Billie Holiday e a melhor música de protesto do mundo
Até os anos 1930, o linchamento de negros nos EUA (principalmente no sul do país, mas não só) era algo que acontecia com certa frequência. Brancos espancavam e matavam suas vítimas e, depois, penduravam os corpos em árvores. Segundo estimativas, entre 1889 e 1940 mais de 3.800 pessoas foram linchadas nos EUA.
Foi nesse ambiente que surgiu “Strange Fruit”. “Árvores do sul produzem uma fruta estranha/ Sangue nas folhas e sangue nas raízes/ Corpos negros balançando na brisa do sul/ Frutas estranhas penduradas nos álamos”, são os primeiros versos da canção imortalizada por Billie Holiday.
Para o lendário produtor musical Ahmet Ertegun, a música “foi uma declaração de guerra. O início do movimento pelos direitos civis”.
A história dessa canção é descrita em ”Strange Fruit: Billie Holiday e a Biografia de uma Canção”, imperdível livro de David Margolick. Lançado originalmente nos EUA em 2001, ganha edição brasileira pela Cosac Naify, com tradução de José Rubens Siqueira.
Mais do que opiniões, Margolick se apoia em fatos para contextualizar o nascimento e as consequências de “Strange Fruit” – e não é nada condescendente com Billie Holiday.
Billie Holiday tinha 24 anos quando cantou “Strange Fruit” pela primeira vez, no início de 1939, no Café Society, clube de jazz de Nova York frequentado por esquerdistas e, também, negros, em uma época em que a maioria das casas norte-americanas escolhia seus clientes de acordo com a cor da pele. “A única boate de Nova York realmente integrada, um lugar que servia pessoas progressistas e de mente aberta”, escreve Margolick.
Após encerrar a música, o público ficou paralisado. De repente, alguém começou a aplaudir, e depois todos reverenciavam Holiday, uma cantora que “adorava ler romances água com açúcar (…) e cantar sobre amor e romance”.
Billie Holiday gravou “strange Fruit” pela primeira vez em abril de 1939 – saiu pelo selo Commodore (a cantora a regravaria algumas outras vezes). A música dividiu opiniões. Publicações como New York Times, Life e Time abriram espaço para textos sobre a canção.
“Ela bate forte. É como se uma brincadeira de faz-de-conta terminasse e a cantora de blues que vinha escondendo sua tristeza num repertório de canções de amor levantasse a cortina e nos contasse o que a fazia chorar”, escreveu Samuel Grafton no “New York Post”. “É uma obra de arte fantástica, perfeita, que inverte a relação comum entre um artista negro e sua plateia branca: ‘Eu estava divertindo vocês’, ela parece dizer, ‘agora me escutem’.”
Outros críticos descreveram a música com menos entusiasmo. Para John Hammond, “Strange Fruit” foi “artisticamente, a pior coisa que aconteceu a Holiday. O começo do fim de Billie foi ‘Strange Fruit’, quando ela se transformou na queridinha dos intelectuais de esquerda.”
Hammond continua: “Ela começou a se levar a sério, a pensar que era muito importante. Assim que artistas pop começam a achar que estão dando uma contribuição à arte, algo acontece com a arte deles. Ela ficou maneirista, e isso é o que mais detesto em qualquer artista pop.”
A pesquisa de Margolick é farta, e ele apresenta em seu livro até a resposta de Holiday a Hammond: “Ah, John é careta, é só um ricaço que quer mandar na minha vida, dizer pra mim e pra todo mundo como agir”.
A música não foi um hit. Não apenas entre os brancos, mas também entre negros – muitos jovens achavam que a canção poderia insuflar o ódio racial. Várias rádios se recusaram a tocar a música. Não eram incomuns apresentações em que parte do público se levantava quando “Strange Fruit” era cantada.
“Strange Fruit” foi interpretada por vários outros cantores (Siouxsie and the Banshees, Josh White, UB40, Tori Amos), mas ninguém, nem mesmo Nina Simone, conseguiu se apropriar da música como Billie Holiday – e a própria autoria da canção gerou controvérsias.
Billie Holiday chegou a dizer (inclusive em sua autobiografia, “Lady Sings the Blues”) que ela havia escrito parte da letra. Em algumas entrevistas, inventava novas histórias sobre o nascimento da canção.
“Strange Fruit” foi composta como um poema por um professor branco, judeu e comunista de Nova York chamado Abel Meeropol. Antes de chegar a Holiday, “Strange Fruit” foi cantada por outras vozes, como a da própria mulher de Meeropol, em alguns encontros.
A canção foi levada a Holiday pelo produtor de um show que ela fazia no Café Society (esse produtor tinha ouvido a música dias antes).
Para Margolick, “Strange Fruit” foi, em parte, causa da decadência de Holiday: ”Uma música que forçou uma nação a confrontar seus impulsos sombrios, que ofendia grande parte do país, uma música que não lhe conquistou nenhum amigo influente que pudesse lhe dar uma mãozinha à medida em que ela mergulhava no abuso de drogas e se envolvia em cada vez mais encrencas com a lei.”
Após ser presa e ver sua voz ser abafada pelo consumo de drogas como heroína, Holiday morreu em 1959, aos 44 anos. Meeropol tinha 83 quando morreu, em 1986.
10 comentários | Comentar
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10 Pedro Granato 31/08/2012 11:44
sensacional. phoda. essa é de arrepiar.
9 sergio 31/08/2012 10:23
Infelizmente hoje não existe mais músicas de protestos, ninguém quer mais protestar por ai, os grandes artistas cantam o que suas gravadoras autorizam e nada mais.
8 André 31/08/2012 6:57
Não há como cansar de ouvir essa contundente canção avassaladoramente cantada e imortalizada por Billie,reza a lenda que quanto mais Billie se drogava(era dependente de heroína)mais dramática era sua interpretação para “Strange Fruit”.
