Escolha do coração.
Com o retorno de Rafael Nadal às competições, o assunto das contusões na carreira de um tenista e o pedido de um dos leitores, me veio à mente dois casos de contusões na minha carreira de técnico
Vou contar o primeiro, já que teve também um final feliz, o que é sempre bom. Em 1988, já no final da temporada, meus tenistas na época, Cássio Motta e Luiz Mattar foram jogar um Challenger na Academia de Tênis de Brasília. Era uma época de ouro no tênis brasileiro, com muitos eventos, incluindo alguns Torneios da ATP – como lembrou um dos leitores, chegamos a ter quatro ATP Tour em uma temporada.
O evento, jogado em Novembro, era a penúltima semana de torneios dos tenistas brasileiros, que terminaria na semana seguinte em Itaparica, um ATP Tour. Como eram jogados no mesmo piso, praticamente os mesmos tenistas compareciam, deixando a chave forte para um torneio Challenger.
Como era costume, e minha exigência, meus tenistas faziam um esforço a mais em jogar em casa, já que sempre fui fiel à estratégia de que tenista precisa jogar bem perante seu público. Mattar e Motta se enfrentaram nas semifinais com vitória do primeiro, que não perdeu um set sequer até chegar à final.
O problema foi que na partida contra Motta, Mattar sentiu uma contusão nas costas e ficou completamente travado, doído e sem movimentação. Falamos bastante com o médico do evento e com a fisioterapeuta, que se dispôs nos ajudar no que fosse necessário.
Mattar tomou uma injeção de antiinflamatório e começou a fazer o que terminou sendo uma sessão de fisioterapia de 24 horas. Foram horas de alternância de calor e gelo, com os intervalos monitorados, seções de jacuzzis, e um verdadeiro atendimento a pão-de-ló pela fisioterapeuta gaúcha Silviane, que tomou conta dos tenistas da equipe de Copa Davis durante anos. Até mesmo à noite ela entrava no quarto do Mattar, para continuar as sessões de fisioterapia enquanto ele dormia.
Na manhã seguinte a duvida se ele poderia entrar em quadra persistia mais do que nunca. Como Mattar nunca foi homem de pular fora de suas responsabilidades, ele decidiu entrar em quadra e jogar. E como nunca foi tenista só de jogar, entrou para ganhar.
Como não poderia deixar de ser, vivi toda a tensão da contusão e a dúvida sobre e final. Cada minuto daquelas 24 horas eu passei ao lado do tenista, fazendo o possível para que ele tivesse uma chance na final. Jogar bem, e em especial vencer um torneio, é sempre um grande fator de motivação para as férias e a duríssima pré-temporada que vem logo a seguir.
O estádio estava lotado e a torcida era toda brasileira contra o espanhol Javier Sanchez, um arqui-rival do brasileiro. Mattar perdeu o primeiro set por 6/3, reagiu e venceu o segundo por 6/4. No terceiro o efeito do antiinflamatório começou a passar. Como o juiz, o adversário e o árbitro sabiam do caso, algo quase inédito aconteceu. Já conversado anteriormente, se fosse necessário, o médico entrou em quadra e aplicou outra injeção de antiinflamatório – no bumbum de Mattar, atrás da cadeira do juiz, com um pegador de bola segurando uma toalha como biombo. Naquela noite o Jornal Nacional mostrou a cena no horário nobre da TV Globo, assim como no dia seguinte a foto estampou as primeiras páginas dos jornais brasileiros.
Sabe-se lá de onde, com certeza também da vibração que vinha das arquibancadas, Mattar encontrou força para virar e ganhar a partida por 7/5 no terceiro, em uma das partidas mais emocionantes que aconteceu no Brasil.
Respondendo ao leitor sobre qual foi a minha vitória mais emocionante como técnico, respondo que foram tantas que fica impossível escolher uma única. Mas aquele dia em Brasília estava fadado a ser um dia de acontecimentos inéditos. Imediatamente após apertar a mão do adversário, Mattar caminhou para a lateral da quadra e vi em seu olhar algo que nunca tinha visto antes. Pulei dentro da quadra – ta aí mais uma inédita – nos abraçamos e, pela primeira vez em minha carreira de técnico, chorei, abraçado no tenista que tinha feito das tripas coração e acabou por chorar também.
Se minha cabeça não consegue determinar a mais emocionante das vitórias, naquele dia o coração o fez.

