Como estará a cabeça dos integrantes do time brasileiro na Davis? Contentes por terem feito uma boa participação na casa do poderoso adversário? Frustrados por terem, talvez um pouco tarde, descoberto que o bicho papão não era tão feio e que uma vitória, mesmo que uma zebra, era possível?
Lembro que eu ficava um tanto vazio após um confronto como capitão da Copa Davis. Mesmo quando vencíamos; pior quando perdíamos, porque somado à frustração e a pura desolação. Na época o estresse era bem maior. Bem menos pessoas envolvidas, o que acarretava em um acumulo maluco de funções. Hoje a CBT consegue arregimentar uma série de pessoas com diferentes cargos e tarefas, o que facilita bastante o trabalho de todos – e assim deve ser. Benefícios dos patrocínios disponíveis e conquistados que na minha época inexistiam, infelizmente.
Fazer uma avaliação precisa sobre as razões de derrotas/vitórias é um tanto ineficaz à distância. Primeiro porque muitos elementos e variáveis são desconhecidas de quem não está presente. Mesmo entre os presentes, a maioria não sabe de tudo o que se passa na semana da competição. Melhor tecer meras considerações, o que sempre tem as desvantagens e, porque não, os benefícios da distância.
Normalmente o melhor tenista do time é o líder e, muito importante, o motivador e inspirador, através de suas ações, em especial dentro da quadra. Fora delas não tão raro a motivação até vem de outros elementos. Infelizmente essa regra nem sempre é verdadeira. Tive jogador que temporariamente era foi o melhor rankeado do time e quando colocado sobre sua posição de líder, pelas circunstâncias de então, simplesmente amarelou, esperneou e exigiu que não lhe fosse dada essa responsabilidade. Como se fosse uma mala a ser carregada, quando a exigência é de atitude e personalidade.
Neste confronto, o time começou a tomar forma na atitude do Thiago, ainda na primeira partida quando foi derrotado pelo Isner. Muito positivo, se comunicando com seus companheiros, se motivando através de boa expressão corporal, tentando encontrar soluções, não se entregando. Atitudes que faltaram a Thomaz contra Querrey. Felizmente, no 3º dia Bellucci fez uma feliz autoanálise confessando seu extremo negativismo em quadra contra Querrey, mais um passo na direção de sanar seus problemas.
O time adquiriu, de vez, personalidade na maravilhosa vitória dos mineiros sobre os mascarados Bryans. Uma vitória de se tirar o chapéu por tudo que esteve envolvido. Fora de casa, contra adversários de muita qualidade, piso adverso, abalos emocionais durante a partida, exigência do placar do confronto. Tudo isso e mais eles souberam administrar e mostrar a todos que quiseram ver como se comporta em quadra quando em defesa de seu país.
Imagino que a conversa nos vestiários deve ter sido objetiva e direta. Antes dos jogos do 3º dia Bruno Soares, um líder nato, nos assegurava que a atitude de Thomaz seria diferente. Tinha certeza e razão. Foi.
Independente das condições – de quadra, circunstâncias e adversário – a postura e a vitória de Bellucci foram o que esperávamos tão ansiosamente. Além do que já fez, tenho certeza que Thomaz poderia ter feito mais. Na verdade, acredito que era jogo que ele poderia ganhar em três, no máximo quatro sets, sempre pensando em suas qualidades técnicas. O problema é esse. Eu sei, ele ainda não.
Não vou nem me estender sobre, por exemplo, a ausência do uso extensivo de slices em partida que assim exigi – quantas vezes o usou, e essa quadra adora essa bola. Mas, para ficar mais claro: durante 3 ou 4 sets Thomaz insistiu em errar devoluções por tentar fazer demais contra um tenista que não tinha condições de jogar com ele do fundo da quadra. No fim chegou ao ponto de simplesmente cutucar a bola em quadra para assegurar a “entrada” no ponto, o que ficou bem melhor do que os erros. Não que só isso fosse adiantar, pelo contrário, mas não precisava de tanto como imaginou. Apesar de que teve algumas devoluções importantes com seu forehand no lado da vantagem.
Falta ainda Thomaz encontrar sua sintonia em quadra – a maneira de posicionar a mente para o jogo. O seu negativismo brocha a todos em especial a ele. Adorei ele ter dado um sorriso em direção ao banco dos brasileiros quando jogava aquele game estressante quando tinha inúmeras vantagens e não conseguia quebrar para abrir as portas da vitória no quinto set. Talvez tenha sido uma inspiração da sua psicóloga, sei lá. Só sei que perante a adversidade e o estresse, ele achou aquele sorriso desarmado, real, meigo, cativante eque lhe fez mil maravilhas. Naquele ponto, como por instinto ou inspiração, a decisão de escolher o slice de revés, que saiu longo e lento, quebrou o adversário e lhe abriu as portas da felicidade.
Thiago Alves fez o que sabe e mais um pouco na partida final, o que traduz, ao pé da letra, o tal “espírito da copa Davis”. Ontem não deu. Mas, uma série de atitudes e acontecimentos podem ter aberto as portas para que o Brasil volte a ter um time de Copa Davis que se não nos traz títulos, nos traga felicidade, orgulho e vontade de torcer.
