Luiz Mattar | Paulo Cleto

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terça-feira, 11 de agosto de 2009 Minhas aventuras, Tênis Brasileiro | 20:07

Escolha do coração.

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Com o retorno de Rafael Nadal às competições, o assunto das contusões na carreira de um tenista e o pedido de um dos leitores, me veio à mente dois casos de contusões na minha carreira de técnico

Vou contar o primeiro, já que teve também um final feliz, o que é sempre bom. Em 1988, já no final da temporada, meus tenistas na época, Cássio Motta e Luiz Mattar foram jogar um Challenger na Academia de Tênis de Brasília. Era uma época de ouro no tênis brasileiro, com muitos eventos, incluindo alguns Torneios da ATP – como lembrou um dos leitores, chegamos a ter quatro ATP Tour em uma temporada.

O evento, jogado em Novembro, era a penúltima semana de torneios dos tenistas brasileiros, que terminaria na semana seguinte em Itaparica, um ATP Tour. Como eram jogados no mesmo piso, praticamente os mesmos tenistas compareciam, deixando a chave forte para um torneio Challenger.

Como era costume, e minha exigência, meus tenistas faziam um esforço a mais em jogar em casa, já que sempre fui fiel à estratégia de que tenista precisa jogar bem perante seu público. Mattar e Motta se enfrentaram nas semifinais com vitória do primeiro, que não perdeu um set sequer até chegar à final.

O problema foi que na partida contra Motta, Mattar sentiu uma contusão nas costas e ficou completamente travado, doído e sem movimentação. Falamos bastante com o médico do evento e com a fisioterapeuta, que se dispôs nos ajudar no que fosse necessário.

Mattar tomou uma injeção de antiinflamatório e começou a fazer o que terminou sendo uma sessão de fisioterapia de 24 horas. Foram horas de alternância de calor e gelo, com os intervalos monitorados, seções de jacuzzis, e um verdadeiro atendimento a pão-de-ló pela fisioterapeuta gaúcha Silviane, que tomou conta dos tenistas da equipe de Copa Davis durante anos. Até mesmo à noite ela entrava no quarto do Mattar, para continuar as sessões de fisioterapia enquanto ele dormia.

Na manhã seguinte a duvida se ele poderia entrar em quadra persistia mais do que nunca. Como Mattar nunca foi homem de pular fora de suas responsabilidades, ele decidiu entrar em quadra e jogar. E como nunca foi tenista só de jogar, entrou para ganhar.

Como não poderia deixar de ser, vivi toda a tensão da contusão e a dúvida sobre e final. Cada minuto daquelas 24 horas eu passei ao lado do tenista, fazendo o possível para que ele tivesse uma chance na final. Jogar bem, e em especial vencer um torneio, é sempre um grande fator de motivação para as férias e a duríssima pré-temporada que vem logo a seguir.

O estádio estava lotado e a torcida era toda brasileira contra o espanhol Javier Sanchez, um arqui-rival do brasileiro. Mattar perdeu o primeiro set por 6/3, reagiu e venceu o segundo por 6/4. No terceiro o efeito do antiinflamatório começou a passar. Como o juiz, o adversário e o árbitro sabiam do caso, algo quase inédito aconteceu. Já conversado anteriormente, se fosse necessário, o médico entrou em quadra e aplicou outra injeção de antiinflamatório – no bumbum de Mattar, atrás da cadeira do juiz, com um pegador de bola segurando uma toalha como biombo. Naquela noite o Jornal Nacional mostrou a cena no horário nobre da TV Globo, assim como no dia seguinte a foto estampou as primeiras páginas dos jornais brasileiros.

Sabe-se lá de onde, com certeza também da vibração que vinha das arquibancadas, Mattar encontrou força para virar e ganhar a partida por 7/5 no terceiro, em uma das partidas mais emocionantes que aconteceu no Brasil.

Respondendo ao leitor sobre qual foi a minha vitória mais emocionante como técnico, respondo que foram tantas que fica impossível escolher uma única. Mas aquele dia em Brasília estava fadado a ser um dia de acontecimentos inéditos. Imediatamente após apertar a mão do adversário, Mattar caminhou para a lateral da quadra e vi em seu olhar algo que nunca tinha visto antes. Pulei dentro da quadra – ta aí mais uma inédita – nos abraçamos e, pela primeira vez em minha carreira de técnico, chorei, abraçado no tenista que tinha feito das tripas coração e acabou por chorar também.

Se minha cabeça não consegue determinar a mais emocionante das vitórias, naquele dia o coração o fez.    

