A final
Esta vitória de Roger Federer merece dois posts, distintos e complementares. Um sobre a partida em si, outra sobre seu significado dentro de um contexto mais amplo e histórico.
A partida foi, como o próprio Federer admitiu, muito estranha. O suíço só saiu de quadra vencedor depois de conseguir quebrar o adversário uma única vez, após 4:16h de jogo. Devem ter sido 4:16h imensamente frustrante para um campeão de seu calibre. No entanto, não mais frustrante do que foi para Andy Roddick, que esteve a uma bola, por mais de uma vez, de liderar a partida por 2 x 0.
Roddick jogou muito tênis – um padrão que já havia mostrado na semifinal contra seu xará. Sacou muito, em termos de qualidade e não só de força, uma das mudanças que pode ser creditada a seu técnico. Também soube jogar do fundo da quadra, mesmo enfrentando um adversário que, notadamente, tem mais golpes do que ele – hoje isso não ficou evidente.
Uma partida decidida por 16 x 14 no quinto set obrigatoriamente foi decidida nos detalhes. O mais crucial, pelo menos para aqueles que conhecem o esporte, foi o fato do americano ter jogado atrás durante todo o quinto set. Só ali foi uma hora e meia e catorze games de pressão administrada por Roddick até a ultima bola. Lembrei-me de uma vez, como capitão da Copa Davis, quando Carlos Kirmayr venceu o terceiro set de uma partida contra um alemão no Ibirapuera, por 23 x 21. No intervalo, do 3º para o 4º, ele sentou na cadeira e, com a cabeça debaixo da toalha, chorou como uma criança durante um minuto e meio até se acalmar. Imaginem o alemão.
Enorme crédito deve ser dado a Federer por ter administrado o seu emocional ao longo da final. Imaginem o turbilhão de emoções, considerando o contexto e as circunstâncias. Ele estava tão ligado que notou quando Pete Sampras entrou, atrasado, na Quadra Central – e ainda o cumprimentou, o que deve ter sido a primeira vez que fez isso na sua carreira.
A partida foi tão maluca que apresentou os protagonistas em papéis trocados. Federer bateu seu próprio recorde de aces e executou muito mais deles do que o sacador Roddick. Já o americano foi o homem que teve a faca e o queijo na mão e ditou o ritmo da partida.
Se a partida foi dramática pela troca de liderança no placar e pela extensão do set final, foi menos densa emocionalmente e interessante tecnicamente do que outras disputas que temos acompanhado, neste e em outros GS, até porque foi um jogo muito dentro do contexto da quadra de grama. O serviço falou alto, as trocas de bolas foram curtas e maioria dos games sem grandes disputas. Dois sets no tie-break, um 7/5 e um 16/14 espelham isso.
Já tive a oportunidade de comentar que finais, na maioria, não são partidas de grande nível técnico pelas circunstâncias. Porém, mesmo notando um Federer mais tenso e, especialmente, conservador do que o normal, os dois tenistas se comportaram excepcionalmente, técnica e emocionalmente. Roddick não jogou, em nenhum instante, como um tenista inferior, enquanto Federer não cedeu às pressões que, mesmo quando bem mais leves, derretem tenistas menores. São dois grandes tenistas que realizaram um tremendo confronto como dois grandes campeões.
Notas relacionadas:
Autor: paulocleto Tags: andy roddick, Roger Federer











