Amy Winehouse está morta. Como tinha 27 anos, a comparação é irresistível: mais um ídolo da música pop que se vai nessa idade, como Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison e Kurt Cobain.
Hendrix é considerado o melhor guitarrista da história do rock. Joplin abriu praticamente sozinha o caminho para as mulheres na música pop. Morrison é um ícone comportamental. Cobain foi o responsável por quebrar a fronteira entre o comercial e o alternativo. É justo colocar Amy Winehouse ao lado desses gigantes?

Amy Winehouse no festival Glastonbury, em 2008; Getty Images
Se o parâmetro for número de discos, habilidade musical, quantidade de fãs, certamente não. Amy lançou apenas dois álbuns, e o primeiro deles (“Frank”) nem fez tanto barulho. Tecnicamente, era uma boa cantora, mas há outras por aí com voz mais potente. E dá para citar vários popstars muito mais populares.
Mas seria uma miopia avaliar a importância de Amy apenas por esses critérios.
É ingenuidade acreditar que música pop limita-se apenas à música. Pop é música, imagem, performance – e, claro, o que o artista faz e fala fora do palco. Nesse sentido, Winehouse era uma popstar única deste século 21.
Sua influência na música de hoje é indiscutível. Ela capitaneou, no início dos anos 2000, uma revitalização da soul music. Foi seguida/copiada por um sem-número de cantoras e cantores, como Duffy, Adele, Mayer Hawthorne, Janelle Monáe. Até mesmo gente que estava na estrada há mais tempo, como Beyoncé e Madonna, olharam para Amy Winehouse.
Estamos em uma era em que artistas são cercados por executivos de gravadoras, assessores, agentes. Vivem em uma bolha e se expõem calculadamente. Winehouse, não.
Nunca fez questão de ser simpática com jornalistas para ganhar elogios em reportagens e críticas. Escancarava seus vícios e atitudes sem se preocupar se seria vítima de patrulhamento moral – e era.
Colocava sua vida em canções como “Rehab”, “Back to Black”. Assim, o que cantava era algo real, palpável, e não uma abstração.
Amy Winehouse não era uma popstar comum.
Sim, seu show em São Paulo em janeiro deste ano foi problemático. A voz de Amy estava seca, por várias vezes ela lutava para se manter em pé. Mas Amy era genuína (algo raro no pop), e todos sabemos que, se ela não está bem no palco, a culpa não é a falta de talento.
Com sua morte, inevitavelmente virão os discos póstumos, tributos e homenagens duvidosas. Fala-se que ela deixou um terceiro álbum semi-pronto. Tomara que Amy Winehouse seja tratada com o devido respeito.