E que belíssima canção,belíssima cantora que sem ela,não existiriam praticamente todas as divas de hoje e de ontem:
-Daianna Ross
-Barbra Streissant
-Elis Regina
-Elizeth Cardoso
-Amy Winehouse ….. entre centenas de outras divas
Entender Billie e toda a sua importância para o jaz e para a música mundial,deveria se matéria em toda e qualquer escola.Felicidade e tristeza misturados nesse misto em que ela vivia e da qual não entendia “os frutos estranhos” pendurados em árvores dos quais pela dor,ódio…nasceu uma das senão a mais contundente e dolorosa letra a falar sobre as desigualdades!!!!
7 leandro 30/08/2012 20:49
Com todo respeito aos meus amigos e suas opiniões divegentes, gostaria de dizer que a melhor musica de protesto de todos os tempos é ” GERAÇÂO COCA COLA” da LEGIÂO URBANA”
6 Higor Assis 30/08/2012 17:16
Só não entendi a relação do títutlo com o que esta escrito. Muito bem escrito, mas o título do texto da uma vazão de que ela influenciou o mundo todo, algo que não é verdade.
5 Sidney 30/08/2012 16:58
Em agosto de 1936, uma jovem chamada Martha Gelhorn conseguiu uma folga no jornal em que trabalhava e saiu em viagem, com alguns amigos, pelo interior dos Estados Unidos. No interior do Mississipi, uma tarde, o carro quebrou e eles ficaram na estrada. Foram socorridos por dois homens que estavam num caminhão e que prometeram levá-los a cidade mais próxima com as seguintes palavras: “Primeiro vamos ao linchamento de um porra de um negro chamado Hyacinth, se não me falha a memória.” O jovem negro foi linchado e dependurado numa árvore na presença do presidente do Rotary, do xerife, do prefeito e da fina flor da sociedade local. Os brancos se despediram: “Até logo Jake.”;… “E ai Billy”;…”Até amanhã Sam.”;…”Bem, não vai ter mais negro fresco por aqui por um bom tempo…”. Depois, virando-se para Martha e seus amigos “Vamos levar vocês para Columbia agora. Desculpe fazer vocês ficarem esperando…” O acontecido rendeu uma grande matéria para Martha, uma jornalista desconhecida do jornal “The Spectator”, (depois ela casou-se com Ernest Hemingway e ai já é outra história), fez furor na imprensa e o texto é considerado uma das melhores matérias do século 20 e iniciou o declínio da KKK. A música “Strange fruit” foi também inspirada nessa reportagem. Como Billie Holiday, Martha Gelhorn batia forte e sem medo… Um abraço, há, ainda, um longo caminho a percorrer…
4 teres virmond 30/08/2012 16:56
Aqui no Brasil nós sabemos muito bem que é isso. Centenas de heróis que deram suas vidas por um Brasil melhor e democrático são criticados por canalhas da direita. A mesma direita que enforcava e linchava negros na América. São os que são contra o aborto, mas o praticam. Em Brasília existe uma ponte que mantém o nome de um ditador. O mesmo ditador que cassou o mandato do criador e fundador da cidade. Pode covardia maior? O Joaquim Barbosa é constantemente execrado pelos serristas fernandistas da direita odiosa brasielira. Agora está virando um negro de alma branca, pois está fazendo a vontade da grande mídia conservadora e racista ao condenar o pessoal do mensalão. Na América os negros continuam sendo linchados, mesmo com um presidente negro no poder, mas de alma branca. Em Times Square, há três semanas atrás, um negro desenbanhiou uma faca mixuruca e mesmo semm ameaçar ninguém seriamente, levou doze tiros de dois guardas da polícia mais covarde do mundo, a de NY. Se fosse no Brasil, o PM dava uns dois tapas no negão, tomava sua faca e o mandava para casa curar a ressaca.
Thiago Ney 30/08/2012 15:40
sim, bem lembrado. isso está no livro
3 Renato Pompeu 30/08/2012 15:36
Deve se notar que Abel Meeropol criou os filhos de Julius e Ethel Rosenberg, casal executado na cadeira elétrica acusado de espionar para a União Soviética.
2 Luiz Roberto 30/08/2012 15:24
Se não me engano,foi por causa desta musica que, Janis Joplin, começou a cantar blues
1 Paulo Ilmar Kasmirski 30/08/2012 15:07
Já esta na hora de atualizar ou criar uma nova canção
Acrescentando esses motivos e mais motivos
Triste realidade que não devolve a vida que foi
http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2012/08/policia-ouve-tres-suspeitos-de-matar-delegado-do-dhpp.html
Viu tudo grátis de graça
São exemplos como os maus exemplos
Fazer propaganda demais fazendo de menos ainda dizer que tudo e de graça e grátis
Sem dar explicações altura ao mesmo tempo em que convença, para quando todos souberem o que poucos sabiam como vai ficar na hora do encontro na moral de tudo
Situações como essa que faze essa geração perder o rumo das coisas, depois que crescem as coisas são bem diferentes dessa realidade dos castigos presente que de graça custam caro
Porque nada e de graça essa conta todos paga de verdade
Fazer as besteiras que fazem as crianças os adolescentes têm reflexo dos adultos que deixam de fazer o certo nem lembrando que foi criança, e criança vira adulto com tudo grudado
Baseado nas besteiras que os adultos fazem passa nos programas de TVs como se a maioria praticasse essas mesmas besteiras
Sem medir as conseqüências pelas condições que cada um tem, e como tem os que têm
http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2012-08-29/condenacao-tira-joao-paulo-cunha-do-cenario-politico-por-pelo-menos-14-anos.html