17/07/2009 - 16:21
Uma das reações paralelas ao bizarro julgamento de Richard Gasquet é a comparação com o caso de Martina Hingis, suspensa por dois anos no ano passado pela mesma razão. A quantidade de cocaína encontrada no corpo de Hingis era ainda menor do que a “pitada de sal” mencionada no caso do francês. Se o teste fosse realizado pelo exército americano, que não quer seus soldados mais doidos do que já são e por isso os testam, ela ser enviada para o deserto do Iraque ou as montanhas do Afeganistão sem maiores problemas.
A diferença estaria na defesa de ambos. Enquanto Gasquet abriu o coração e entregou tudo o que aconteceu naquela noite na boite de strip-teasers – pelo menos na versão dele e que a FIT afirmou acreditar em cada palavra, o chamando de “homem integro e honesto” – Hingis, no pedestal de sua conhecida arrogância e combatividade, o contrário do afável francês, preferiu desafiar a FIT e todo o processo de antidoping. Para variar ela falou o que lhe veio à cabeça, resolveu não aprofundar sua defesa no tribunal e escolheu, mais uma vez, a aposentadoria precoce. Simplesmente mandou um fo….. Economizou com advogados, mas perdeu o dinheiro de prêmios, patrocínios e, talvez mais importante, perdeu a credibilidade.
A consequência imediata do “caso Hingis” foi que a FIT resolveu olhar com mais carinho à situação, já que, pela quantidade encontrada em Hingis, ela nem queria jogar melhor em Wimbledon nem teria cheirado algo que pudesse lhe dar algum “barato”. Com isso, passaram um memorando, logo após o julgamento, informando que “apesar de a substância ser proibida…não havia intenção de melhorar a performance… a sanção pode ser de uma advertência a dois anos de suspensão”. Estava aberta a porta para uma nova visão, que se tornou realidade no “caso Gasquet”, visão que só surgiu à custa da arrogância e o consequente sacrifício da “bonequinha de luxo”. Agora, que isso tudo continua sendo pessimamente administrado, continua.

Hingis, arrogante e pouco gostada no circuito.

Gasquet, tímido, afável e gostado no circuito.
Autor: paulocleto - Categoria(s): Tênis Feminino, Tênis Masculino
Tags: martina hingis, richard gasquet
10/05/2009 - 20:51
Aos 9 anos de idade, quando foi capa da mais importante revista de tênis da França, Richard Gasquet já era considerado um diferenciado e o melhor da sua idade no país. Seu pai era um técnico de tênis e seu professor. Seu talento era tanto e as expectativas tamanhas que aos 15 anos recebeu um convite para jogar o qualy de Monte Carlo, no quintal da França. Passou pelo qualy, batendo o romeno Voinea e o russo Davidenko e estreou na chave principal batendo o argentino Squillari e perdeu na segunda rodada para Marat Safin.
Naquele mesmo ano recebeu um convite para a chave principal de Roland Garros, onde foi derrotado pelo eventual campeão Albert Costa. Logo em seguida começou a vencer torneios Challengers e aos 16 anos já era um perigo no circuito.
Desde lá é uma promessa, a maior da França desde Yannick Noah, que nunca chegou a concretizar, como esperado, apesar de ter chegado a #7 do mundo em 2007, aos 20 anos. Nada mal, mas ainda menos do que os franceses e seus fãs esperavam. E talvez isso tenha sido seu veneno.
O problema é que o relacionamento de Richard com o pai é complicado, assim como seu relacionamento com a federação francesa, com o capitão da Copa Davis e com a imprensa. Resumindo, o rapaz é complicado.
Apesar do talento, muito claro na maneira como bate a esquerda, uma das melhores e mais bonitas do circuito, Gasquet nunca pareceu feliz em quadra. A mim sempre pareceu que gostaria de estar em algum outro lugar fazendo alguma outra coisa. E nunca me passou o sentimento que estaria inclinado a brigar por uma vitória. Sempre me pareceu a um passo da depressão. Ele não é um mau garoto, nem mascarado, nem agressivo, nem mal intencionado. Só complicado; possivelmente porque desde os 10 anos é pressionado por todos os lados.
Enquanto oscilava pelo circuito afora, ia causando todo tipo de frustração por conta do que poderia ser e de sua atitude quase indiferente perante as partidas e as derrotas. No ano passado a casa caiu quando arrumou uma encrenca, que se tornou pública, com o capitão da Davis, Guy Forget.
Forget o acusou de fazer corpo mole e se recusar a jogar uma partida, contra Roddick, insinuando que o rapaz teria medrado. Se as coisas já iam mal, ficaram pior. Desde então Richard vem prometendo dar uma reviravolta na carreira, mas as oscilações continuam, mesclando boas vitórias com derrotas inesperadas.
Agora é pego em dos exames do antidoping, realizado em Miami. Ali a coisa ia mal, já que saiu do torneio na ultima hora. Mas fez o exame, como são obrigados os tenistas sempre que é pedido. Não precisam estar jogando, nem na cidade dos eventos. Eles são obrigados a deixar a ATP saber onde encontrá-los, em um dia, para passar por exames na incerta. Os tenistas têm reclamado muito dessa pressão e exigência, mas enquanto jogadores continuarem serem pegos as exigências não devem mudar.
Ser pego com cocaína, uma chamada droga social, mostra que a preocupação de Gasquet não era melhorar seu rendimento e sim se divertir, o que mostra onde está sua cabeça. Mas o esporte em geral já decidiu que as drogas sociais também são proibidas por que esportistas devem servir de exemplo. Mas se for por falta de bons exemplos dados, sem falar em maus exemplos a toda hora evidenciados, muita gente por aí teria que fazer algo mais na vida, além de ser atleta. E não estou falando do tênis. É um pouco, talvez muita, de hipocrisia, mas as alternativas são ainda piores.

Gasquet, em um night club, em torneio na Romenia.
Autor: paulocleto - Categoria(s): Tênis Masculino
Tags: richard gasquet