Autor: paulocleto Tags: ,

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009 Tênis Masculino | 15:50

Teimosura

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No relacionamento técnico-jogador nem sempre o técnico ganha as discussões. Infelizmente, ou felizmente? Tenista é um bicho cabeça-dura e alguns só são piores do que outros. Vocês acham que o Federer não quer um técnico por que? Primeiro porque não quer dividir as glórias, mas principalmente porque não quer ouvir o que não quer. Por isso sua ultima tentativa foi Tony Roche, um técnico que não vai forçar nada, nem discutir coisa alguma. Com o barco vazando água talvez aceite um Cahill na sua vida, que é um longo caminho de um técnico mais assertivo.

Digamos, ao contrário de um Brad Gilbert ou mesmo um Jimmy Connors, que trabalharam com Andy Roddick e que o americano mandou embora por conta das divergências até suaves. Sabem por que o Connors foi despedido? Na volta de uma das viagens ao Oriente, Andy queria parar e treinar em Nova York, onde, por acaso, estava sua nova namorada e hoje noiva, a modelo Brooklyn Decker, uma figura de parar o trânsito ou, na pior das hipóteses, fazer um homem perder o caminho de casa.

Connors, o técnico que casou com uma coelhinho da Playboy e devia conhecer melhor o poder das entranhas, bateu o pé e disse para o pupilo vir para a Califórnia, onde ele mora. Os dois colocaram seus pontos de vista, nenhum quis ceder e a discussão ficou pessoal, o pior cenário para uma desavença profissional. Roddick deve ter feito as contas de quanto era o salário semanal, quem estava no lado pagador e quem estava no lado recebedor, e acabou despedindo o técnico que nunca foi homem de abaixar a cabeça para ninguém nem precisa de dinheiro para viver muito bem. Esse negócio de democracia em um relacionamento técnico/jogador é um tanto difícil de acontecer como de administrar. Um sempre acaba cedendo mais do que o outro ou há uma alternância ou a vara quebra.

Com certeza o tenista mais inflexível dos que treinei, ou pelo menos o que não fazia muita cerimônia em ser inflexível, foi Luiz Mattar. Nosso relacionamento nas quadras durou 10 anos, praticamente toda sua carreira. Uma de suas principais qualidades, e uma das razões para ter se dado bem em um circuito tão competitivo, foi essa sua característica, que pode ser também uma razão para dificultar o crescimento e ampliar os horizontes. Algumas de nossas divergências foram marcantes, umas divertidas outras nem tanto, não raras curiosas e muitas incontáveis.

Em 1987 Mattar venceu a semifinal do Torneio de Itaparica, batendo Sergio Casals, atual sócio de Emilio Sanchez em suas academias, nas semifinais. A partida foi uma batalha, com Nico se impondo no terceiro set, debaixo daquele sol baiano que tantas vezes mandou tenistas “animais” de físico, como Muster e Courier, precocemente para casa.

Após horas de uma luta excruciante, debaixo de sol escaldante ,Mattar queria dormir no ar condicionado ligado no máximo, algo que eu não aprovava nem gosto. Uma coisa é o ar condicionado para refrescar, outra é deixá-lo no máximo como se fosse o Alasca, para contrastar com o calor dos infernos dentro de uma quadra. Lembro que naquela noite discutimos por conta disso. Como o cara havia vencido a semifinal e no dia seguinte teria que voltar à quadra para jogar a final, foi de sua maneira.

A final era contra Andre Agassi, então com 18 anos e sem nenhuma responsabilidade de vencer. Mattar deve ter dormido como um anjo no seu adorado friozinho. Eu, da minha parte, tinha que me enrolar em cobertores nessas horas e, convenhamos, é um paradoxo passar a noite debaixo de um cobertor na Bahia.

Na manhã seguinte Nico acordou totalmente entupido e febril, tanto pelas horas debaixo do sol como pelo contraste da noite dormida no ambiente polar. Não que ele admita isso até os dias de hoje, mas Deus os fez teimosos e então tenistas.

O primeiro set, novamente debaixo de um calor dos infernos – vale lembrar que Agassi cresceu no deserto do Nevada e treinava na Florida – ainda foi equilibrado, sendo decidido no 7×5. No segundo set, a saúde do brasileiro, que também era um “animal”, arriou de vez e o americano partiu para o primeiro título de sua ilustre carreira; os dois ainda jogariam uma outra final, desta vez em Scottsdale, no deserto do Novo México, com outra vitória de Agassi.

Se desta vez a teimosia do tenista pode ter lhe custado um título, que eu totalmente acreditava ser possível nas circunstâncias de então, a mesma teimosia lhe abriu a porta de outro título, assim como me abriu uma porta para qual lhe serei grato até o fim dos meus dias. Mas isso é para outro dia, outro post. Um dia é da caça e outro do caçador. Hoje é da caça.

 Mattar, bravo dentro das quadras.

 

 Inaugurando mais um call center.

 

Notas relacionadas:

  1. Um oceano de habilidades
  2. Sacadores 2008
  3. DEVOLVEDORES
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