Decepção da Temporada
Para quem não lembra, ou para quem na época pensava que tênis era tão somente algo para se calçar, o tênis feminino viveu épocas ambíguas antes do surgimento da russa Anna Kournikova.
Para quem imagina que a sensualidade e feminilidade no circuito apareceram somente com o surgimento da ninfeta moscovita é porque não conheceu as calcinhas rendadas de Karol Fagero nos anos 50 ( um prêmio para quem achar uma foto dela na internet) – infelizmente o uso de calcinhas rendadas não assegurava a feminilidade de tenistas em quadra – ou viu, entre muitas outras fêmeas, Chris Evert mostrando a muito machão como unir feminilidade e força interior.
Mas a russa chegou chutando a porta das tradições e o mundo do tênis estava mais do que pronto para seu sensual ataque. Lembro de seu impacto, ainda aos 16 anos, no players lounge. Posso garantir que vocês nunca viram nada igual. Centenas de pessoas, tenistas de ambos os sexos, técnicos, agentes, parentes, cartolas, executivos, todos reduzidos a capacho e boquiabertos quando a ninfeta entrava com a barriguinha de fora, shortinho curto e colado, seios transbordando, pernas suadas lustrosos em rabo de cavalo e make-up. O mundo do tênis nunca tinha visto aquilo.
Até então o players lounge era um local onde ninguém chamava a atenção e o padrão feminino era cara lavada, cabelos escorridos, calções longos, blusas largas – sensualidade zero. Isso quando não se vestiam de homem, o que Martina Navratilova e suas amigas adoravam fazer e influenciar. Na época, se dizia que o vestiário das moças tinha mais macho do que o dos rapazes, um exagero que tinha sua mensagem.
Anna Kournikova mudou isso. Eu soube que o circuito jamais seria o mesmo no ano em que, indo para Wimbledon, vi pelo caminho vários outdoors da Kournikova posando para um audacioso comercial de soutiens. Dias depois Martina Hingis chutou o pau da barraca ao quebrar, unilateralmente, seu contrato com a marca de roupa italiana Sergio Tachini e ir para a Adidas porque esta lhe prometeu vesti-la igual a Anna Kournikova. Hingis era a número 1 do mundo, mas queria mesmo era ser sexy.
Hoje a tenista tem que ser muito macho para se vestir de homem – elas querem ser fêmeas e vistas como tal. As últimas que encaravam uma transgressão eram a Mauresmo, que atenuou o sotaque nos últimos anos, e a habilidosa grega Daniilidou, que vi deitada no gramado da entrada do estádio da Costa do Sauípe, na frente de dezenas de pessoas, alisando as pernas de uma amiguinha enquanto lhe cochichava ao ouvido.
Estou escrevendo isso para colocar a idéia da importância da sensualidade no tênis feminino na última década. No entanto, elegi o tênis feminino como um todo “A Grande da Temporada”. Pelo andar da carruagem, as moças parecem acreditar que é mais importante ser uma Kournikova do que, digamos, para não ir longe no tempo, uma Henin.
Hoje as meninas parecem preocupadas em demasia com capas de revista e fotos sensuais (?!) do calendário da WTA e uniformes modelitos, do que focarem em suas carreiras tenisticas. Para não se falar no pesadelo de ter que acompanhar, mesmo à distância, Serena Williams usar aquelas suas roupas em quadra como se fosse a resposta tenística da mulher-melância, acreditando ser uma rival da Stella McCartney, se achando um presente dos deuses e ameaçando juízas de linha. A maioria não está nessa viagem, nem estou dizendo que o problema se reduz a isso, mas a coisa desandou.
O problema se tornou gritante com a inesperada, beirando o absurdo, vitória de Kim Cljisters no U. S. Open, depois de pendurar a raquete, ser mãe e ficar mais de dois anos sem jogar. Nada contra a moça – que é o contraponto de tudo descrito acima, e talvez até por isso realizou tal feito – mas já imaginaram isso acontecendo no masculino? Pat Rafter larga a mulher, volta às quadras, bate Federer no quinto set da final de Wimbledon, depois de um juiz roubar uma bola longa na paralela e o suíço arregaçar as mangas da camisa e ameaçar estourar o cérebro do juiz com uma raquetada?! No way, Mané!
Isso para não falar sobre o delirante fato de que as mulheres se derretem emocionalmente na frente de milhões de pessoas cada vez que tem que manter seus serviços e surtam quando chegam ao topo do ranking, algumas sem ter ganhado um único Gran Slam. Aliás, será que o Murray conseguirá tal façanha na ATP? Depois que a belíssima noiva dele disse, a semana passada, que o largou porque ele preferia jogar Wii a bater umas bolinhas com ela, eu vou mesmo é dormir e sonhar com a Eleninha. Mentirinha…



Vamos bater umas bolinhas?




Notas relacionadas:
Autor: paulocleto Tags: dementieva, kournikova, navratilova, penneta

