Conversei com Thomaz Bellucci poucos dias antes do tenista embarcar para a Austrália. Ele falou sobre suas ambições e metas para a temporada e sobre alguns detalhes técnicos que buscaria inserir em seu tênis.
Assisti e comentei na ESPN boa parte de sua derrota para Andy Roddick na 2ª rodada do Aberto da Austrália. Cada partida tem sua realidade e um tenista pode, de acordo com o adversário, jogar melhor ou pior, assim ou assado. Particularmente um adversário como o americano, um dos mais experientes do circuito, entre os 10 melhores a mais tempo do que qualquer outro na ativa.
Thomaz vem melhorando a cada partida sua que assisto. Talvez, pela ansiedade de torcedor, podemos pensar que esse progresso poderia ser mais rápido. Porém tem sido constante e levou o tenista, aos 22 anos, a estar entre os 40 melhores do mundo.
Thomaz e seu técnico, João Swetch, reconheceram que seria necessário melhorar a regularidade do revés, onde cometia muitos erros não forçados. Definitivamente o quesito melhorou e o golpe como um todo também progrediu. Mas ainda não é um golpe que domine com confiança.
O que mais me chamou a atenção foi a insistência de como Thomaz cruzava seu revés, no golpe forte e consistente do adversário, e não procurando o seu golpe frágil, o que forçaria Roddick naturalmente cruzar no golpe forte de Bellucci ou então ao incomodo de mudar a direção da bola. Esse detalhe técnico deixou o americano em uma zona de conforto durante a maior parte das trocas de bola, assim como dificultou a vida de Thomaz.
A razão disso, creio, seria um desconforto técnico de Thomas em ir para a paralela com seu revés, já que até a maioria dos meus leitores sabem a gritante diferença de qualidade dos golpes do americano, como se vê pelos “comentários”.
Até mesmo se tivesse sido extremamente conservador e trocasse a direção das bolas com um slice ou bolas mais altas seguras e longas, do que fortes e penetrantes, teria mais sucesso do que cruzando e colocando mel na sopa americana. De qualquer maneira, o revés de Bellucci melhorou barbaridades, ele não bate mais só na cara da bola, colocando um razoável spin nas bolinhas, o que cria uma margem de segurança e ângulos.
Sei que uma de suas mudanças, que já apareceu na temporada passada, foi aumentar a porcentagem de 1º serviço em quadra e não só tentar aces. Hoje ele enfrentou um adversário que aprendeu isso depois de anos de carreira, graças a uma exigência do atual técnico. Assim, Roddick, que é um sacador, e por isso vivia em zona de alto risco, conseguiu a incrível, e bota incrível nisso, marca de sacar 80% de 1º serviço em quadra. Isso colocou muita pressão no brasileiro que não tinha espaço para jogar nos games do saque adversário.
Mas me pergunto se essa porcentagem se manteria se o jogo ficasse mais apertado e se Thomaz também aumentasse a sua porcentagem, que foi de 61%, ou se, alternativamente, fosse mais incisivo. Além disso, importante, Andy venceu 78% dos pontos com os 1ºs serviços enquanto que Thomaz ficou com 65%.
Outro projeto de Bellucci para a temporada é ir mais à rede para definir os pontos, já que sabe volear, tem uma ótima envergadura e não gosta de pontos longos. Mostrando disciplina tática, o que é uma forte qualidade no tenista, Thomaz foi à rede 28 vezes, o mesmo número de Roddick, e teve sucesso em 17 delas, uma a mais do que o americano.
Olhando de fora, sempre mais confortável, vejo uma enorme margem de possível progresso para o brasileiro. Técnico, emocional e físico. Achei que ele mostrou cansaço no terceiro set, o que seria fatal se o jogo estivesse parelho. Talvez fosse físico, talvez um desconforto com a eminente derrota.
Por vezes fica a impressão que Thomaz poderia “morder mais a raquete”, o que o tornaria mais perigoso do que provavelmente imagina. Por outro lado, segue uma característica de sua personalidade que o possibilitou ser o tenista brasileiro de maior sucesso desde Gustavo Kuerten.
Resta a ele a possibilidade de tentar modificar e acertar, dentro do possível e de sua vontade, suas características, limites e possibilidades para que a definição do seu sucesso na carreira seja escrito por suas mãos e não pela mão do Divino.

Bellucci e seu novo revés, quase lá.