Jeitinho
Um dos meus leitores, Luis Jr., me censura por publicar o texto do Gabriel “O Bicão” e suas aventuras em Indian Wells. Luis diz que passou 10 anos fora, estudando e trabalhando, e relembra um dos meus ídolos jornalísticos, o terrível Paulo Francis, que teria dito que o “brasileiro é um povo chinfrim” por conta de algum jeitinho brasileiro, presumo mais na área política do que juvenil. Não duvido que o Francis tenha dito isso, aliás, não duvido que ele tenha dito qualquer coisa.
Também morei fora durante anos, assim como Gabriel o está fazendo e Luiz já fez. Cada um de nós aprende e guarda experiências distintas com as oportunidades e desafios que surgem. Não sei exatamente quais foram as do Jr, nem há quanto tempo voltou. Imagino que não há muito.
Sei que desde há muito o tal do “jeitinho brasileiro”, com seu lado danoso é uma das características mais perniciosas deste nosso povo. Não vou ensinar a missa para um bando de devotos, até porque vocês conhecem cada detalhe desse veneno social.
No entanto, morei também nos EUA, lugar que aprendi a gostar, de mais de uma maneira, assim como me torneio cético com mais de uma coisa sobre o país. Uma delas é justamente o “Politicamente Correto”, algo que fala alto sobre a forte faceta hipócrita do país, exarcebada por recentes governantes.
Luiz Jr lança tons acusatórios na direção de Gabriel, porque este realizou e até se vangloria de uma série de pequenos delitos, sendo que o pior foi entrar onde não tinha autorização nem ingresso. Não sei se foi tudo exatamente como ele descreve. Sei que fotografou da primeira fila do estádio, assim como fotografou o Nadal na sala de entrevistas. Mas, como dizem os americanos, “no harm done“, assim como diz o leitor Luciano Silveira, vejo ali mais um “prank”, algo que os americanos entendem e presumem nos jovens.
Gabriel é um tenista e estudante por lá, quase um sinônimo de duro, e como tenista se achou no direito, quase na obrigação, de entrar no torneio de um jeito ou de outro. A linha entre a audácia e a inconveniência é tênue e, admito, não é para qualquer um navegá-la e sempre fazer a decisão correta. No entanto, uma das facetas mais marcantes do sucesso do povo americano – já que o evento era lá – é o empreendedorismo, algo que presume o risco e uma personalidade agressiva na busca de seus intentos.
À parte dos julgamentos morais, ficam as razões pelas quais eu publiquei as fotos e o texto do rapaz. Já escrevi em diversas ocasiões que o faria, desde que as fotos e texto acrescentassem algo, jornalisticamente ou tenisticamente, ao Blog e aos leitores, o que, até pelos Comentários, aconteceu.
Entendo a posição do Luis Jr e sua indignação; também tenho seriíssimas restrições ao “jeitinho” e seus perniciosos derivados. Mas vejo as artes de Gustavo e amigos mais pelo lado aventureiro ligado à juventude, momento único em nossas vidas e onde, teoricamente, aprendemos, por nossa conta e risco, quais serão nossos limites e posturas para o resto de nossas vidas. E no processo, presumo, algumas bobagens serão feitas e não mais repetidas. A não ser que seja irremediavelmente necessário.
Na primeira fila – jeitinho, audácia, inconveniente, politicamente incorreto?
Notas relacionadas:
Autor: paulocleto Tags: indian wells, politicamente correto