Já passou da hora de dormir, mas eu acabei de chegar de uma rápida viagem de uma hora e preciso abaixar a adrenalina. Na viagem, sozinho na estrada com Pink Floyd no ipod, fiquei pensando na belíssima oportunidade que os ingleses desperdiçaram em provar que, como eles gostam de colocar, Wimbledon é maior do que seus personagens.
Hoje foi o dia perfeito para alguém chegar ao honorável Duque de Kent, manjado personagem e presidente do All England Lawn Tennis and Croquet Club, e lhe sugerir que o troféu fosse entregue, em conjunto, por aqueles três monstros sagrados presentes na Quadra Central: Rod Laver, Bjorn Borg e Pete Sampras.
Ficaria mais conveniente, digno, interessante e majestoso dessa maneira. O Duque até que poderia adentrar a quadra e cumprimentar os pegadores de bola, naquela batida e patética demonstração de condencêdencia real com os súditos, mas a entrega – que é de mentirinha, já que o troféu permanece no clube – seria realizada pelos tenistas. Teria mais significado e tal ato de grandeza só serviria para confirmar que tal exceção confirma a regra.
Para contrastar, publico abaixo a foto dos quatro campeões logo após a saída da Quadra Central e o vídeo da emocionante entrega de prêmios do Aberto da Austrália, quando os australianos tiveram o bom senso de convidar o campeão Rod Laver para entregar o prêmio a Roger Federer. Vejam e ouçam como Roger esteve inspirado e emocionado nesse dia com a presença do veterano campeão. A foto do Duque vocês não vão ver aqui.
Existem momentos mágicos em nossa história que, não raro, só realizamos sua importância e magia mais tarde. Durante onze anos seguidos fui a Wimbledon, escrevendo para o Jornal da Tarde e O Estadão onde contava minhas aventuras e desventuras no torneio e na cidade de Londres.
Com o tempo consegui algo que, infelizmente, com o tempo decidi abrir mão; uma cadeira cativa na Quadra Central, o palco mais restrito e famoso do mundo esportivo. Posso garantir que essa cadeira, que tem um número limitado, é imensamente difícil de merecer e conseguir e que todo mês de Julho tenho saudades dela.
Em 2001, Pete Sampras, então com 30 anos incompletos, defendia seu título do ano anterior, assim como os sete conquistados anteriormente no All England. Nas oitavas de final, quis o destino que ele enfrentasse Roger Federer, 20 anos incompletos, dono de um único título no ATP Tour, em Milão, em Fevereiro daquele ano.
Eu já tivera a oportunidade de ver o suíço jogar, como juvenil e como profissional, em algumas oportunidades anteriores. Conhecia seu talento natural, suas habilidades e tinha curiosidade em ver aonde suas qualidades poderiam levá-lo. Achei que assisti-lo enfrentar o hepta-campeão na Quadra Central seria um bom programa.
Fiz um lanche rápido, escrevi minha coluna do dia e fui ao templo sagrado do tênis completar o programão do dia – acompanhar o jogo que começou no meio da tarde. O que presenciei naquele dia foi História.
A partida, vencida por Federer por 7/6 5/7 6/4 6/7 7/5, foi a única entre esses dois tenistas que marcaram a história do tênis. Até ontem, com a vitória de Federer em Paris, havia a dúvida sobre o “Melhor da História”. Talvez ainda exista. Mas se o leitor quiser um tira-teima, um divisor de águas, um símbolo, esse é o confronto.
De um lado da quadra, onde conquistara o mais reconhecido sucesso de sua magistral carreira, o experiente Sampras começava a contemplar o crepúsculo de sua carreira – só venceria mais um Grand Slam, em Nova York no ano seguinte. Do outro lado da rede, um jovem talentoso, habilidoso e desinibido como poucos em palco tão exigente, no qual pisava pela primeira vez, só conquistaria seu 1º GS naquela mesma quadra dois anos depois.
Sampras era, claramente, o favorito – do jogo e do público. Federer a auspiciosa promessa. O confronto foi inesquecível, pela qualidade, pela surpresa, pela circunstância. Como uma premonição do por vir, Federer saiu vitorioso, na que foi a melhor partida do torneio, derrotando um campeão que estava a 31 partidas consecutivas invicto no torneio. Naquele dia, Roger mostrou todas as qualidades, técnicas, emocionais e mentais, que o levaram a bater o então campeão e o levariam a um dia desbancar o então melhor da história.
O jogo foi um dos últimos e inesquecíveis confrontos do mais purista e clássico saque-voleio do tênis. Uma exibição para fazer sonhar todos aqueles que cresceram admirando o tênis original praticado sobre a grama e que hoje, por N razões, começa a pertencer a um passado tão distante quanto o das cartas de amor e viagens de trem. E, com certeza, são as essas imagens, das quais apresento breve amostra no vídeo abaixo, mais uma das razões pela qual o mundo se curva e cede, com tranqüilo desprendimento, aos encantos do tênis praticado por esse terrivelmente “cool” tenista dos Alpes.
Como curiosidade, coloco abaixo trechos pinçados da minha coluna do Jornal da Tarde da época, onde menciono o garoto Roger Federer. Eles estão exatamente como foram escritos, pouco mais do que oito anos atrás.
“ Na segunda semana de Wimbledon as partidas concentra-se nas quadras principais. As secundárias passam a ser usadas pelos juvenis e os veteranos. O evento juvenil, que é disputado desde 1947, é oficial e tem suas inscrições por mérito. O dos veteranos é um evento por convites. Entre as garotas tivemos uma semi-finalista na figura de Vera Lúcia Cleto em 1968. Entre os garotos já tivemos dois finalistas. O paranaense Ivo Ribeiro em 1957 e o carioca Ronald Barnes – brasileiro com o tênis mais bonito e vistoso que já pegou numa raquete – em 1959. Quem me lembra o seu estilo é o suíço Roger Federer, tenista que é um prazer assistir.”
“O suiço Roger Federer, de 19 anos, é, junto com o russo Marat Safin, o maior talento da nova geração. O seu, além de ser um tênis de resultados, é também o mais vistoso das quadras. Elegante, do instante em que entra na quadra, ao momento que cumprimenta o adversário, é um “gentleman” também fora delas. Durante as partidas mantém uma postura raramente vista em tenistas da sua idade. Às vezes parece carecer uma pitada de garra. Talvez o tênis lhe seja tão fácil que nos parece sem esforço. Sua vitória sobre Pete Sampras veio como uma surpresa somente para aqueles que não tem tido a oportunidade de acompanhar a sua breve carreira.”
“ Somente as agruras de Sampras não seriam o suficiente para causar sua derrota em Wimbledon. Ele precisaria encontrar um adversário a altura. E foi isso que aconteceu ao enfrentar o maravilhoso tenista Roger Federer. O amigo leitor pode ficar sossegado. Ainda vai ver muito esse “young gentleman” suíço. Isso porque, insisto, o rapaz tem o tênis mais bonito que freqüenta as quadras do tênis profissional.”
Confesso, sem maiores inibições, uma pitada de orgulho em ter escrito essas linhas, assim como uma alegria interior em ter presenciado essa premonição da história oito anos atrás.
Foi técnico de jogadores como Luiz Mattar, Jaime Oncins, Carlos Kirmayr e Cássio Motta. Dirigiu a equipe brasileira na Taça Davis durante 17 anos e a equipe olímpica em Seul, Barcelona e Atlanta. Foi chefe da equipe no Panamericano de Winnipeg e técnico de equipes juvenis brasileiras campeãs Sul-Americanos e Mundiais.